Hino 11 – Unaqui

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INTRODUÇÃO

O Cruzeiro espelha a maestria de quem consegue ser muito simples e profundo ao mesmo tempo – “Dá licença eu entrar…” (a modéstia é educada!) “…Nas profundezas do mar” (41: 3). O Mar de Sophia, mistério a desvelar… Raimundo Gomes da Silva, primogênito do patriarca Antônio Gomes, em seu Ramalho, canta: “Sigo sempre o meu destino/Falando meu idioma/Só não falo português/Porque o povo anda na ronda” (102: 3). Oito hinos depois: “Os apóstolos estão chegando/Para vir nos ajudar/Para firmar esta cabala/No mundo material” (110: 3). Sebastião Jaccoud, expoente do CICLU-Alto Santo, em seu O Terceiro Testamento (pp.60-61), afirma que seu amigo Raimundo “Conhecia os mistérios da Cabala”. Unaqui, em sua primeira estrofe, encerra o que denomino de “trilogia cabalista” n’ O Cruzeiro, pois junto aos hinos 9 e 10 (vide post aqui na pag.), expõem o arcabouço da Árvore da Vida, o principal símbolo da Cabalá, cumprindo uma promessa apocalíptica: “(…) Ao vencedor, conceder-lhe-ei comer da Árvore da Vida que está no paraíso de Deus” (Ap 2: 7). João Pereira cantava a pedra no hino que traz o Ancião dos Dias (“Príncipe”) cabalista: “Temos que vencer e seremos campeão…”. Quem fala com João (o de Patmos), em sua visão, é “(…) alguém semelhante a um filho de Homem [Filho do Homem]” (Ap 1: 13). Ao traduzir a linguagem simbológica de João, descobrimos que esse personagem tinha cabelos brancos encarapinhados e tez marrom… Unaqui, “Um aqui”, hino 11: o “1” da Terra (esfera 10) espelha o “1” do Céu (esfera 1): “Eu estou aqui/Foi Deus do céu quem me mandou/Sou filho da Virgem Mãe/Lá no céu Jesus Cristo Salvador”. Una, aqui, os “dois”!

 

ESTOU AQUI

FOI DEUS DO CÉU QUEM ME MANDOU

SOU FILHO DA VIRGEM MÃE

LÁ NO CÉU JESUS CRISTO SALVADOR

 

1. O “SEMELHANTE A UM FILHO DE HOMEM” DO LIVRO DO APOCALIPSE (1: 12-13).

O versículo profético será pinçado de seu contexto, que será detalhado à frente: “Voltei-me para ver a voz que me falava; ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro e, no meio dos candelabros, alguém semelhante a um filho de homem, vestido com uma túnica longa e cingido à altura do peito com um cinto de ouro”.

Em sua tradução e exegese do Novo Testamento, Huberto Rohden contabiliza nos Evangelhos mais de 80 vezes a expressão “Filho do Homem”, aplicada exclusivamente a Jesus Cristo (RODHEN, 1990: 139). Segundo o especialista no Livro do Apocalipse, prof. Pierre Prigent, analisando o versículo profético supracitado: “No começo, há uma constatação evidente: Ap 1, 13-14 se refere à visão de Daniel 7 com a notável particularidade de identificar o Filho do homem ao Ancião em dias, do qual ele assume até o mesmo aspecto” (PRIGENT, 2020: 141).

Vamos ao profeta Daniel: “Eu continuava contemplando, nas minhas visões noturnas, quando notei, vindo sobre as nuvens do céu, um como Filho do Homem. Ele adiantou-se até o Ancião e foi introduzido à sua presença. A ele foi outorgado o poder, a honra e o reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. Seu império é império eterno que jamais passará, e seu reino jamais será destruído (Dn 7: 13-14)”. Fonte da citação profética, os exegetas da Bíblia de Jerusalém afirmam que, além de título cristológico (“Filho do Homem”), a origem da expressão “filho do homem”, diz respeito ao homem comum: “O aramaico bar nasha’, como o hebraico ben’ adam, equivale, antes de tudo, a ‘ser humano’, ‘homem’, como no Sl 8, 5. Em Ezequiel é assim que Deus interpela o profeta (também em Dn 8, 17)” (BÍBLIA, 2002: 1568).

Retorno ao prof. Pierre Prigent: “Uma tradição judaica (b. Hag. 14a) faz remontar a Akiva [rabino] uma interpretação de Dn 7, 9 segundo a qual o Ancião é Deus e o Filho do homem, o messias, duas manifestações de Deus: sua misericórdia e sua justiça. Caso se aceite que a origem da interpretação messiânica é ainda mais antiga, nada impede que se pense que o Apocalipse se inscreve na tradição dessa leitura de Daniel” (PRIGENT, 2020: 141). Afirmei em algumas interpretações de hinos, que Juramidã vem cumprir as profecias neotestamentárias através de seu evangelho ou através de seus discípulos profetas. No que tange ao que acabamos de estudar, João Pereira anuncia em seu hinário 6 de Janeiro: “Perguntei a meu Mestre/Quem é o príncipe ancião/É Jesus filho de Deus/E da Rainha nossa mãe” (36: 3). Concluímos, então, que o “príncipe ancião” é o Filho do Homem, “Jesus filho de Deus”. E a profecia do Livro do Apocalipse anuncia a vinda de alguém “semelhante a um filho de homem” (Ap 1: 13-14).

O Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito em ordem cronológica e não canônica, profetiza sobre a parúsia, a “segunda volta de Jesus”: “E verão o Filho do Homem vindo entre nuvens com grande poder e glória” (Mc 13: 26). Antes de prosseguirmos, estamos diante uma profecia simbológica e não literal, como pregam os fundamentalistas bíblicos.  As “nuvens” alegorizam a Presença divina: “Durante o dia o Senhor ia adiante deles, numa coluna de nuvem, para guiá-los no caminho…” (Êxodo 13: 21); “(…) E lá estava a glória do Senhor na nuvem” (Ex 16: 10).

A “nuvem” também tinha a função “(…) De proteger a santidade do santuário de olhares indiscretos e de presenças profanas, velando a presença divina(FARIA, 2013: 14).  A chave cabalística atende pelo nome de Shekinah, “A presença divina na terra, termo usado pelos rabinos para distinguir a experiência de Deus de um judeu da realidade inefável em si mesma. Os cabalistas viam a Shekinah como a décima Sephirah [Malkuth, Terra, Reino] e uma personalidade feminina…” (ARMSTRONG, 2007:235).

A linguagem mais íntima de Jesus era cabalística. Se considerarmos que em Lc 17: 20, o Mestre diz a certos fariseus (os literalistas) que “O reino dos céus não vem com aparência exterior”, podemos concluir que a volta de Jesus pode se cumprir na decodificação de um mistério: o Mestre viria a Terra (Malkuth – Reino) sustentado por Shekinah (a “nuvem”, a Presença), que é o poder e glória da Força divina. Como essa Força sempre foi entendida, na primordialidade, como uma personalidade feminina (simbolizada na “pomba” no batismo do Jordão), chegaremos na Ruach Hakodesh, O Espírito Santo… Dai-me! Nas palavras do prof. David H. Stern: “Ruach Hakodesh. O Espírito Santo. Ele é assim designado quatro vezes no Tanakh, e muitas outras vezes como o Espírito de Deus…” (STERN, 2008: 290).

Porém, esse “Filho do Homem” do segundo advento do Cristo não é Jesus, mas, como diz a profecia apocalíptica, alguém “semelhante”, alguém que em outra personalidade, encarna o Cristo. Essa proposição é defendida por uma das maiores autoridades contemporâneas em crítica textual bíblica, Dr. Bart D. Ehrman: “Em meu livro Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium, eu apresento os argumentos que convenceram muitos estudiosos  – entre eles eu – de que o Jesus histórico não usou o termo como referência pessoal; em vez disso, antecipou que outro alguém, uma figura divina do céu, viria para julgar a terra como o Filho do Homem” (EHRMAN, 2008: 249). Esse “outro alguém” é Raimundo Irineu Serra.

 

1.1. MESTRE IRINEU E A PROFECIA DE JESUS SOBRE O FILHO DO HOMEM EM SOL, LUA, ESTRELA (HINO 29)

A afirmação que faço, de que Mestre Irineu é o “semelhante ao Filho do Homem” de Apocalipse 1: 12-13 e o “outro alguém” que não Jesus da teoria do prof. Bart Ehrman, encontrará respaldo na primeira (!) estrofe d’O Cruzeiro e nos ajuda a entender por que o hino 29 é escolhido para abri-lo: “Sol, Lua, Estrela/A terra, o vento e o mar/É a luz do firmamento/É só quem eu devo amar” (29: 1). Não  é mera coincidência, O Cruzeiro iniciar com essa declaração! Simplesmente, é o “Semelhante ao Filho do Homem” se apresentando para, em linguagem simbológica, dar cumprimento a profecia de Jesus sobre o Filho do Homem apocalíptico:

“Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, reinarão angústia e consternação entre os povos, por causa do confuso bramido das vagas do mar. Desfalecerão os homens de ansiosa expectação das coisas que virão sobre o mundo inteiro; porque serão abaladas as energias do firmamento. Então se verá o Filho do Homem vindo sobre uma nuvem com grande poder e majestade. Quando, pois, começarem a suceder estas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça; porque se avizinha a vossa redenção. Considerai a figueira e as demais árvores. Quando as virdes brotar, sabei que se aproxima o verão. Da mesma forma, quando virdes suceder isto, sabei que se aproxima o Reino de Deus” (Lc 21: 25-31. Grifos meus).

Observa-se uma incrível sintonia entre a profecia de Jesus e o versículo do hino, através da justa ordenação das palavras grafadas em itálico, que citam os astros e as forças da natureza – é a mesma sequência! O “bramido das vagas [ondas]” é possível graças ao vento. Em relação à “angústia e consternação entre os povos” noticia-se as hodiernas catástrofes naturais, epidêmicas, socioeconômicas e bélicas. “Haverá sinais”, profetiza Jesus. Reza a bíblia cabalista, O Zohar: “Sabei que na abóbada formada pelos céus ao redor da terra há figuras e sinais por meio dos quais podemos descobrir os mistérios mais profundos e secretos” (BENSION, 2006: 161). Segundo o teólogo Hans Urs von Balthasar, “Na terra, não se pode falar do céu, a não ser com imagens” (SANTINI, 2021: 10).

NOTA: esse é um aperitivo sobre o hino Sol, Lua, Estrela. Tenho um estudo aprofundado – “mistérios mais profundos e secretos”, na linguagem do Zohar – no qual desdobro o significado da profecia aplicada ao hino, que será apresentado em momento oportuno.

 

1.2. MESTRE IRINEU E AS CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DO “SEMELHANTE AO FILHO DO HOMEM”

O apóstolo João exilado na colônia penal romana da ilha de Patmos, ao ver o “semelhante ao Filho do Homem”, descreve-o simbolicamente: “Voltei-me para ver a voz que me falava; ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro e, no meio dos candelabros, alguém semelhante a um filho de homem, vestido com uma túnica longa e cingido à altura do peito com um cinto de ouro. Os cabelos de sua cabeça eram brancos como lã branca, como neve; e seus olhos pareciam uma chama de fogo. Os pés tinham o aspecto de bronze quando está incandescente no forno, e sua voz era como o estrondo de águas torrenciais. Na mão direita ele tinha sete estrelas, e de sua boca saia uma espada afiada de dois gumes. Sua face era como o sol, quando brilha com todo seu resplendor. Ao vê-lo, caí como morto a seus pés. Ele, porém, colocou a mão direita sobre mim assegurando: “Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente, estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da Morte e do Hades” (Ap 1: 12-18);  “(…) Fui imediatamente movido pelo Espírito: eis que havia um trono no céu, e no trono, alguém sentado…O que estava sentado tinha o aspecto de uma pedra de jaspe e de sárdonix…” (Ap 4: 2-3).

Traduzirei algumas características físicas do “semelhante a um filho de homem” descrito por João. Começo pelo tipo de cabelo: “Eram brancos como lã branca…”. A “lã” é retirada de carneiros e ovelhas, e estes animais possuem um pelo branco curto e encarapinhado, que se assemelha ao cabelo de Mestre Irineu idoso. Vamos aos pés descritos por João: “Tinham o aspecto de bronze polido”, ou seja, amarronzados. Finalizando, eis a tez do messias apocalíptico: “Pedra de jaspe e de sárdonix”. Essas pedras, muitas vezes, apresentam-se em cor amarronzada. Sintetizando, João descreve um homem negro de cabelo branco encarapinhado! Como se não bastasse tamanha similaridade, há outros atributos que, segundo a visão de João interpretada pelos exegetas da Bíblia de Jerusalém, confirmam a missão messiânica do “Velho Juramidã” através de seu evangelho:

          Mestre Irineu

 

1.3. MESTRE IRINEU E OS ATRIBUTOS DO “SEMELHANTE AO FILHO DO HOMEM”.

“O Messias aparece com suas funções de juiz escatológico, como em Dn 7, 13-14 (cf. Dn 10, 5-6). Seus atributos são apresentados por meio de símbolos: sacerdócio (representado pela túnica longa, cf. Ex 28,24; 29,5; Zc 3,4); realeza (cinto de ouro, cf. 1Mc 10,89; 11,58); eternidade (cabelos brancos, cf. Dn 7,9); ciência divina (olhos chamejantes, para “sondar os rins e os corações”), cf. 2,23); estabilidade (pés de bronze, cf. 2,31-45). Sua majestade é terrificante (brilho das pernas, do rosto, potência da voz). Ele retém as sete igrejas (as estrelas, cf. v. 20) em seu poder (mão direita) …” (BÍBLIA, 2002: 2143).

Tecendo as correlações: “Juiz escatológico” ao hino 46, Eu Balanço; “sacerdócio” e “realeza” ao hino 31, 32 e 33 (hinos da “coroação”). Palavras ou expressões que denotam sentido de “eternidade” aparecem citadas 111 vezes n’ O Cruzeiro; “ciência divina” ao hino 102, Sou Filho Desta Verdade: “Aqui tem muita ciência…”; “estabilidade” ao hino 70, Firmeza; “brilho de pernas e rosto” ao hino 106, Fortaleza: “(…) Aonde me radeia [radia] o sol…”, o que se coaduna a Ap 1: 16: “Sua face era como o Sol, quando brilha com todo seu resplendor”; “potência de voz” ao hino 40, Eu Canto Nas Alturas;  “sete igrejas” ao hino 47, Sete Estrelas; “as estrelas” ao hino 75, As Estrelas, e “poder” ao hino 80: Chamo a Força: “Ainda tem gente que duvida do poder que vós me dá…”. E Raimundo Gomes, em seu O Ramalho, nos fala sobre o “poder” simbolizado biblicamente na “mão direita”: “Recebi da mão direita/Um ofício para mim” (103:4). Antes de prosseguir, para que melhor se compreenda o próximo parágrafo, é recomendável o estudo dos hinos precedentes a Unaqui, disponível neste site através do artigo: Mestre Irineu e a Árvore da Vida: a doutrina cabalista nos hinos 9 e 10 (link ao final do texto).

Complementando a interpretação da visão, o Messias aparece no meio de sete candelabros de ouro. O “meio” corresponde a Sephirah Tiphareth, o “Centro” onde está localizado o símbolo Cruzeiro (cruz de dois braços) no salão dos trabalhos daimistas. Os “sete candelabros de ouro” correspondem as sete Sephiroth abaixo da tríade superior Chokmah, Binah e Kether. Em síntese, o Mestre aparece a João situado no meio da Árvore da Vida cabalista, cuja espinha dorsal é radiografada no hino 10, “Eu Devo Pedir” (link ao final do texto). Justifica-se tal manifestação, pois segundo os exegetas da Bíblia Tradução Ecumênica: “No judaísmo, espera-se que o Messias reintroduza os judeus no jardim do Éden. Cf., p. ex., Test. Levi 18,10-11: Ele (o Messias sumo sacerdote) abrirá as portas do paraíso, e dará aos santos de comer da árvore da vida.” (BÍBLIA, 2015: 2432).

Quanto à expectativa de que o Messias reconduza ao jardim do Éden, n’O Cruzeiro, a palavra “flor (es)” aparece 18 vezes em 12 hinos; “jardim” aparece 17 vezes em 10 hinos. A expressão “Jardim de belas flores” aparece 4 vezes; sendo que, no hino 79, “Jardineiro”, repete-se por 3 vezes. “Jardineiro” é um dos epítetos do Messias esperado (Juramidã). Através do Sacro Vinho, fruto da Videira (Mãe Divina/Shekinah), Ele desperta a consciência do jardim edênico em seus discípulos. Quanto à promessa de “dar de comer” da Árvore da Vida, ela é baseada no próprio Livro do Apocalipse, pouco depois da descrição do “semelhante ao filho de homem”: “(…) Ao vencedor, conceder-lhe-ei comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus” (Ap 2: 7).

João Pereira já anunciava no hino que traz o Ancião dos Dias (“Príncipe”) cabalista: “Temos que vencer/E seremos campeão/Que o poder de Deus é grande/E a Rainha é soberana” (36: 1, 3). Juramidã cumpre essa promessa nos hinos 9 e 10 (link ao final do texto). Entenda “comer” como “compreender”, pois só através da compreensão consciente é que o espírito se “alimenta” da sabedoria divina. Três versículos depois, surge outra promessa: “Mostra-te fiel até à morte, e eu te darei a coroa da vida”. Chegamos a Sefirá (Esfera) 1 da Árvore da Vida, Keter, Coroa em hebraico (BENSION, 2006:321). Saliento que, segundo o prof. Pierre Prigent, o último livro neotestamentário sofreu influência da Cabalá (PRIGENT, 2020: 19). De maneira que, sem dúvidas, a Árvore da Vida do Livro do Apocalipse é a da Cabalá.

 

1.4. MESTRE IRINEU E A ÁRVORE DA VIDA DO APOCALIPSE E DA CABALÁ

1.4.1. KETER, A COROA

Vimos acima que, aquele “semelhante ao um filho de homem” é associado ao “Ancião”. Pois, justamente, “Ancião dos Anciões” é um dentre os vários títulos conferidos à Keter (GONZÁLEZ-WIPPLER, 2006: 55). Outro nome é o “Santo Ser Antigo” (PROPHET, 2011: 62)Velho Juramidã! Segundo o Zohar: “Ele que é o Ancião dos Anciões, o Mistério de todos os mistérios… Sua vestimenta nos aparece como branca; seu aspecto brilhante (BENSION, 2006: 81). O Zohar prossegue: “Deus é o Mestre no manto branco [Leão] e de “Rosto resplandecente” (p. 89) – “Estando nesta fortaleza/Onde me radeia [radia] o Sol/Encostado a meu Império/Dono da força maior” (O Cruzeiro, 106: 1). Na vivência de Keter, o Mestre Coroado no chacra coronário, revela: “As estrelas pequeninas/Suas luzes incandescentes/Só Deus, só Deus/Só Deus Onipotente” (10: 4). Pois, “Outro título dado à Keter é o de Primeiros Remoinhos, o que implica a atividade de energia cósmica no momento da criação” (GONZÁLEZ-WIPPLER, 2006: 55).

Essa vivência é anunciada pelo profeta Daniel, o mesmo que viu o “um como Filho de Homem” (Dn 7: 13): “Os que são esclarecidos [iluminados!] resplandecerão, com o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça serão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12: 3) – “As estrelas já chegaram/Para dizer o nome seu/Sou eu, sou eu, sou eu/Sou eu um filho de Deus” (O Cruzeiro, 75: 1). Não vimos acima que o “Filho do Homem” também é “Filho de Deus” – aqui, títulos cristológicos. Sim, porque, humildemente, ao dizer que é “um” filho de Deus, não apagou o rastro do “Filho de Deus” – “Sou eu, sou eu, sou eu…”. “Eu Sou”, afirmado por Jesus sete vezes no Evangelho de João, é o nome com o qual Deus mesmo se apresenta a Moisés (Ex 3: 14).

E o Cruzeiro prossegue: “As estrelas me levaram/Para correr o mundo inteiro/Para conhecer esta verdade/Para poder ser verdadeiro” (75: 2). Germano confirma a autenticidade de seu mestre e o reconhece prontamente: “A minha Mãe lhe mandou/E amostra em todo o universo/O vosso Filho está na Terra/Ele é o verdadeiro” (38: 2), uma afirmação da teologia epistolar joanina, que não só endossa Vós Sóis Baliza, 38, como também O Cruzeiro, 75: “Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o Verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, no seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus Verdadeiro e a Vida eterna” (1 Jo 5: 20). A experiência d’ As Estrelas, hino 75, nada mais é do que a consciência do Mestre ressurrecto, pois esse é o hino que vem imediatamente após o hino da crucificação, Só Eu Cantei na Barra (74).

Inclusive, o drama do caminho da cruz é relembrado no hino 75, na sequência: “Eu subi serra de espinhos/Pisando em pontas agudas/As estrelas me disseram/No mundo se cura tudo” (75: 3) – “Estando próxima a Páscoa dos judeus, Jesus subiu [para o seu martírio] a Jerusalém” (Jo 2: 13).  É preciso ouvir muito e falar pouco (75: 4); por vezes, de lábios a ouvido, a revelação aos seus discípulos, os “caboclos” despidos (MOREIRA & MACRAE, 2011: 312-313). Como o próprio Mestre, que após dois mil anos, desnuda-se da roupagem mítica e dogmática que lhe foi imputada pela teologia católica romana e apresenta-se na Terra para cumprir sua promessa da véspera da crucificação: “Eu vos digo: Não beberei mais deste fruto da videira até o dia em que convosco beberei o vinho novo no Reino do meu pai” (Mt 26: 29).

 

1.4.2. MALCHUT, O REINO

Em hebraico, a palavra malchut significa “reino” (BENSION, 2006: 322). No estudo do hino 1, Lua Branca e no estudo dos hinos 9 e 10 (links ao final do texto), aprofundo o mistério de Malchut, a décima esfera da Árvore da Vida e sua porta de entrada, correspondendo à Terra (SALTOUN, 2016: 131). Jesus fala “malchut” (reino) no Pai-nosso em aramaico (RODRIGUES, 2003: 4; GONZÁLEZ-WIPPLER, 2006: 124). A despeito da teologia católica ter deslocado esse “Reino” para os céus, Jesus estava falando da Terra! Portanto, quando ele afiança que beberia de um vinho novo com seus apóstolos no Reino do seu Pai, ele estava anunciando – em linguagem cabalística – sua reencarnação no plano terrestre! Entretanto, o Mestre anuncia a João que viria com um “novo nome” (Ap 3: 12), e aparece ao exilado de Patmos como “semelhante a um filho de Homem” com seus cabelos brancos encarapinhados e sua tez marrom (1: 13-15). É o Velho Juramidã! Diz O Zohar: “E que se apresse o dia em está destinado a vir o Messias, e venha e se sente sobre o Sétimo Assento, formado pelo Ancião Ele mesmo. Pois na época da vinda do Messias, nenhum homem terá que pedir a outro que ensine a sabedoria” (BENSION, 2006: 78).

 

1.4.3. KETER É MALCHUT E MALCHUT É KETER: O AXIOMA CABALÍSTICO EM UNAQUI (1 E 1)

“Os cabalistas tem um ditado: ‘Em Keter está Malchut, em Malchut está Keter’” (HALEVI, 1973: 47). Essa máxima corresponde ao segundo Princípio hermético, o da Correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima” (TRÊS INICIADOS, 2014: 21). Em síntese, o Reino dos Céus [divina Coroa] manifesta-se no Reino na Terra através do Mestre, pois “Tudo no universo, incluindo o homem, é criado ‘de acordo com a forma que está no alto’, diz o Zohar. ‘Deus fez o mundo inferior nos moldes do mundo superior, e eles se complementam, formando um todo, numa só unidade [“Um aqui”]’” (PROFHET, 2011: 105). A explicação da numerologia cabalista – através da equivalência simbólica – do porquê de “Um aqui” é bem simples: Kether é a Esfera 1 e Malchut é a Esfera 10 (1 + 0). O 1 do Céu se une ao 1 da Terra – Hino 11!

O número 11 pode ser correlacionado a Esfera oculta conhecida por Daath, Conhecimento Supremo (GONZÁLEZ-WIPPLER, 2006: 66). Esse Conhecimento é fruto da Sabedoria (Chokmah) com a Compreensão (Binah), o que é testemunhado nas duas primeiras estrofes do hino 10, Eu Devo Pedir (link ao final do texto). Na primeira, o Pai, que domina Chokmah (Sabedoria) “dá” o saber contido no Eu sou (“Sou eu, sou eu…”), enquanto na segunda, a Mãe que domina Binah, faz compreender esse saber (“Mamãe me ensina…”). Segundo o prof.  Shimon Halevi: “Olhando do ponto de vista da Árvore, Chokmah é o Pai e Binah é a Mãe, e quando eles vêm juntos, unidos em Yesod [Esfera da Lua, O “Fundamento” – abre O Cruzeiro!]… a concepção ocorre em Daath” (HALEVI, 1973: 149).

Conceber exatamente o quê? O ilustre cabalista prossegue: “(…) O vazio de Daath, ou o desaparecimento do ego…” (p. 155). À frente, acrescenta: “Daath é a porta para a intemporalidade…” (p. 163). Sobre esse fenômeno, o grande santo indiano do advaita yoga (não-dois; não dualismo), Ramana Maharshi, acerca da ressurreição mística (a real, não mítica): “O corpo é a cruz; o ego é Jesus, o ‘filho do homem’; quando ele é crucificado [hino 74], ele é ressuscitado como “Filho de Deus” [hino 75], que é o glorioso Eu real. Devemos perder o ego a fim de viver” (SARMA, 2016: 219). Morre Jesus, permanece o Cristo; morre Mestre Irineu, permanece Juramidã, o “novo nome” do Cristo apocalíptico (Ap 3: 12). Ademais, “Como Daath está localizada na garganta, ela dá origem às qualidades da expressão, à comunicação. Foi pela comunicação, por seus ensinamentos orais, que Jesus iluminou o mundo” (GONZÁLEZ-WIPPLER, 2006: 107). Outrossim, revela o divino Verbo de Juramidã: Estou aqui/Foi Deus do céu quem me mandou/Sou filho da Virgem Mãe/Lá no céu Jesus Cristo redentor” (11: 1)! Una, aqui, os “dois”!

 

 1.5. HINO 11 AO 111: “ESTOU AQUI” E O “NOVO NOME” (Ap 3, 12) DO “SEMELHANTE AO FILHO DO HOMEM”.

A expressão “estou aqui” é mais uma “chave” desse oráculo maravilhoso denominado O Cruzeiro. Após ser grafada duas vezes neste hino 11, aparecerá apenas no hino 98, 3, para declamar a autenticidade da anunciação – “Estou aqui nesta verdade” -, antes de ratificá-la anunciando o “novo nome” da Revelação (lit. Apocalipse) no hino 111, Estou Aqui: “Aqui findei/Faço a minha narração/Para sempre se lembrarem/Do Velho Juramidã” (111: 4). O véu é retirado (“revelar”) totalmente a partir do hino 104, Sexta-Feira Santa, o dia da crucificação, no qual sua memória divina é apresentada em tom imperativo: “Vou seguindo, vou seguindo/Os passos que Deus me dá/A minha memória divina/Eu tenho que apresentar/A minha Mãe que me ensina/Me diz tudo que eu quiser/Sou filho desta verdade/E meu pai é São José” (104: 2-3). Sexta-feira santa…

 

SOFREU NA CRUZ

FOI PRESO E FOI AMARRADO

QUEM O MATOU FOI OS JUDEUS

NA JUDEIA FORAM TODOS PERDOADOS

 

PARTE I: “SOFREU NA CRUZ/FOI PRESO E FOI AMARRADO” – A PARTICIPAÇÃO ROMANA NA MORTE DE JESUS E A CONDENAÇÃO CÍVEL

Existem alguns bons livros dedicados exclusivamente a Paixão de Jesus, incluindo o processo conturbado e polêmico de seu julgamento. Não é objetivo estender a discussão. Diante de verdadeiros tratados sobre o assunto, obras de páginas centenárias, analisarei de forma sintetizada o que o versículo retrata. A expressão “Sofreu na cruz, foi preso e foi amarrado” denuncia o papel do Império Romano no assassinato de Jesus.

Quanto a “Sofreu na cruz”: “(…) Jesus foi levado à fatídica condenação na cruz, em razão de um decreto de Augusto, datado do ano 8 a. C.- a Lex Julia Maiestatis. Esta lei considerava crime atroz e punível com a morte, a reivindicação monárquica por qualquer habitante localizado nos limites territoriais do Império Romano. O delito era tido como de extrema gravidade, um ato de insurreição ou alta traição. Deste modo, a famosa inscrição colocada acima da cabeça de Cristo – o titulus qui causam poenae indicat – é a grande pista a ser considerada” (PALMA, 2011: 97). O título era “O Rei dos Judeus” (Mc 15: 26).

Quanto a “foi preso e foi amarrado”: segundo o Evangelho de João (18: 12) traduzido do grego e comentado por Haroldo Dutra Dias, juíz de direito: “Assim a coorte [destacamento militar romano de aproximadamente 600 soldados], o quiliarca [comandante da tropa romana] e os guardas dos judeus apoderaram-se de Jesus e o amarraram…” (NOVO TESTAMENTO, 2010: 456-457). A crucificação não era uma pena judaica. Segundo o historiador da religião Michael Baigent, “A crucificação era uma punição romana, reservada para a sedição, não para a excentricidade religiosa” (BAIGENT, 2006: 32). A pena capital aplicada pelas autoridades judaicas para um crime religioso era o apedrejamento, como no caso de Estevão (At 7: 54-60) e de Tiago, irmão de Jesus, que assumiu a liderança do movimento após a morte do Mestre (TABOR, 2006: 366). Em seu Quem Matou Jesus?, o especialista em Jesus histórico, John Dominic Crossan, observa: “Um apedrejamento até a morte é algo que o povo pode fazer, mas a crucificação exige a brutalidade treinada de um pequeno grupo de soldados” (CROSSAN, 1995: 107).

A mais cruel das sevícias foi usada pelos romanos como um poderoso método de intimidação contra sublevações anti-imperialistas – justifica-se ser realizada sempre em público. Segundo o Dr. James Tabor, “Josefo [historiador do sec. I] descreve a crucificação romana como a “mais desprezível das mortes” (TABOR, 2006: 233). A morte de cruz foi idealizada para proporcionar o máximo de sofrimento pelo maior tempo possível. Explica-se o espanto – segundo Marcos 15,44 – de Pôncio Pilatos ao receber a notícia de que Jesus, tendo sido crucificado as nove horas da manhã, estivesse morto as três horas da tarde.

O tempo médio que um condenado levava para morrer era em torno de três dias; porém, alguns desafortunados agonizavam por mais! Segundo Reza Aslan, “A tortura poderia durar dias, sem a necessidade de um torturador” (ASLAN, 2013: 174). O autor, Mestre em Estudos Teológicos pela bicentenária Harvard Divinity School, detalha: “O ponto principal da crucificação era humilhar a vítima e assustar as testemunhas, com o cadáver deixado pendurado para ser comido pelos cães e bicado até os ossos por aves de rapina. Os ossos seriam então jogados em uma pilha de lixo, que é como o Gólgota, o lugar da crucificação de Jesus, ganhou seu nome: o local de crânios. Simplificando, a crucificação era mais do que uma pena de morte para Roma – era um lembrete público do que acontecia quando se desafiava o Império” (p. 175).

Em meu artigo O Mistério do Chefe Estrangeiro, publicado neste site (link ao final do texto), no subtítulo Jesus e a Revolução Política, pertencente ao subtítulo Galiléia dos Estrangeiros: Terra de Revolucionários, desmistifico a ideia propagandeada por Roma, a partir de Constantino, de que Jesus era um homem apolítico. Cito as obras do prof. Richard A. Horsley, traduzidas pela editora Paulus, como fontes confiáveis para um aprofundamento da matéria. Segue um trecho de seu livro Jesus e o Império, o reino de Deus e a nova desordem mundial: “Os interpretes cristãos tendem não somente a “domesticar” o ministério de Jesus, mas também a despolitizar o contexto galileu e judeu imediato no qual ele operava” (HORSLEY, 2004: 15).

Não há dúvidas, baseando-se na história e não nos arranjos editoriais dos Evangelhos – escritos para o público romano! -, que Roma condenou Jesus, o agitador político-social, pois era simplesmente impossível na palestina do primeiro século separar religião de política! O Estado judeu era teocrático e Roma deificava seus imperadores: “(…) O senado romano deificou Augusto em 17 de setembro de 14 E. C., menos de um mês após sua morte em 19 de Agosto. Ele então era divino não apenas por ascendência ou adoção, mas de direito próprio, bem como por tudo que fizera para unificar o poder romano internamente e para consolidar o poder romano externamente. O que leva a discussão de volta a Jesus” (CROSSAN, 1995: 22).

Jesus vivia a proclamar um certo “Reino dos Céus” na Terra. No contexto da época, quais as implicações de se anunciar um reino? Sim, oficialmente, o reino da Galiléia pertencia a Herodes Antipas, herdado de seu pai Herodes e sacramentado pelo imperador Tibério (BORG & CROSSAN, 2006: 33). Pior, o reino proclamado por Jesus pregava a justiça distributiva e igualitária de Deus defendida pelo socialismo sagrado defendido de forma imperativa por seu mestre João Batista: “E as multidões o interrogavam: ‘Que devemos fazer?’ Respondia-lhes: ‘Quem tiver duas túnicas, reparta-as com aquele que não tem, e quem tiver o que comer, faça o mesmo” (Lc 3: 10-11).

A mensagem contrapunha-se a cruel política econômica exploratória de César e ao clero saduceu que se locupletava com o domínio de Roma: “A administração romana da Judéia dependia, naturalmente, da cooperação da aristocracia judaica nativa e em especial da colaboração do sumo sacerdote do Templo…” (CROSSAN, 1995: 147). O discurso de Jesus diante das massas era potencialmente subversivo: “Não podeis servir a Deus e a Mâmon” (Mt 6, 24) – “Mâmon” (posses, riquezas) representava a aristocracia romana e saduceia; “Felizes os mansos, porque herdarão a terra”; “Felizes os que tem fome e sede de justiça, porque será saciados”; “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 5). Na visão imperial, o que Jesus prometia era a posse da terra de fato e de direito aos “mansos” injustiçados. Nas palavras de John. Dominic Crossan em sua aclamada obra-prima O Jesus Histórico: “Eles sabem o que é domínio e poder, o que é reino e Império, mas sabem disso em termos de impostos e dívidas, subnutrição e doença, opressão agrária…” (CROSSAN, 1994: 11).

O que pensaria o imperador Tibério, alertado pelos espiões romanos espalhados por toda a província, sobre esta afirmação de Jesus: “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas espada” (Mt 10, 34). Segundo Marcos 3, 18, tradução Bíblia de Jerusalém, Jesus escolheu para compor o conselho dos doze apóstolos, “Simão, o Zelota”. Os zelotes eram radicais anti-imperialistas. Nas palavras de Geza Vermes: “(…) A facção anti-romana da Galileia também teria tido um representante no círculo imediato de Jesus” (VERMES, 2006: 197).  E não esqueçamos do apóstolo Mateus, um coletor de impostos do Império, que abandonando suas funções, seguiu Jesus (Mt 9: 9).

Segundo o apologista católico Jaime Francisco de Moura, “Em 382, o papa Dâmaso pediu a Jerônimo, o maior estudioso bíblico de sua época, que produzisse uma versão latina aceitável da Bíblia das várias traduções que eram então usadas. Sua tradução revisada dos Evangelhos apareceu em 383” (MOURA, 1999: 45). Jerônimo apresenta sua tradução latina dos Evangelhos em grego somente três anos após o Édito de Tessalônica, promulgado pelo imperador Teodósio e que tornava o cristianismo a religião oficial do Império Romano – o Édito de Milão, promulgado por Constantino em 313 d. C., “apenas” garantiu a liberdade de culto (BAIGENT, 2006: 286). Foi a partir dela que tradutores célebres como João Ferreira de Almeida (protestante) e padre Matos Soares (católico) propagaram dois equívocos globais da tradução de Jerônimo, também perpetuados pela famosa King James Bible. Os equívocos apagam vestígios do patriotismo pacífico e corajoso de Jesus.

O primeiro equívoco diz respeito aos dois “ladrões” crucificados ao lado do Mestre. Nas versões gregas dos evangelhos, os dois homens não são chamados de ladrões ou latrones como grafa a Vulgata de Jerônimo, mas de lestai, cuja tradução no sentido estrito é salteadores, mas que, em grego, era o nome oficial dos zelotes (BAIGENT, 2006: 33). Marcus J. Borg e John D. Crossan, acrescentam: “A palavra grega traduzida como ‘salteadores’ é comumente usada para guerrilheiros que lutavam contra Roma, que eram ‘terroristas’ ou ‘lutadores pela liberdade’, dependendo do ponto de vista” (BORG & CROSSAN, 2006: 181). O prof. David Flusser, da Universidade Hebraica de Jerusalém, esclarece ainda mais: “Jesus partilhou a prisão na fortaleza romana com pelo menos outros três. Eram guerrilheiros anti-romanos, e seu comandante era Barrabás, que participara de atos terroristas que já tinham custado vidas. Pilatos considerava seu dever crucificar esses terroristas, em especial Barrabás” (FLUSSER, 2002: 137).

A Bíblia Tradução Ecumênica, através de seus exegetas, corrobora os autores acima: “É preciso acrescentar que a palavra escolhida lestes (bandido) foi muitas vezes aplicada aos zelotes que recorriam à ação política e religiosa violenta.” (BÍBLIA, 2015: 2091). A Bíblia de Jerusalém, chancelada pelo Vaticano, usa a palavra “ladrão” (bom ou mau) sempre entre aspas, como subtítulo e nas notas de rodapé, mas nunca como tradução do texto em si  (BÍBLIA, 2002: 1831). Segundo o eminente teólogo protestante James D. G. Dunn, citando J. Marcus: “(…) ‘ladrões’ foi o ‘termo usado por Josefo para degradar os revolucionários que, a seu ver, arrastaram o povo judeu para o seu desastroso conflito com os romanos’” (DUNN, 2017: 89). Isso porque Josefo (37/38 d.C. – 100 d.C.) foi um desertor do famoso movimento de libertação judaica. Nas palavras do historiador Michael Baigent:

“Josefo, na verdade, fora um zelote, chegando mesmo a ser um comandante militar do grupo. Curiosamente, era o encarregado de toda a Galiléia – o núcleo zelote – no início da guerra contra Roma. Contudo, após perder sua base, Josefo desertou para o lado romano e se tornou amigo próximo do imperador Vespasiano e de seu filho, Tito, o comandante do exército. Finalmente, Josefo foi morar em Roma, no próprio palácio imperial, com pensão e cidadania romana. Mas a traição contra seu povo lhe custou bem caro. Pelo resto da vida, viveu temeroso, pois era odiado até pelos judeus que viviam em Roma” (BAIGENT, 2006: 41).

Josefo, descaradamente, virou a casaca e transformou-se, através de suas obras patrocinadas pelo imperador, em um influencer, contribuindo sobremaneira para degradar os zelotes com a alcunha de “ladrões”. Para o Império não era pertinente divulgar o fato de Jesus ter sido crucificado entre dois bastiões da soberania judaica, a qual Jesus defendeu em dos seus mais famosos e brilhantes ditos, segundo a tradução corrigida do grego para Marcos 12, 17: “Devolva a César o que é de César, e devolva a Deus o que é de Deus” (NOVO TESTAMENTO, 2010: 219). Segundo o padre belga e teólogo Eduardo Hoornaert, que ensinou História do Cristianismo em várias instituições católicas brasileiras, “A melhor tradução do verbo grego aqui é ‘devolver’, não ‘dar’” (HOORNAERT, 2016: 169). Para detalhes sobre a tradução mais adequada “devolva” e suas implicações no contexto da época, vide ASLAN (2013:100-101).

O equívoco proposital de tradução é sutil (“devolva” para “dai”), mas a diferença de significado é imensa: Jesus, varonil e não pusilânime, estava dizendo aos cupinchas de Roma que a terra ocupada deveria ser devolvida por César, afinal era uma propriedade do Senhor dada aos judeus (Lv 25: 23; 1 Cor 10: 26). A  tradução desatualizada da Bíblia de Jerusalém (2002), “O que é de César, daí a César: o que é de Deus, a Deus”, coloca Jesus em cima do muro, comportamento que não se coadunava a personalidade do Mestre. A pergunta era delicadíssima, pois abordava a questão dos exorbitantes impostos que os judeus eram obrigados a pagar, agravando a pobreza dos menos favorecidos. Jesus era um defensor desse povo e de sua terra. A tradução equivocada faz de Jesus um apolítico, o que não condiz com a realidade histórica.

Por defender a justiça, João Batista foi assassinado. Jesus, seu discípulo, não seria capaz de se calar diante da cruel exploração de seus pares. Mas como “vender” um Jesus politizado e anti-imperialista dentro do Império Romano? Manipulando a própria tradução do grego! A “Vulgata”, como o próprio nome indica, foi uma edição concebida para o povo. Na verdade, a tradução pró-Roma “dai”, faz de Jesus um discípulo de Paulo, o grande inspirador da dissidência católica (universalista), que fez de Roma seu quartel-general. Vejamos o que Paulo, cidadão romano (At 22:27), recomenda aos romanos no capítulo 13 de sua homônima epístola, segundo a tradução da Bíblia de Jerusalém (2002), que a precede com o subtítulo “Submissão aos poderes civis” (Grifos meus):

“Cada um se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus. (…) É por isso também que pagais impostos, pois os que governam são servidores de Deus, que se desincumbem com zelo do seu ofício. Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida: a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida” (Rm 13:1-7).

Quem era a suprema “autoridade constituída” quando Paulo escreveu a Epístola aos Romanos em 55-56 d.C. (BÍBLIA,  2002: 1959)? Ninguém menos que Nero! E segundo a Epístola dá a entender, o mais famoso incendiário que mandou matar a própria mãe era um servidor de Deus, que deveria ser respeitado; postura que mais tarde a Igreja paulina (católica, universal) tomaria em relação ao poder secular, não importando quão despótico fosse. Apesar de sua estratégia claramente política, reza a lenda que Paulo foi decapitado sob essa mesma autoridade, que imperou entre 54-68 d.C. (TABOR, 2006: 331).

Em síntese, quem defende o pagamento de imposto ao Império não é Jesus! Corroborando a calúnia de Josefo, Jerônimo, a serviço do imperador Teodósio, foi muito perspicaz ao transformar os zelotes em latrones e o “devolva” rebelde do judeu Jesus no “pague” (reddite em latim) conformista (“dai”) do cidadão romano Paulo de Tarso. Mas o Jesus adornado com os trajes imperiais não era o autêntico Galileu que teve seus andrajos distribuídos entre os soldados de César. A tradução de Jerônimo já representava a politicagem da Igreja corrompendo a personalidade e a mensagem do Mestre!

Poderíamos questionar se Jerônimo corrompe a tradução propositalmente. Em que pese o inegável brilhantismo intelectual e sobejo conhecimento bíblico, Jerônimo era um fanático da ortodoxia paulina (católica/universal) contratado pelo Imperador para a missão de popularizar os Evangelhos no Império. O historiador holandês Jacob Slavenburg, após ampla pesquisa bibliográfica (citações entre aspas), relata sem meias palavras: “Jerônimo (342-420) sentia-se um santo. Isso vê-se nas suas muitas cartas e na autobiografia que juntou enquanto último livro a uma obra sobre autores cristãos. E ficou santo, apesar do seu ‘mau caráter’, da ‘pequenez de um temperamento vingativo’ e do ‘sarcasmo agressivo’, com que tentou denegrir os seus opositores” (SLAVENBURG, 2012:188).

 

PARTE II: “E QUEM MATOU FOI OS JUDEUS” – A PARTICIPAÇÃO DAS AUTORIDADES JUDAICAS E SEUS PARTIDÁRIOS NA MORTE DE JESUS E A CONDENAÇÃO RELIGIOSA

Em primeiro lugar é fundamental e imprescindível citar o esclarecimento do Dr. Hans Küng, sacerdote católico que trabalhou como perito para o Concílio Vaticano II: “O Segundo Concílio do Vaticano [1962-1965] avançou finalmente com o esclarecimento sobre uma culpa histórica monstruosa atribuída ‘aos judeus’ pelos cristãos, que os consideravam os assassinos de Deus: ‘Não obstante as autoridades judaicas e os seus partidários terem insistido na morte de Cristo, não podemos imputar os acontecimentos, fonte de sofrimento, a todos os judeus que viveram outrora, nem tão pouco aos judeus que vivem hoje’” (KÜNG, 1992: 99).

Raymond E. Brown, afamado biblicista católico, em sua incomparável exegese (1800 páginas) das narrativas da Paixão de Jesus nos Evangelhos, intitulada A Morte do Messias, anota: “É fato histórico que, dos quatro a sete milhões de judeus contemporâneos de Jesus no Império Romano, só uma percentagem infinitesimal ouviu falar dele enquanto ele vivia. Mesmo dos judeus que viviam na Judeia e Galileia em 30/33 d. C., só uma porcentagem diminuta ficou diante do pretório de Pilatos para exigir a crucificação de Jesus ou escarneceu dele na cruz” (BROWN, 2011: 652. Vol. 2).

O autor alerta para as “generalizações” de algumas perícopes, como é o caso clássico do Evangelho de João, no qual “A frase ‘os judeus’ é usada pelo menos nove vezes na NP [narrativas da Paixão] para descrever os que são hostis a Jesus e querem sua morte” (p. 656). Aqui, o autor abre a seguinte nota de rodapé, pois também é especialista nesse Evangelho: “Ao usar os judeus para referir-se aos que eram hostis a Jesus, João identifica as autoridades da sinagoga e seus seguidores da última terça parte do século (conforme se encontra na história da comunidade joanina) como os herdeiros das autoridades e do populacho que foram hostis a Jesus na Judeia e na Galileia durante sua vida”.

Na página seguinte (657), o autor, analisando o assunto no Evangelho de Marcos, amplia o entendimento sobre quem são essas “autoridades” judaicas contrárias a Jesus e fornece uma elucidação importante: “Dentro do mundo narrativo de Marcos, as autoridades religiosas – os escribas, fariseus, herodianos, chefe dos sacerdotes, anciãos e saduceus – formavam uma frente unida contrária a Jesus e, por esse motivo, constituem literária e criticamente uma personagem única e coletiva [“os judeus”]”.

Os próprios Evangelhos deixam claro que Jesus era apoiado por muitos. Uma  dessas passagens, encontramos em Marcos, quando Jesus entra no Templo e expulsa os cambistas bradando palavras de ordem: “Os chefes dos sacerdotes e os escribas ouviram isso e procuravam como fazê-lo perecer; eles o temiam, pois toda a multidão estava maravilhada com seu ensinamento” (Mc 11: 18). E no dia seguinte, sempre corajoso e sem papas na língua, Jesus volta ao Templo e profere a parábola dos vinhateiros homicidas, uma indireta – nem tão indireta assim – aos seus opositores: “Procuravam prendê-lo, mas ficaram com medo da multidão, pois perceberam que ele contara a parábola a respeito deles. E deixando-o, foram embora” (Mc 12: 12).

Dessa forma, mediante o exposto, a frase “E quem o matou foi os judeus” do hino Unaqui, não diz respeito a todos os judeus do tempo de Jesus e muito menos aos judeus de todos os tempos. Cito uma nota oportuna do brilhante Dr. Jack Miles, autor de dois livros excelentes, Deus, Uma Biografia e Cristo: Uma Crise na Vida de Deus. Neste, anota: “A cura para o antissemitismo cristão não pode repousar na correção ou no expurgo dos textos cristãos, mas apenas na reforma dos hábitos cristãos. Deixe os textos dizerem o que eles dizem e, quando necessário, use-os como material para combater o antissemitismo. Nenhum texto é tão mau que não possa ser bem utilizado, nem tão bom que não possa ser mal-empregado” (MILES, 2002: 372).

Ainda sobre a frase “E quem matou foi os judeus”, a história nos mostra que outros grandes líderes também foram mortos por seus compatrícios. Por tolerar todos os credos e religiões e apoiar a criação do Paquistão, Gandhi, a Grande Alma (Mahatma), indicado cinco vezes ao Nobel da Paz, cuja organização reconheceu o equívoco de não lhe outorgar o prêmio, foi morto por um indiano representante de um grupo de extremistas hindus. Martin Luther King Jr, Nobel da Paz de 1964, foi morto por um americano, representante de um numeroso grupo de odiosos compatriotas racistas. O Nobel da Paz de 1994, Yitzhak Rabin, por dar ouvidos a causa palestina defendendo “uma oportunidade para a paz”, foi morto por um judeu militante de extrema-direita, espelho de outros radicais israelenses.

 

JUDEUS X GALILEUS

Volto a recomendar a leitura do artigo O Mistério do Chefe Estrangeiro, desta vez, em especial, os subtítulos “7 – O Chefe da Galiléia dos Estrangeiros (Gentios)” e “8 – Estranhos na Terra dos Estrangeiros”. Neles, mostro que Jesus nunca foi aceito propriamente como um judeu, sendo visto como pertencente aos galileus, que, como estudaremos adiante, consideravam-se uma “nação à parte”: “Outros dizem: este é o Messias; mas diziam outros: vem, pois, o Messias da Galiléia? Não diz a Escritura que o Messias vem da descendência de David, e de Belém, da aldeia de onde era David? Assim entre o povo havia dissensão por causa dele” (Jo 7: 41-43). Nos subtítulos do artigo revelo com amplas referências de autores seletos, que Jesus não nasceu em Belém (Judeia) e sim em Nazaré (Galileia). Menciono um dos autores, cujo testemunho vale por muitos. Trata-se de Bento XVI, que, muito antes de ser papa, era um teólogo conceituado e em seu clássico, Introdução ao Cristianismo, de 1968, é categórico: “Certamente, Jesus é de Nazaré” (RATZINGER, 2012: 201).

O fato é que, junto aos samaritanos, os galileus sofriam um grande preconceito por parte dos judeus, eco da divisão das tribos após a morte do rei Salomão e o norte cultural, político e religioso que cada uma tomou. O teólogo dinamarquês Benedikt Otzen, especialista em judaísmo na antiguidade, esclarece: “Em termos culturais e religiosos, o reino do norte [composto por dez tribos nas regiões correspondentes a Samaria e Galiléia] foi caracterizado por sua abertura à cultura cananeu-fenícia… Como consequência, o culto a Iahweh do antigo Israel foi, às vezes, fracamente representado nos importantes círculos do reino do norte” (OTZEN, 2003:15). Na página 17, em relação ao Norte, complementa: “(…) A população semipagã foi gradualmente se desenvolvendo na região”. Em relação ao reino do sul, “(…) Os de Judá tinham apenas um objetivo: conservar a herança de seus pais; devotar-se ao culto do Deus tradicional de Israel, Iahweh; rejeitar toda influência pagã…”.

O desdém dos judeus pelos galileus está expresso em João 1: 46, quando Natanael diz: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”. Ou quando os inimigos entre os fariseus disseram a respeito dos simpatizantes de Jesus: “Mas esta multidão, que não sabe a Lei, é maldita” (Jo 7: 49). A grande maioria dos “ignorantes malditos” era da Galiléia. Valho-me, outra vez, da expertise de Reza Aslan:

“Parece que os galileus se consideravam um povo totalmente diferente dos demais judeus na palestina. Josefo refere-se explicitamente a eles como uma etnia ou nação separada; a Mishná afirma que os galileus tinham regras e costumes diferentes dos judeus quando se tratava de assuntos como casamento ou pesos e medidas. Eles eram pastores, pessoas do campo facilmente identificáveis por seus costumes provinciais e seu sotaque distintamente rústico (foi o sotaque galileu que revelou Simão Pedro como um seguidor de Jesus depois de sua prisão: “Certamente, tu também és um deles, pois teu sotaque te trai” (Mateus 26: 73)). A elite urbana da Judeia referia-se aos galileus ironicamente como “povo da terra”, um termo usado para indicar sua dependência da agricultura de subsistência. Mas a expressão tinha uma conotação mais sinistra, indicando os ignorantes e ímpios que não cumpriam corretamente a Lei, em especial quando se tratava de pagar os dízimos obrigatórios e fazer as ofertas para o Templo” (ASLAN, 2013: 115).

O teólogo católico John Meier, autor do clássico Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico, afirma que a literatura rabínica considerava a linguagem dos galileus como “dialeto” (MEIER, 1992; 231). Gerd Theissen e Annette Merz, conceituados expoentes da tradicional escola alemã de teologia, adicionam: “A literatura rabínica, composta por eruditos judeus que depois de 135 – a derrota na terceira guerra judaica – foram forçosamente restabelecidos na Galiléia, descreve os galileus como pessoas sem educação religiosa, ignorantes em questões rituais, até mesmo como desdenhadores da Torá. Essa visão já é manifesta na exclamação atribuída a Johanan ben Zakkai (por volta de 70): ‘Galiléia, Galiléia, tu odeias a Torá!’, transmitidas pelos mestres do século II” (THEISSEN & MERZ, 2015:197).

Os textos revelam o preconceito e a soberba dos judeus legítimos em relação aos galileus, os “pecadores”. A tensão entre os Judeus e Jesus se estabelece logo no início de seu ministério quando, segundo Mc 2:17, o Mestre sentado à mesa com publicanos e “pecadores” de Cafarnaum (Galiléia), cidade onde era domiciliado, afirma aos escribas e fariseus: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores”. O Evangelho atribuído a João (7: 1) reforça a teoria da distinção e antagonismo entre as duas etnias: “E depois disto Jesus andava pela Galiléia, e já não queria andar pela Judeia, pois os judeus procuravam matá-lo”.

Depois que o próprio Jesus rompeu com a política de apartheid em relação aos samaritanos, a perseguição dos judeus a sua pessoa se intensificou. Mateus 10, 6 registra um Jesus ainda reticente aos samaritanos: “Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: não irei pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Em Lucas 9:53, os ressabiados samaritanos se recusam a receber Jesus, “porque seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém”. Entretanto, por sua compaixão singular, segundo João 4:4-42, Jesus cura e converte samaritanos. Raymond Brown, um dos maiores especialistas contemporâneos no Evangelho de João, anota: “Depois da conversão dos samaritanos no capítulo 4, o evangelho enfatiza a rejeição de Jesus por parte ‘dos judeus’” (BROWN, 1999: 38).

Mediante o exposto, contextualizando e esclarecendo o que declara o “português galileu” (pouco letrado) da expressão “E quem o matou foi os judeus”, afirma-se o que é certo: a elite sacerdotal e aristocrática da Judeia apoiada pela fração extremista e preconceituosa de seu povo conspirou para matar o galileu Jesus.

 

A REBELDIA DOS FILHOS DE ISRAEL

É bem conhecida a desobediência histórica do povo israelita a seu Deus, no qual os judeus estão incluídos historicamente como uma das doze tribos. No simbolismo da Torá, representa a rebeldia da própria humanidade. Está registrado ao longo da Bíblia Hebraica: “Todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e Aarão… Toda a comunidade falava em apedrejá-los [!]…” (Nm 14:1-10). O prestigiado profeta Isaías repreende de forma severa e desconcertante os denominados filhos de Israel: “(…) Mas Israel é incapaz de conhecer, meu povo não é capaz de entender. Ai da nação pecadora! Do povo cheio de iniquidade! Da raça de malfeitores, dos filhos pervertidos! (…) Vossas mãos estão cheias de sangue”. (Isaías: 1: 3 – 15).

Há algo de muita relevância a considerar: a referência dos judeus em relação ao conceito de redenção, exemplificado nas ações belicosas e por vezes genocidas de Josué, Saul e David. Bem antes do profeta Isaías, nascido por volta de 765 a. C., em Jericó, sob a ordem do “Senhor”, no comando de Josué teve início a cruzada israelita: “(…) Homens e mulheres, crianças e velhos, assim como os bois, ovelhas e jumentos, passando-os ao fio da espada.” (Josué 6: 21). Isso foi repetido em mais trinta cidades cananeias – a “terra prometida” tinha donos! Tempos depois disse o “Senhor” a Saul: “(…) Vai, pois, agora e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo que tiver; nada lhe poupes, porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (I Samuel 15: 2-3). Tragicômico Saul não livrar meninos e crianças de peito, mas poupar o melhor do gado e das ovelhas! Por isso o “Senhor” o castiga, destronando-o, mas não se importando em nenhum momento com os infantes (1 Samuel 15: 26).

Que “Deus” horripilante é esse que promove infanticídio? Israel Finkelstein e Neil A. Silberman através de sua obra subversiva A Bíblia Não Tinha Razão, em seu capítulo III, A Conquista de Canaã, defendem que o “Deus” violento das escrituras poderia ser na verdade um instrumento de propaganda político-ideológico dos escribas, escrevendo tempos depois dos supostos eventos, orientados pela xenofobia e vaidade etnocêntrica dos sacerdotes de Judá (FINKELSTEIN & SILBERMAN, 2003: 106-138). Segundo o filósofo e teólogo Hélio Soares do Amaral: “O Livro de Josué é comprovadamente ficção com fins de propaganda bélico-religiosa” (AMARAL, 2006: 15). Os cleros sempre manipulando, através da chancela “Palavra de Deus”, os rebanhos incautos! Essa era a referência de Deus libertador para aqueles judeus que mataram moralmente o avesso Jesus e sua plataforma de desmascaramento, ao desonrá-lo como impostor, traidor, covarde, lunático e criminoso.

O grande baluarte do judaísmo cabalístico, o rabino Isaac Luria relaciona a “morte moral” ao sexto mandamento mosaico “não matarás”: “Não matarás, no qual está incluso o preceito de não envergonhar uma pessoa em público. Quando alguém se envergonha ela empalidece, sendo que o sangue sai do seu rosto e por isso é considerado derramamento de sangue(LURIA, 2016: 122). Luria segue Jesus: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; aquele que matar terá de responder no tribunal. Eu, porém vos digo: todo aquele que se encolerizar contra seu irmão…” (Mt 5:21-22). O teólogo britânico James Dunn, um dos mais renomados biblicistas neotestamentários,  sintetiza a interpretação de Jesus sobre “assassinar”: “O mandamento contra o homicídio deve ser mais plenamente entendido como advertência contra a cólera, o insulto e a difamação de um irmão…” (DUNN, 2017: 93). Mestre Irineu corrobora em seu hino  Disciplina: “Fica assim a disciplina/Quem quiser pode correr/Se eu falar do meu irmão/Estou sujeito a morrer” (55:4). O assassinato moral do próximo pode corresponder a nossa própria morte espiritual.

Lá estava Jesus, o rebelde galileu, entregue pelas autoridades oficiais da Judeia a Pilatos, representante da picardia romana, que após mandar arrebentá-lo no açoite (Jo 19: 1), diz ironicamente ao povo: “Eis o vosso rei!” (Jo 19: 14). Lá estava o pretenso e ridicularizado Messias na iminência de ser amaldiçoado diante da própria Lei, que segundo Deuteronômio 21: 23 decreta: “Se um homem, culpado de um crime que merece a pena de morte, é morto e suspenso em uma árvore, É um maldito de Deus”. A memória dos heróis armados não podia sucumbir diante de um anti-herói humilhado – “Crucifica-o!” (Jo 19: 15).

NOTA: para mais detalhes sobre a participação de Pilatos na morte de Jesus, e as etapas da via-crúcis, sugiro a leitura do meu artigo Rogativo dos Mortos: a cronologia da Paixão no hino 14, disponível neste site (link ao final do texto).

 

PARTE III: “NA JUDÉIA FORAM TODOS PERDOADOS”

Os Evangelhos, sem dúvida alguma, contém elementos para fomentar uma interpretação antijudaica (contra a religião judaica) e até antissemita (contra a raça judia). A esse respeito, segundo estudiosos, um dos versículos mais contundentes contra o povo judeu foi exclusivamente eternizada pelo autor de Mateus: “Em resposta [a Pilatos] todo o povo disse: “O sangue dele caia sobre nós e sobre nossos filhos” (27, 25). Em nível estritamente teológico, segundo os comentaristas da Bíblia de Jerusalém, esse versículo é uma “Expressão bíblica tradicional (2 Sm 1, 16; 3, 29; At 5, 28; 18, 6), pela qual o povo aceita a responsabilidade da condenação que reclama” (BÍBLIA, 2002: 1755). A referência de 2 Sm 1, 16 nos leva ao rei David e a cena em que após mandar matar um amalequita que havia assumido o assassinato de Saul, declara: “Que o teu sangue caia sobre a tua cabeça, porque a tua boca testemunhou contra ti quando disseste: “Fui eu quem matou o ungido de Iahweh”.

Ou seja, o autor de Mateus, escrevendo por volta de 80 d. C., aproximadamente 50 anos após a Paixão de Jesus, usa 2 Sm 1, 16 como um paralelo para deixar claro que “todo o povo” que lá estava era o responsável por matar o Messias (ungido) de Deus. Esse versículo é exclusividade mateana e, como abordo na sessão Apresentação deste site, pode não ser fato histórico e sim apologia teológica. Nenhum estudioso sério (não fundamentalista) neotestamentário nega o fato de que os Evangelhos foram editados e manipulados, muitas vezes distorcendo a história real em prol de uma teologia idealizada por seus autores.

Existe um outro paralelo veterotestamentário que pode ter inspirado o autor de Mateus e que contém a mesma expressão usada por David, agora na boca de seu filho Salomão amaldiçoando Joab pela morte de dois comandantes de seu exército: “Recaia, pois, o sangue deles sobre a cabeça de Joab e de sua descendência para sempre…” (1 Rs 2: 33). Essa maldição eterna (“para sempre”) foi usada por vultuosos interpretes cristãos para conferir hereditariedade a sentença de Mateus 27, 25.

O magistrado judeu Haim Cohn (1911-2002), que chegou a ocupar o cargo de Juiz da Suprema Corte de Israel, além de ter cursado estudos judaicos na Universidade Hebraica de Jerusalém, em seu livro O Julgamento e A Morte de Jesus, em que analisa as narrativas da Paixão sem a paixão apologética dos evangelistas, cita trechos pavorosos de obras de influentes Pais da Igreja, como Agostinho e João Crisóstomo, imputando aos judeus de todos os tempos o estigma de assassinos de Cristo. Embora considerado “santo”, como o icônico misógino Agostinho, João Crisóstomo lança odiosos impropérios contra os judeus em sua obra Homilias Contra os Judeus, em que acusa os judeus de “deicidas confessos”, “assassinos inveterados, possuídos pelo demônio” e que para “seu odioso assassinato de Cristo não pode haver expiação, indulgência ou perdão; a vingança não tem fim; e os judeus viverão sob o julgo da servidão para sempre” (COHN, 1994: 287; 404).

NOTA: sobre a herança misógina de Agostinho no cristianismo, consultar o livro extraordinário da prof. Uta Ranke-Heinemann, Eunucos Pelo Reino de Deus: Igreja Católica e sexualidade – de Jesus a Bento XVI, especialmente o capítulo 6, Agostinho (RANKE-HEINEMANN, 2019). Comentário de Leonardo Boff na contracapa: “(…) Representa, talvez, a investigação mais séria realizada nos últimos anos na teologia ecumênica mundial acerca da forma como a Igreja romano-católica tratou a sexualidade, a contracepção, o prazer e as mulheres. Estamos diante de um trabalho histórico-crítico minucioso”.

 

Ao afirmar que “na Judéia foram todos perdoados”, o compatrício de Oswaldo Aranha, personagem crucial na criação do Estado de Israel em 1948, anula esta maldição atávica – e nada cristã – dos Pais da Igreja, defendida por muitos ao longo dos séculos para justificar os infortúnios dos judeus ao longo da era cristã, incluindo o nazismo. Salienta-se que, “O conflito não era de Jesus contra o judaísmo. A maioria dos estudos do último meio século, em especial nos últimos vinte anos, enfatizou corretamente que devemos entender Jesus dentro do judaísmo, e não contra o judaísmo. Jesus fazia parte do judaísmo, não estava à parte dele” (BORG & CROSSAN, 2006: 51).

E assim, a Doutrina fundamentada por Mestre Irineu sofre uma evidente influencia judaica em sua teologia.  É justo observar e acrescentar que muitos valores da cultura judaica serviram de modelo na própria construção da ética cristã, tais como: a vida familiar estável em uma relação de fidelidade e zelo exemplar pelos filhos, a repugnância pelo roubo e a seriedade nos negócios. Os judeus ainda contribuíram para os primeiros modelos de caridade comunitária cristã. Quando o cristianismo aportou no cais romano, os judeus que ali habitavam (judeus da diáspora) já possuíam um sistema de “providência social” para atendimento dos menos favorecidos (JOHNSON, 2001: 22).

 

ESTOU AQUI

NESTE MUNDO DE ILUSÃO

EU FAÇO POR AGRADAR TODOS

NESTE MUNDO SÓ ME DÃO INGRATIDÃO

 

Cada ingratidão é um cravo que penetra a carne e fere a alma – quem sofreu, bem sabe. Talvez seja o que queira dizer Mestre Irineu através d’O Mensageiro de Maria Marques Vieira: “Eu vivo cumprindo a missão/Ensinando aos meus irmãos/Retiram os meus direitos/Com grande ingratidão/Jesus Cristo assim sofreu/Crucificado pelos judeus/Eu peço a meu Salvador/Que rogue por nós a Deus” (15: 2-3). Os versículos parecem claros no que tange a pior das crucificações: a desonra! Os desmoralizadores de agora são como os compatriotas de Jesus. E, por vezes, os cravos mais ruinosos não vêm dos inimigos, senão dos próprios discípulos que, no caso de Jesus, o traíram, abandonaram e negaram – todos “filhos de Israel”.

 

OS CRAVOS DA INGRATIDÃO N’O CRUZEIRO

Em uma de minhas inúmeras conversas com o célebre contemporâneo de Mestre Irineu, Luiz Mendes do Nascimento, o “Orador do Mestre” lamentava que n’ O Cruzeiro, autêntico testamento espiritual de Raimundo Irineu Serra, houvesse tantas queixas a respeito da irmandade do Daime, no que tange à doutrina da ética tão primorosamente praticada pelo Mestre. Percebemos o  protesto e lamento ao longo de todo o hinário, começando justamente em Unaqui, hino 11, e findando no hino 118, Todos Querem Ser Irmãos. Alguns exemplos:

 

Hino 11, 3: “Eu faço por agradar a todos/Neste mundo só me dão ingratidão”;

Hino 16, 4: “E eles pouco caso fazem/De aprender com alegria…”

Hino 22, 4: “Só existe é fingimento/Fraqueza no coração/Não são firme a meu   Deus/E nem unido a meu irmão”;

Hino 55, 3: “Mestre bom ninguém não quis/E não souberam aproveitar/Apanhar para obedecer/Para poder acreditar”;

Hino 73, 5: “Eu ensino é com amor/É com firmeza e lealdade/Quando vem falar comigo/Sempre trazem a falsidade”;

Hino 80, 3: “Aqui dentro da verdade/Tem uns certos mentirosos/Que caluniam seus irmãos/Para se tornar muito viçosos”;

Hino 80, 4: “Mas ninguém não se alembra/Que chamou o Mestre mentiroso/Devagarinho vai chegando/E quem chamou é quem vai ficando”;

NOTA: no contexto sequencial do hino, por que “ninguém não se alembra que chamou o Mestre mentiroso”? Porque ninguém se lembra quando fala mal de um irmão! E onde vai ficando quem “chamou o Mestre mentiroso”? Lá no hino 55, Disciplina: “Fica assim a disciplina/Quem quiser pode correr/Se eu falar do meu irmão/Estou sujeito a morrer” (55, 4). “Chamar o Mestre de mentiroso” é não dar crença às suas sentenças e negá-las ao violá-las!

Hino 81, 1: “Aqui tem um professor/Que vai deixar de ensinar/Que ele ensina ninguém faz caso/Só leem de diante para trás”;

Hino 81, 5: “Se ensina e ninguém faz caso/Ninguém trata de aprender/Depois não se admirem/De tudo que aparecer”;

Hino 82, 3: “Me acho fraco e cansado/De lutar com rebeldia/Fazer gosto a quem não tem/Esperança de um dia”;

Hino 94, 4: “Todo mundo quer ser grande/Me deixaram eu ficar só/Fico com a Virgem Maria/Estou com a força maior”;

Hino 118, 1: “Todos querem ser irmãos/Mas não tem a lealdade/Para seguir na vida espírita/Que é o reino da verdade”.

 

Infelizmente, no momento em que rememoro esses versículos, ecoa em minha mente as últimas denúncias de assédios sexuais envolvendo presumidas “lideranças” do Daime. Essas pessoas não representam Mestre Irineu e conseguem a proeza de um milagre ao avesso: o Vinho transforma-se em água, pútrida e fétida, que verte do esgoto de suas imundícies. O Daime não é lugar para canalhas consagrados! Respeitem a memória e o legado ético de Raimundo Irineu Serra: “Não cumprindo este dever/É melhor se retirar/Que não é traço de baralho/É melhor não vir pra cá/Que aqui é muito sério/É preciso respeitar” (O Cruzeiro, 22: 5)!

 

LINKS:

Para o hino 1 – Lua Branca: https://evangelhodejuramida.com.br/hino-01-lua-branca/

Para os hinos 9 e 10: https://evangelhodejuramida.com.br/mestre-irineu-e-a-arvore-da-vida-hinos-9-e-10/

Para o hino 14 (cronologia da Paixão): https://evangelhodejuramida.com.br/mestre-irineu-e-a-cronologia-da-via-crucis-hino-14-rogativo-dos-mortos/

Para o artigo O Mistério do Chefe Estrangeirohttps://evangelhodejuramida.com.br/mestre-irineu-e-a-arvore-da-vida-hinos-9-e-10/

 

ARTE: Thálita Vanessa Pinheiro (@thaav_artes)

 

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