Atualizado em 3 de janeiro de 2026
Preservada a grafia original do hino (sem correção ortográfica).
SANTA ESTRELA QUE ME GUIA
VÓS ME DÊ A SANTA LUZ
OS TRÊS REIS DO ORIENTE
QUE VISITARAM JESUS
Segundo a tradução da Bíblia de Jerusalém, 2002: “(…) Ao entrar na casa [os três reis], viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se [humildaram-se] o homenagearam. Em seguida, abriram [revelaram] seus cofres [o que está oculto por seu valor] e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2, 11. Colchetes meus).
Após a primeira estrofe (versículo), que atesta a visita dos magos, este hino traz na sequência mais quatro versículos, todos associados aos presentes ofertados, pois de acordo com o comentário da Bíblia supramencionada, “Para os Padres da Igreja simbolizam a realeza (o ouro), a divindade (o incenso) e a paixão (a mirra) de Cristo” (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002: 1705. Nota “g”.)
ALUSÃO AO INCENSO (A DIVINDADE)
VIVA DEUS LÁ NAS ALTURAS
VIVA A NOITE DE NATAL
VIVA O DONO DESTE DIA
QUE NÓS VAMOS FESTEJAR
JÁ FAZEM MUITOS ANOS
QUE MEU JESUS NASCEU
VAMOS TODOS COM ALEGRIA
FESTEJAR AO SENHOR DEUS
O uso do incenso é um símbolo universal de adoração a Deus: “Suba minha prece como incenso em tua presença, minhas mãos erguidas como oferta vespertina!” (Salmos 141: 2). O incenso instiga a meditar em sua queima e fumaça. Quando o Daime faz efeito, a “sagrado fogo” vai calcinando a matéria e o elemento espiritual vai se desprendendo. Dissolve-se a densidade manifestando a essencial volatilidade. Louvamos mais conscientes – “Viva Deus lá nas alturas”, “Viva o dono deste dia”, “Vamos todos com alegria festejar ao Senhor Deus…” – quando nos transformamos quais incensos: o “corpo” torna-se pó, enquanto “o espírito” imiscui-se no etéreo – “Reduzi meu corpo em pó/O meu espírito entre flores…” sintetiza a poesia alquímica do hino 33: 3.
ALUSÃO À MIRRA (O SOFRIMENTO)
MEU DIVINO SENHOR DEUS
A VÓS EU VOU PEDIR
VÓS NOS DÊ O VOSSO CONFORTO
PARA TODOS NÓS SEGUIR
Os judeus tinham a mirra como um bálsamo valioso, principalmente por não crescer na Palestina, sendo necessário importá-la (BÍBLIA DE JERUSALÉM, 2002: 1095. Nota “g”). O Evangelho atribuído a João revela que a mirra foi usada nos preparativos para sepultar o corpo de Jesus (19: 38-40). O biblicista Raymond Brown, especialista nesse Evangelho, regressa ainda mais no tempo afirmando que “Esmirna ou ‘mirra” é uma resina odorífera usada pelos egípcios em embalsamamentos” (BROWN, 2020: 1399. Vol. 2.). Essa planta preciosa e amarga é um símbolo do Homem e seu sofrimento de morte, que nos conforta com a Vida de seu sangue sagrado na tribulações do caminho iniciático: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9: 23) – “Vós nos dê o vosso conforto para todos nós seguir”!
ALUSÃO AO OURO (REALEZA E SABEDORIA)
A SEMPRE VIRGEM MARIA
É QUEM VEM NOS ENSINAR
PARA NÓS CANTAR COM AMOR
NESTA NOITE DE NATAL
A correlação justifica-se pelo simbolismo do ouro quando citado em matérias espirituais. Alegoriza realeza (“A sempre Virgem Maria”) e sabedoria (“É quem vem nos ensinar”). Diz o Apocalipse 3:18: “Aconselho-te a comprares de mim ouro purificado no fogo para que enriqueças…”. À qual riqueza o versículo se refere? Na tradução Almeida contemporânea: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas insondáveis de Cristo” (Efésios 3: 8). E a Epístola prossegue, agora na tradução da Bíblia de Jerusalém: “E de pôr em luz a dispensação [partilha] do mistério oculto desde os séculos em Deus, criador de todas as coisas” (Ef 3: 9). Na versão atualizada e ocultista do Verbo de Deus: “O ouro que tem na terra é a luz que brilha mais” (Hino Laranjeira, 60: 4)).
E no último testemunho visionário do baluarte Antônio Gomes da Silva: “Eu nunca vi neste mundo/Tão importante tesouro/Aonde brilha todas estrelas/Bem chuviscadas de ouro” (Amor Divino, 39: 9). Esse tesouro anunciado no hino Este Rei Que Aqui Está é a sabedoria do Mestre herdada da Mãe Divina – “Ele veio para ensinar/Neste mundo universal/Para todos nós trabalhar/Para a vida espiritual” (39:4). Ensinar a consciência que gera lealdade, firmeza e verdade (39: 6) – “Quem não tiver consciência/Não pode ter lealdade/Em nada tem firmeza/E nunca fala a verdade” –, frutos do “ouro purificado no fogo” apocalíptico: “O nosso rei onde reside/É um palácio de nobreza/Não tem com quem se compare/Esta divina pureza” (39:7).
NOTA: grafia do hino 39 de Antônio Gomes da Silva de acordo com a zeladora Adália Gomes, confirmada por sua filha, a amiga Nazaré Granjeiro.
MAGOS OU PASTORES – QUEM DESCREVE A VERDADE HISTÓRICA: MATEUS OU LUCAS?
Acerca do nascimento de Jesus, observamos em Mateus 2:1: “(…) Eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém” – oriente em relação a Jerusalém. Lucas, o único evangelista que compartilha as histórias da infância de Jesus, transforma os magos em pastores (Lc 2: 8-20). Qual o motivo da substituição, considerando que a versão de Mateus antecede a de Lucas? O padre biblicista Raymond Brown, em seu Introdução Ao Novo Testamento, fornece uma pista: “Os pastores, com quem a revelação sobre Jesus é partilhada e que reagem com louvores, são o contrapeso lucano para os magos de Mateus” (BROWN, 2012:337). O que Lucas desejava contrapesar ao omitir os “magos”? Uma outra pista é fornecida pelo autor: “Os magos são gentios guiados por uma estrela…” (p. 266). Eis algo contundente: uma ligação clara entre o mundo “pagão” (“gentios”) e Jesus no momento mais incipiente de sua história! Mas o que pode ter servido de obstáculo a Lucas, diz respeito às origens dos magos e principalmente o motivo pelo qual eles estavam ali.
Raymond Brown, agora em seu minucioso tratado exegético de 835 páginas intitulado O Nascimento do Messias, informa: “O que Mateus quer dizer com magoi [mago em grego]? Muito antes, Heródoto (Histórias, I) despertou a curiosidade dos leitores gregos com a descrição de uma casta sacerdotal de magos, entre os medos, que tinha o poder especial de interpretar sonhos. Os magos sobreviveram a transferência de poder dos medos para os persas (c. 550 a.C.) e ao domínio religioso emergente do zoroastrismo, de modo que na época de Heródoto (c. 450 a. C.), eram sacerdotes zoroastristas” (BROWN, 2005: 197. Colchetes meus). Na página 199, Brown revela: “Outro argumento para a localização persa é fornecido pela formação zoroastriana dos magos, proposto pelos Padres da Igreja, a começar por Clemente de Alexandria … Na verdade, havia uma crença patrística em que Zoroastro era um profeta que prefira a vinda do Messias”.
E quanto aos motivos da visita? Segundo uma outra linha de estudos, Zoroastro fez mais que prever a vinda do Messias. Seus magos eram sacerdotes que estavam a celebrar não o homem-Deus de encarnação única, mas sim a mais nova manifestação daquele que ficou conhecido por Zaratustra. Esclarece o prof. Andrew Welburn: “(…) Encontramos a expectativa de que Zoroastro, ou Zaratustra, o grande mestre espiritual da Pérsia e fundador da religião zoroastriana, deveria encarnar como um grande “Iluminador” em diversas nações sucessivamente e, por fim na Palestina” (WELBURN, 1991: 57). A Ordem Rosacruz – que conferiu um diploma de Honra ao Mérito a Mestre Irineu (CARIOCA, 2000: 60) – é taxativa: Jesus era a reencarnação de Zoroastro (SPENCER LEWIS, 2008: 100). Essa história circulava a boca miúda na Palestina e não podia ser admitida pelo programa teológico de Paulo e de seu discípulo – 2 Tm 4, 11; Cl 4, 14; Fm 1, 24 – Lucas, a versão de cristianismo que nos foi imposta como verdade absoluta. Assim, vislumbra-se uma possibilidade: o Evangelho lucano ao substituir “magos” por “pastores” estaria censurando os discípulos de Zoroastro!
OS MAGOS E O PSICOATIVO PERSA
A questão é que os magos zoroastrianos poderiam desvendar uma verdade histórica pouco conveniente. Segundo o escritor, jornalista e explorador Rowan Robinson, autor do afamado The Great Book of Hemp (O Grande Livro da Cannabis), a história do nascimento de Zoroastro está “(…) Impregnada de haoma [Soma persa]” (ROBINSON, 1999: 56). O psicólogo e cientista social Roberto Hyppolito acrescenta informação: “Temos como exemplo no Velho Testamento uma planta mencionada por Salomão, o cálamo, tida como enteógeno, e mesmo anterior a ele, o haoma, citado no Zend Avesta, atribuído a Zoroastro. São agentes tidos como enteógenos, que permitem a abertura de portais mentais de luz e conhecimento.” (HYPPOLITO: 2016: 27-28. Grifo meu). A propósito, a Bíblia cita outras plantas psicoativas como a mandrágora (Gn 30: 14-16; Ct 7: 14) e a arruda síria (Lc 11: 42). O uso de psicoativos na Palestina de Jesus, especialmente o Cogumelo, é objeto de obras contemporâneas, tais como: The Holy Mushroom: Evidence of Mushrooms in Judeo-Christianity (IRVIN & HERER, 2008) e Failed God (RUSH, 2008).
Arte: Thálita Vanessa Pinheiro (@thaav_artes).
REFERÊNCIAS:
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém: Nova Edição, Revista e Ampliada. São Paulo: Paulus, 2002;
BÍBLIA. Português. Bíblia de Referência Thompson: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Vida, 2007;
BROWN, Raymond. Comentário ao Evangelho Segundo João Volume 2 (13-21). Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2020;
_________. Introdução Ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2012;
_________. O Nascimento do Messias: comentários das narrativas da infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas. São Paulo: Paulinas, 2005;
CARIOCA, Jairo. Doutrina do Santo Daime: A Filosofia do Século. Rio Branco, 2000. Monografia;
HYPPOLITO, Roberto. O Santo Daime e Os Espíritos da Floresta. Extrema, MG. Edição do Autor, 2016;
IRVIN, J. R; HERER, Jack. The Holy Mushroom: Evidence of Mushroom in Judeo-Christianity. Crestline (CA): Gnostic Media Research & Publishing, 2009;
ROBINSON, Rowan. O Grande Livro da Cannabis: guia completo de seu uso industrial, medicinal e ambiental. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999;
RUSH, John A. Failed God: Fractured Myth in a Fragile World. Berkeley, California: Frog Books, 2008;
SPENCER LEWIS, H. A Vida Mística de Jesus. 11ª Ed. Curitiba: Ordem Rosacruz, AMORC, 2008.





