Versão 2025 revista e atualizada
Preservada a grafia original do hino (sem correção ortográfica).
SANTA ESTRELA QUE ME GUIA
VÓS ME DÊ A SANTA LUZ
OS TRÊS REIS DO ORIENTE
QUE VISITARAM JESUS
Segundo a grafia da Bíblia de Jerusalém, 2002: “(…) Ao entrar na casa [os três reis], viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se [humildaram-se] o homenagearam. Em seguida, abriram [revelaram] seus cofres [o que está oculto por seu valor] e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2, 11. Colchetes meus).
Após a primeira estrofe (versículo), que atesta a visita dos magos, este hino traz na sequência mais quatro versículos, todos associados aos presentes ofertados, pois de acordo com os exegetas da Bíblia supramencionada, “Para os Padres da Igreja simbolizam a realeza (o ouro), a divindade (o incenso) e a paixão (a mirra) de Cristo” (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002: 1705. Nota “g”.)
ALUSÃO AO INCENSO (A DIVINDADE)
VIVA DEUS LÁ NAS ALTURAS
VIVA A NOITE DE NATAL
VIVA O DONO DESTE DIA
QUE NÓS VAMOS FESTEJAR
JÁ FAZEM MUITOS ANOS
QUE MEU JESUS NASCEU
VAMOS TODOS COM ALEGRIA
FESTEJAR AO SENHOR DEUS
O uso do incenso é um símbolo universal de adoração a Deus: “Suba minha prece como incenso em tua presença, minhas mãos erguidas como oferta vespertina!” (Salmos 141: 2). O incenso instiga a meditar em sua queima e fumaça. Quando o Daime faz efeito, a “sagrado fogo” vai calcinando a matéria e o elemento espiritual vai se desprendendo. Dissolve-se a densidade manifestando a essencial volatilidade. Louvamos mais conscientes – “Viva Deus lá nas alturas”, “Viva o dono deste dia”, “Vamos todos com alegria festejar ao Senhor Deus…” – quando nos transformamos quais incensos: o “corpo” torna-se pó, enquanto “o espírito” imiscui-se no etéreo – “Reduzi meu corpo em pó/O meu espírito entre flores…” sintetiza a poesia alquímica do hino 33: 3.
ALUSÃO À MIRRA (O SOFRIMENTO)
MEU DIVINO SENHOR DEUS
A VÓS EU VOU PEDIR
VÓS NOS DÊ O VOSSO CONFORTO
PARA TODOS NÓS SEGUIR
Os judeus tinham a mirra como um bálsamo valioso, principalmente por não crescer na Palestina, sendo necessário importá-la (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002: 1095. Nota “g”). O Evangelho atribuído a João revela que a mirra foi usada nos preparativos para sepultar o corpo de Jesus (19: 38-40). O biblicista Raymond Brown, especialista nesse Evangelho, regressa ainda mais no tempo afirmando que “Esmirna ou ‘mirra” é uma resina odorífera usada pelos egípcios em embalsamamentos” (BROWN, 2020: 1399. Vol. 2.). Essa planta preciosa e amarga é um símbolo do Homem e seu sofrimento de morte, que nos conforta com a Vida de seu sangue sagrado na tribulações do caminho iniciático: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9: 23) – “Vós nos dê o vosso conforto para todos nós seguir”!
ALUSÃO AO OURO (REALEZA E SABEDORIA)
A SEMPRE VIRGEM MARIA
É QUEM VEM NOS ENSINAR
PARA NÓS CANTAR COM AMOR
NESTA NOITE DE NATAL
A correlação justifica-se pelo simbolismo do ouro quando citado em matérias espirituais. Alegoriza realeza (“A sempre Virgem Maria”) e sabedoria (“É quem vem nos ensinar”). Diz o Apocalipse 3:18: “Aconselho-te a comprares de mim ouro purificado no fogo para que enriqueças…” À qual riqueza o versículo se refere? Na tradução Almeida contemporânea: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas insondáveis de Cristo” (Efésios 3: 8). E a Epístola prossegue, agora na tradução da Bíblia de Jerusalém: “E de pôr em luz a dispensação [partilha] do mistério oculto desde os séculos em Deus, criador de todas as coisas” (Ef 3: 9). Na versão atualizada e ocultista do Verbo de Deus: “O ouro que tem na terra é a luz que brilha mais” (Hino Laranjeira, 60: 4)).
E no último testemunho visionário do baluarte Antônio Gomes da Silva: “Eu nunca vi neste mundo/Tão importante tesouro/Aonde brilha todas estrelas/Bem chuviscadas de ouro” (Amor Divino, 39: 9). Esse tesouro anunciado no hino Este Rei Que Aqui Está é a sabedoria do Mestre herdada da Mãe Divina – “Ele veio para ensinar/Neste mundo universal/Para todos nós trabalhar/Para a vida espiritual” (39:4). Ensinar a consciência que gera lealdade, firmeza e verdade (39: 6) – “Quem não tiver consciência/Não pode ter lealdade/Em nada tem firmeza/E nunca fala a verdade” –, frutos do “ouro purificado no fogo” apocalíptico: “O nosso rei onde reside/É um palácio de nobreza/Não tem com quem se compare/Esta divina pureza” (39:7).
Celebremos o (re) nascimento (natalis) daquele que, ao Exilado de Patmos, anunciou sua volta com um “novo nome” (Ap 3: 12). Viva Juramidã! Amém.
NOTA: grafia do hino 39 de Antônio Gomes da Silva de acordo com a zeladora Adália Gomes, confirmada por sua filha, a amiga Nazaré Granjeiro.
MAGOS OU PASTORES – QUEM DESCREVE A VERDADE HISTÓRICA: MATEUS OU LUCAS?
Acerca do nascimento de Jesus, observamos em Mateus 2:1: “(…) Eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém” – oriente em relação a Jerusalém. Lucas, o único evangelista que compartilha as “Histórias da Infância” de Jesus, transforma os magos em pastores (Lc 2: 8-20). Qual o motivo da substituição, considerando que a versão de Mateus antecede a de Lucas? O padre biblicista Raymond Brown, em seu Introdução Ao Novo Testamento, fornece uma pista: “Os pastores, com quem a revelação sobre Jesus é partilhada e que reagem com louvores, são o contrapeso lucano para os magos de Mateus” (BROWN, 2012:337). O que Lucas desejava contrapesar ao omitir os “magos”? Uma outra pista é fornecida pelo autor: “Os magos são gentios guiados por uma estrela…” (p. 266). Eis algo contundente: uma ligação clara entre o mundo “pagão” (“gentios”) e Jesus no momento mais incipiente de sua história! Mas o que pode ter servido de obstáculo a Lucas, diz respeito às origens dos magos e principalmente o motivo pelo qual eles estavam ali.
Raymond Brown, agora em seu minucioso tratado exegético de 835 páginas intitulado O Nascimento do Messias, informa: “O que Mateus quer dizer com magoi [mago em grego]? Muito antes, Heródoto (Histórias, I) despertou a curiosidade dos leitores gregos com a descrição de uma casta sacerdotal de magos, entre os medos, que tinha o poder especial de interpretar sonhos. Os magos sobreviveram a transferência de poder dos medos para os persas (c. 550 a.C.) e ao domínio religioso emergente do zoroastrismo, de modo que na época de Heródoto (c. 450 a. C.), eram sacerdotes zoroastristas” (BROWN, 2005: 197. Colchetes meus). Na página 199, Brown revela: “Outro argumento para a localização persa é fornecido pela formação zoroastriana dos magos, proposto pelos Padres da Igreja, a começar por Clemente de Alexandria … Na verdade, havia uma crença patrística em que Zoroastro era um profeta que prefira a vinda do Messias”.
E quanto aos motivos da visita? Segundo uma outra linha de estudos, Zoroastro fez mais que prever a vinda do Messias. Seus magos eram sacerdotes que estavam a celebrar não o homem-Deus de encarnação única, mas sim a mais nova manifestação daquele que ficou conhecido por Zaratustra. Esclarece o prof. Andrew Welburn: “(…) Encontramos a expectativa de que Zoroastro, ou Zaratustra, o grande mestre espiritual da Pérsia e fundador da religião zoroastriana, deveria encarnar como um grande “Iluminador” em diversas nações sucessivamente e, por fim na Palestina” (WELBURN, 1991: 57). A Ordem Rosacruz – que conferiu um diploma de Honra ao Mérito a Mestre Irineu (CARIOCA, 2000: 60) – é taxativa: Jesus era a reencarnação de Zoroastro (SPENCER LEWIS, 2008: 100). Essa história circulava a boca miúda na Palestina e não podia ser admitida pelo programa teológico de Paulo e de seu discípulo (2 Tm 4, 11; Cl 4, 14; Fm 1, 24) Lucas, a versão de cristianismo que nos foi imposta como verdade absoluta. Assim, vislumbra-se uma possibilidade: o Evangelho lucano ao substituir “magos” por “pastores” estaria censurando os discípulos de Zoroastro!
OS MAGOS E O PSICOATIVO PERSA
A questão é que os magos zoroastrianos poderiam desvendar uma verdade histórica pouco conveniente. Segundo o escritor, jornalista e explorador Rowan Robinson, autor do afamado The Great Book of Hemp (O Grande Livro da Cannabis), a história do nascimento de Zoroastro está “(…) Impregnada de haoma [Soma persa]” (ROBINSON, 1999: 56). O psicólogo e cientista social Roberto Hyppolito acrescenta informação: “Temos como exemplo no Velho Testamento uma planta mencionada por Salomão, o cálamo, tida como enteógeno, e mesmo anterior a ele, o haoma, citado no Zend Avesta, atribuído a Zoroastro. São agentes tidos como enteógenos, que permitem a abertura de portais mentais de luz e conhecimento.” (HYPPOLITO: 2016: 27-28. Grifo meu). A propósito, a Bíblia cita outras plantas psicoativas como a mandrágora (Gn 30: 14-16; Ct 7: 14) e a arruda síria (Lc 11: 42). O uso de psicoativos na Palestina de Jesus é objeto de estudos contemporâneos e demanda um post específico sobre o assunto. Na última ceia, Jesus fez uma promessa: “Em verdade vos digo, já não beberei do fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus” (Mc 14:22-25). Era uma noite de lua cheia… “Deus te salve ó Lua Branca…” (O Cruzeiro, 1: 1)…
Nota: para mais detalhes sobre a promessa do “vinho novo”, confira meu post Hino 1, Lua Branca: A Era do Vinho Novo. Acesso: https://evangelhodejuramida.com.br/hino-01-lua-branca/
Arte: Thálita Vanessa Pinheiro (@thaav_artes).
REFERÊNCIAS:
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém: Nova Edição, Revista e Ampliada. São Paulo: Paulus, 2002;
BÍBLIA. Português. Bíblia de Referência Thompson: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Vida, 2007;
BROWN, Raymond. Comentário ao Evangelho Segundo João Volume 2 (13-21). Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2020;
_________. Introdução Ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2012;
_________. O Nascimento do Messias: comentários das narrativas da infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas. São Paulo: Paulinas, 2005;
CARIOCA, Jairo. Doutrina do Santo Daime: A Filosofia do Século. Rio Branco, 2000. Monografia;
HYPPOLITO, Roberto. O Santo Daime e Os Espíritos da Floresta. Extrema, MG. Edição do Autor, 2016;
ROBINSON, Rowan. O Grande Livro da Cannabis: guia completo de seu uso industrial, medicinal e ambiental. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999;
SPENCER LEWIS, H. A Vida Mística de Jesus. 11ª Ed. Curitiba: Ordem Rosacruz, AMORC, 2008.