O Mistério do Chefe Estrangeiro

Facebook
Twitter
WhatsApp

AVISO: por ser um texto longo (65 págs. em Arial 12), recomendo a leitura no seu desktop, laptop ou tablet (acesse o site via Google). Atualizado em 4 de janeiro de 2026.

 

1 – INTRODUÇÃO

Maria Francisca Vieira nasceu no Ceará em 4 de novembro de 1910. Pouco tempo após chegar ao Acre, no final da década de 1920, suportou a dor de perder seu esposo Porfírio assassinado. Maria vivia uma época em que a mulher, para ser validada na sociedade, precisava estar atrelada a um homem. Maria não pôde ser simplesmente Maria. Ao casar novamente, passou a ser a Maria do Damião – Damião Marques, seu marido. Nesse contexto, ficou viúva aos 30 anos, recebendo como herança o ônus de cuidar de seis filhos e mais um sobrinho. Mas como era Maria, na divina voz de Milton Nascimento retratando a peleja de uma Maria que criava os filhos sozinha, possuía “A estranha mania de ter fé na vida”! Analfabeta, calejava suas mãos no cabo da enxada, vendia bolo, tapioca e beiju e exauria seus pulmões fazendo carvão, enquanto soltava a voz para a fundação do Daime na cidade de Rio Branco.

Firmou-se como uma coluna através de sua humildade, lealdade, dedicação, sabedoria e mediunidade, que a fez ser uma espécie de porta-voz de seu mestre em muitos dos 49 hinos que compõem seu hinário O Mensageiro, um dos cinco que perfazem a base primordial de ensinos do Daime. Muito estimada por ele, foi alvo de ciúmes e maledicências que atentaram contra a sua dignidade; “Choro muito e lamento tudo que já se passou…”, desabafa, enlutado, Mestre Irineu, em Choro Muito, hino 91, que alude ao passamento de sua discípula aos 38 anos e faz, como de costume, sua voz confundir-se com a dela.

Seus filhos, ainda menores de idade, ficaram órfãos de pai e mãe e foram acolhidos por Mestre Irineu até seguirem seus destinos quando adultos. Maria se considerava uma “irmã desvalida”, como denuncia seu hino 42. O símbolo do anzol, presente em seu hino 46, metaforiza a “lei do retorno” na curva que faz. Em seu caso, em vez de débito, rendeu-lhe o dividendo de hoje ser querida e aclamada no irmandade do Daime como uma verdadeira baluarte. Na dor dos espinhos em que pisou, um jardim de belas flores semeou – epitáfio de uma heroína!

NOTA: as informações biográficas de Maria Marques Vieira foram retiradas do livro Eu Venho de Longe: Mestre Irineu e seus companheiros (Vide Referências) No livro, basta acessar “Maria Damião” no Índice Remissivo.

 

1 – O CONTEXTO DO CHEFE ESTRANGEIRO E DOS ESTRANGEIROS NO HINÁRIO O MENSAGEIRO

Menciono um trecho do livro Em Busca de Jesus de Nazaré: uma análise literária, do teólogo belga Eduardo Hoornaert: “No ano 1884, o filósofo alemão Frege escreveu uma frase que fez história: “Somente no contexto de uma sentença as palavras significam algo” (HOORNAERT, 2016: 145).

Ao longo de vários anos de estudos teológicos, aprendi algo fundamental com os acadêmicos biblicistas: não interpretar versículos das Escrituras isolando-os do contexto no qual estão inseridos. Caso isso seja feito, aumenta-se a probabilidade de uma exegese equivocada. Esse princípio hermenêutico pode e deve ser aplicado aos hinos do Daime, em especial aos 313 que compõe a base primordial de ensinos, e estão contidos nos hinários O Cruzeiro, Vós Sois Baliza, O Amor Divino, 6 de Janeiro e O Mensageiro. Observo que o título do hinário de Germano tem como referência o CICLU-Alto Santo. E saliento que todos esses hinos foram “passados a limpo” com Mestre Irineu, adquirindo assim um status diferenciado e que deveriam nortear os incontáveis hinos que surgem todos os dias no atual cenário daimista.

Isso posto, pergunta-se: em qual contexto, as expressões “os estrangeiros” e “o Chefe Estrangeiro”, estão inseridos? Quando citei a exegese bíblica acadêmica, acrescento que uma das regras é examinar os versículos imediatamente anteriores e imediatamente posteriores àquele objeto de estudo. Transpondo para o tema do subtítulo, qual a análise contextual que podemos fazer acerca das referidas expressões no hinário O Mensageiro? Essas expressões aparecem, respectivamente, no sétimo e no oitavo versículos do hino 46, (A) Minha Mãe Me Mandou.

 

O tempo está desmudado

Mudou de governo

Novas revoluções

Aqui com os estrangeiros

 

Ninguém deve anunciar

Que ninguém não tem bandeira

Todos devem esperar

Pelo Chefe Estrangeiro

 

Grafo Chefe Estrangeiro com iniciais maiúscula por considerá-lo um epíteto de Mestre Irineu. A chave do mistério está na palavra “estrangeiro (s)”. A primeira pessoa que me chamou a atenção sobre isso foi dona Percília Matos, a quem Maria Marques entregou, ainda em vida, a zeladoria de seu hinário. Recebi o privilégio missionário de visitar dona Percília algumas vezes em sua residência no bairro Floresta em Rio Branco (AC), incluindo o período de dois meses em que fui seu vizinho ao alugar uma suíte em uma casa próxima (400 m), para que a mãe (Débora) de meu filho primogênito, Expedito (24), hoje membro do CICLU- Alto Santo, pudesse dar à luz na capital acreana, considerando que à época morávamos em Pauini (AM), cidade de recursos médicos limitados, além do parto ser de certo risco. O parto foi um sucesso, e quando aquele belo menino nasceu, eu renasci em um dos momentos mais sublimes que vivi!

Em uma de minhas visitas a dona Percília, cujo objetivo era estudar o hinário O Mensageiro, perguntei a ela quem era o Chefe Estrangeiro. Sem pestanejar, ela afirmou que era o próprio Mestre Irineu e, inconscientemente, usou do mesmo expediente dos exegetas acadêmicos, para demonstrar o que estava afirmando. Pediu para que eu virasse a página do meu caderno de hinário, e apontou para a décima e antepenúltima estrofe do mesmo hino (46) e soletrou: “Todos querem compreender/Mas nenhum não tem poder/Aqui dentro só existe um/Que é o general número um”. Imediatamente, apontou para o próximo hino, o 47, O Lado Que Eu Mais Procurava, e disse com seu jeito peculiar (professoral): – Taí o Chefe. E cantou: “Eu sou um Chefe habitado/E sei aonde eu habito/E não me acho com coragem/De dizer estas bobagens” (47: 5). Veremos à frente, quem habita o Chefe.

 

2 – VAMOS DAR VIVA A NOSSA PÁTRIA, O HINO, E O PAÍS DOS ESTRANGEIROS

Provérbios 25: 25: “Como água fria para uma alma que está a desfalecer, assim são as boas notícias vindas de um país distante” (BÍBLIA, 2006).

Dona Percília prosseguiu para o próximo hino, com o objetivo de explicar o porquê da palavra “estrangeiro (s)”. Começou por dizer que o hino 48, Vamos Dar Viva A Nossa Pátria não se refere – como muitos acreditam – ao Brasil, mas à Pátria Espiritual, sustentando sua afirmação com duas citações. A primeira, no mesmo hino, na quinta estrofe: “O nosso Mestre nos dá força/Até um dia final/Que a nossa Mãe está nos esperando/No Reino Divinal” (48:5). Ou seja, a Pátria exaltada na primeira estrofe é o Reino anunciado na quinta. A segunda citação foi para concluir o raciocínio: trata-se do último hino, 49, Despedida, no qual, logo na primeira estrofe, tudo se esclarece: “A tua casinha está pronta/Caminhos abertos/Jardim de flores/A ti te oferecem” (49: 1).

Deduz-se que, Maria Marques, em inequívoca sequência, desde o hino 45, Eu Sou Filho Da Terra, quando proclama “Eu sou filho da terra/O meu corpo entrego a ela…”, está anunciando sua passagem para a Pátria ou Reino Espiritual, a morada eterna onde vicejam as belas flores do Jardim decantado por Mestre Irineu que, inúmeras vezes, usa o dom mediúnico de sua porta-voz para se comunicar com a irmandade. Enfim, a Terra não é nossa Pátria original e por isso a habitamos como “estrangeiros”. Passaram-se cinco anos para que eu pudesse sustentar teologicamente o ensinamento da professora e zeladora do hinário O Mensageiro, minha saudosa instrutora dona Percília Matos da Silva (8/7/1926-27/10/2004).

 

3 – “OS ESTRANGEIROS” SEGUNDO A BÍBLIA DE JERUSALÉM

Em 2005 dei início aos estudos teológicos (bíblicos, gnósticos e esotéricos), pelos quais me apaixonei e que resultou em uma biblioteca especializada de mais de 500 volumes. Das muitas versões da Bíblia – incluindo versões traduzidas do grego e do hebraico – que tenho em meu acervo, pois é necessário comparar as traduções, a Bíblia de Jerusalém se destaca por sua reconhecida competência, sendo uma das versões chancelada pelo Vaticano. Nela, na primeira nota de rodapé da Primeira Epístola de São Pedro (atribuída a), os comentaristas apontam: “A terra pertence a Deus (Sl 24, 1); o homem vive nela como estrangeiro (Lv 25, 23), como quem está “de passagem”, pois deve deixá-la na morte (Sl 39, 13s; 119, 9; 1 Cr 29, 10-15). Após a revelação da ressurreição dos mortos (2 Mc 7, 9+), o tema se completa: a verdadeira pátria do homem está no céu (Fl 3, 20; Cl 3, 1-4; Hb 11, 8-16; 13, 14); ele vive na terra “como no exílio”… no meio de um mundo pagão, cujos vícios é preciso evitar…” (BÍBLIA, 2002: 2113).  

 

4 – “OS ESTRANGEIROS” EM LEVÍTICO E NA EPÍSTOLA AOS HEBREUS

Levítico é o terceiro livro do Pentateuco (Torá), os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, e detalha leis, rituais e códigos de conduta para o povo de Israel. O capítulo 25 reproduz uma longa instrução de Iahweh a Moisés, cujo versículo 23 determina, segundo tradução da B. J.: “A terra não será vendida perpetuamente, pois a terra me pertence e vós sois para mim estrangeiros e hospedes”.

Segundo a tradução da referida Bíblia, A Epístola aos Hebreus traz mais luz ao tema: “Na fé, todos morreram, sem ter obtido a realização da promessa, depois de tê-la visto e saudado de longe, e depois de se reconhecerem estrangeiros e peregrinos nesta terra. (…) Eles aspiram, com efeito, a uma pátria melhor, isto é, a uma pátria celeste” (Hb 11: 13-16).

O monumental Comentário Bíblico Adventista, 1ª edição (2014), uma obra de aproximadamente 10.000 páginas, em seu volume 7, Filipenses a Apocalipse, acrescenta acerca de Hebreus, 11, 14, especificamente sobre o vocábulo “Pátria”: “Ao declararem-se “estrangeiros e peregrinos sobre a terra”, os notáveis antigos deixaram claro que não consideravam que este mundo atual fosse o seu lar. Eles sabiam que há mais para se desfrutar viver do que o mundo atual tem a oferecer” (p. 515).

 

5 – O AMOR DIVINO, O “HINÁRIO DO CHEFE” E O “HINÁRIO DO REINO”

Uma outra dica que aprendi com os exegetas bíblicos, ao estudar uma matéria denominada bibliogênese, em especial a neotestamentária, é cotejar (comparar) os quatro Evangelhos canônicos, no que tange às palavras atribuídas a Jesus, que configuram suas doutrinas. É muito interessante e a princípio, perturbador, perceber, por exemplo, como essas palavras são editadas (com subtração ou acréscimos) para se adequarem a um viés teológico defendido pelo autor em relação a outro. Outro achado é encontrar respostas mais conclusivas, por sinergia entre os Evangelhos, sobre alguns mistérios deixado pelo grande Mestre.

Esse método também pode e deve ser aplicado ao que denomino, em primeira mão, de Pentateuco Daimista, os cinco hinários arrolados acima que perfazem o fundamento teológico primordial do Daime. De maneira que, em relação ao tema que ora estudamos, o mistério do Chefe Estrangeiro e seus “estrangeiros” (discípulos que, naquela ocasião, o ajudavam a implementar sua revolução teológica), é o hinário do baluarte e patriarca Antônio Gomes da Silva – batizado por sua neta Peregrina, em 1989, como O Amor Divino -, que irá nos ajudar a solucionar o enigma. Em primeiro lugar, dentre todos os hinários cofundadores da doutrina, esse é o que revela definitivamente a identidade do Chefe Estrangeiro, pois além de ser o que mais repete a palavra “Chefe” (12 vezes em 5 hinos), também é o que apresenta o “Reino” (palavra repetida 5 vezes em 2 hinos) citado por Maria Marques – e mencionado acima – no hino 48, 5, como sinônimo de Pátria Espiritual; no caso, Celestial (48, 1).

Iniciemos pelo vocábulo “chefe”. A primeira menção ocorre no hino 2, Eu Vou Chamar Os Meus Irmãos (Preleção), o mais longo dos hinos da base, em que se declara, em tom enfático, usando-se o artigo definido “o”, a singularidade do “Chefe”: “Essa riqueza é minha/Foi meu pai foi quem me deu/Junto esta irmandade/Aqui o Chefe sou eu” (2: 20). O que está de acordo com a afirmação supracitada do hino 46 d’O Mensageiro, que apresenta o Chefe Estrangeiro: “…Aqui dentro só existe um, que é o general número um” (46:10). A conclusão é óbvia: não existe outro “Chefe” por quem se deva esperar, a não ser o próprio Mestre Irineu.

Inclusive, nesse mesmo hino 46, no mesmo versículo (8) em que se menciona o Chefe Estrangeiro, alerta-se que “Ninguém deve anunciar, que ninguém não tem bandeira…”, pois é O Amor Divino que proclama, de fato, quem tem “a bandeira” e de quem se recebe: “A Virgem Mãe lhe deu poder/E lhe entregou vossa bandeira/Mandou ele nos dourar/Com as vossas divinas estrelas” (23: 4). E “…Todos devem esperar pelo Chefe Estrangeiro”, segundo O Mensageiro 46, 8, porque segundo O Amor Divino 5, 8: “(…) Nós não merecemos nada, sem o Chefe ir na [à] frente”. No mais, no hino 5 d’O Amor Divino, Pedi Licença A Meu Chefe, no qual esta palavra aparece em 8 dos 12 versículos existentes, seus atributos únicos são descritos: o Chefe concede a licença (5: 1); o Chefe tem poder (5: 3); o Chefe cura (5: 4), o Chefe intermedia (o papel do Mediador) a súplica ao Pai (5: 7), o que justifica Ele sempre ir à frente (5: 8).

As concordâncias e as complementações reveladoras em relação ao hinário O Mensageiro continuam, agora no hino 9, cujo título, O Chefe Que Veio À Terra torna implícito que seu lugar de origem não é aqui (por isso, “estrangeiro”) e sim na Pátria Celestial. É um pouco à frente, no hino 13, O General Juramidã, que o Reino divino é proclamado na Terra através da consciência do “Reino” disponibilizado nos quatro versículos, cumprindo a milenar promessa de Jesus na última ceia: “Em verdade vos digo: já não beberei do fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus” (Mc 14: 25). O autor de Mateus, que escreve depois de Marcos, embora apareça precedendo-o no Cânon, acrescenta a companhia dos apóstolos na promessa do banquete e do brinde escatológico: “Eu vos digo: “Não beberei mais deste fruto da videira até o dia em que convosco beberei o vinho novo no Reino do meu Pai” (Mt 26: 29).

Justamente, é no hino 13 d’O Amor Divino, no qual o nome Juramidã (grafia oficial do CICLU-Alto Santo) é introduzido na doutrina, para que se cumpra a profecia apocalíptica do “novo nome” (Ap 3;12) do Cristo, que o Mestre ressurgido disponibiliza o Reino prometido na ceia derradeira em Jerusalém, utilizando, inclusive, as mesmas expressões proféticas marcana (“Reino de Deus”) e mateana (“Reino do meu Pai”): “O general Juramidã/Os seus trabalhos é no astral/Entra no Reino de Deus/Quem tem força divinal” (13: 1); “Neste Reino de meu Pai/É para mim com todos entrar/Os que obedecer os ensinos/E depois que se humilhar” (13: 3), pois o Mestre já havia avisado, ensinando no Templo de Jerusalém: “Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado” (Mt 23: 12).

Antes de prosseguirmos para o próximo subtítulo, convido o leitor, caso deseje se aprofundar no estudo da profecia de Jesus na última ceia, a ler a interpretação do hino 1, Lua Branca, especificamente o subtítulo As Expressões de Jesus na Promessa da Última Ceia e, depois, estudar a cabalá da palavra aramaica Malchut (Reino), no artigo Mestre Irineu e a Árvore da Vida: a doutrina cabalista nos hinos 9 e 10 (links ao final deste texto).

 

6 – O “CHEFE” DO EVANGELHO DE MATEUS NA VOZ DE MESTRE IRINEU

A exclusividade do título “Chefe” concedido ao Mestre, afirmada n” O Mensageiro 46: 8, 10, e n’O Amor Divino 2, 20, reverbera o que Jesus afirmou, segundo a tradução Nova Versão Internacional para Mateus 23: 10: “Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’, porque vocês só tem um Chefe, o Cristo”. Segundo o contemporâneo Sebastião Jaccoud, membro do CICLU-Alto Santo, em seu O Terceiro Testamento: “Numa das últimas conversas do Mestre com o discípulo Raimundo Gomes da Silva [filho de Antônio Gomes], presenciada por várias pessoas, estes ouviram a advertência: – Ninguém queira ser chefe. O dono daqui sou eu. Quando me ausentar, reúnam, tomem Daime e me chame que eu venho. O dono daqui sou eu – repetia enquanto reforçava cada palavra com batidas do bastão no assoalho” (JACCOUD, 1992: 68).

 

7 – O CHEFE DA GALILEIA DOS ESTRANGEIROS (GENTIOS)

Neste subtítulo, vamos estudar um outro significado para a palavra “estrangeiro (s)”, além da acepção “vindo da Pátria Espiritual/Celestial”. Ao final, as acepções somar-se-ão, proporcionando uma visão mais completa da missão de Juramidã. O Mestre da última ceia, que prometeu tomar uma “vinho novo” com seus discípulos no “Reino de Deus” ou no “Reino do Pai”, era um galileu de nascimento, como atesta o teólogo Joseph Ratzinger, que, muitos antes de se tornar o Papa Bento XVI, em seu clássico Introdução ao Cristianismo, de 1968, é categórico: “Certamente, Jesus é de Nazaré” (RATZINGER, 2012: 201).

Seus conterrâneos, Gerd Theissen e Annette Merz, conceituados expoentes da tradicional escola alemã de teologia, esclarecem: “Jesus nasceu em Nazaré. A transferência do lugar de nascimento para Belém é um resultado de fantasia e imaginação religiosas: como o Messias devia nascer em Belém de acordo com as Escrituras, o nascimento de Jesus é transposto para lá” (THEISSEN & MERZ, 2015: 186). O professor Eduardo Hoornaert, corrobora: “(…) Percebemos que Jesus, como por intuição, percebe, por trás das pessoas que dele se aproximam em sua carência, fraqueza, ou humilhação, o grande escândalo da vida política, social e econômica na sua Galileia natal” (HOORNAERT, 2016: 172). Conseguinte, o autor qualifica Jesus como “líder galileu”, “Homem da Galileia” e “profeta da Galiléia” (pp. 13; 17; 23).

O Evangelho de João deixa isso subentendido: “Outros dizem: este é o Messias; mas diziam outros: vem, pois, o Messias da Galiléia? Não diz a Escritura que o Messias vem da descendência de David, e de Belém, da aldeia de onde era David?” (Jo 7: 41-42). Os comentaristas da Bíblia Tradução Ecumênica acrescentam: “Observamos também que João mesmo nunca fala do nascimento de Jesus em Belém” (BÍBLIA, 1994: 2064). Somente as narrativas do autor de Mateus e Lucas deslocam o nascimento para Belém. Isso se justifica porque os Evangelhos, por vezes, são muitos mais comprometidos com a apologia teológica do que com os fatos históricos.

Aprofunda-se: no caso de Mateus, considera-se o mais judaico dos Evangelhos. Seu autor (não foi escrito pelo apóstolo Mateus) priorizava o cumprimento de profecias, ou como esclarece o Ph.D. Severino Celestino da Silva: “(…) O Evangelho de Mateus que foi escrito para os judeus convertidos ao cristianismo e apresenta citações do Antigo Testamento em todos os seus capítulos” (SILVA: 2014: 63). Quanto a Lucas, é do conhecimento geral no universo teológico (não há espaço aqui para minudências), que muitas narrativas lucanas são novelas apologéticas que não priorizam os fatos, ou como afirma o Geza Vermes quanto à fidedignidade histórica de Lucas: “(…) Deriva do autor nem sempre confiável dos Atos dos Apóstolos” (VERMES: 2006: 97).  

O fato de Jesus não ter nascido em Belém é apenas um de muitos manejos editoriais dos Evangelhos e, em parte, explica por que Mestre Irineu não oficializou a Bíblia em sua liturgia, e por que se deve ter cuidado ao importar “cenas” dos Evangelhos para dentro dos hinos do Daime não coetâneos ao Mestre, sem um conhecimento mais abalizado a respeito, ainda que envernizados com a chancela “recebido”. É preciso considerar que Mestre Irineu em suas sessões, “(…) Jamais fazia citações da Bíblia e que nem mesmo costumava deixar o Livro na mesa do salão de ritual” (MOREIRA & MACRAE, 2011: 374).

A Bíblia de Jerusalém traduz a terra natal de Jesus, como “distrito das nações” (Is 8: 23), e “Galiléia das nações” (Mt 4: 15). A tradução de João Ferreira de Almeida traz “Galileia dos gentios” (BÍBLIA, 2007: 873). Haroldo Dutra Dias, autor de uma excelente tradução do Novo Testamento grego, explica a correlação entre “nações” e “gentios” ao comentar Mt 4: 15: “O plural (nações) frequentemente se refere às nações pagãs, aos gentios, ou seja, não-judeus” (NOVO TESTAMENTO, 2010: 47). O dicionário Houaiss também define gentio como “Entre os hebreus, que ou aquele que é estrangeiro ou não professa a religião judaica” (GENTIO, 2009).

Mas Jesus não era judeu? Sim, mas antes era galileu! Em que isso implica? Segundo o Dr. Reza Aslan, Mestre em Estudos Teológicos pela bicentenária Harvard Divinity School: “Parece que os galileus se consideravam um povo totalmente diferente dos demais judeus na palestina. Josefo refere-se explicitamente a eles como uma etnia ou nação separada A elite urbana da Judeia referia-se aos galileus ironicamente como “povo da terra”, um termo usado para indicar sua dependência da agricultura de subsistência. Mas a expressão tinha uma conotação mais sinistra, indicando os ignorantes e ímpios que não cumpriam corretamente a Lei…” (ASLAN, 2013: 115). Essa realidade é atestada no Evangelho mateano: “‘Então chegaram ao pé de Jesus uns escribas e fariseus de Jerusalém, dizendo: ‘Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos antes de comer pão’” (Mt 15: 1-2). Geza Vermes é enfático: “A Galileia de Jesus era diferente da Judéia…”, e relata a “(…) Falta de familiaridade dos galileus com o entendimento e a prática sofisticados da Torá” (VERMES, 2006: 264; 269).

O teólogo católico John Meier, autor do clássico Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico, afirma que a literatura rabínica considerava a linguagem dos galileus como “dialeto” (MEIER, 1992: 231); “(…) Um dialeto galileu do aramaico” (VERMES, 2006: 296). Graças a arqueologia, irmã siamesa da história, sabe-se que muitos galileus foram influenciados pela cultura religiosa greco-romana. O teólogo dinamarquês Benedikt Otzen, especialista em judaísmo na antiguidade, revela que uma “(…) População semipagã foi gradualmente se desenvolvendo na região” (OTZEN, 2003: 17). Por fim, o filósofo e teólogo Hélio Soares do Amaral traz luz sobre o tema: “No imaginário cristão a Galiléia pertencia à Palestina, a religião praticada era a dos hebreus e todos aí seriam judeus. É falso. (…) Depois de Alexandre, os programas helenizantes encheram o território de cidades ao modo grego e os galileus não reclamaram (AMARAL, 2006: 39).

 

8 – ESTRANHOS NA TERRA DOS ESTRANGEIROS

A palavra “estrangeiro” e “estranho” tem a mesma raiz latina, extraneus, que significa “o que é de fora” (ESTRANHO; ESTRANGEIRO, 2009). Como vimos no último subtítulo, os galileus eram considerados como “uma etnia ou nação separada”, religiosamente rebeldes em relação a Judeia. Ademais, “Visto que toda liderança da comunidade mais antiga de crentes no Messias Jesus, da comunidade de Jerusalém, era composta de galileus, pode-se compreender por que a tradição que eles iniciaram e ensinaram se concentrou na missão galileia” (DUNN, 2017: 115). Considerando os estudos contemporâneos que questionam a fidedignidade histórica de algumas passagens dos Evangelhos, põe-se em cheque uma suposta ortodoxia religiosa de Jesus, que pode ter sido teologicamente construída para amenizar sua marginalidade.

Destarte, não é sem propósito a afirmação do prof. Eduardo Hoornaert a respeito de Jesus: “Por onde passa, causa estranheza e ao mesmo tempo fascínio”; “Jesus escandaliza diversas pessoas que entram em contato com ele ou ouvem falar de seus comportamentos” (HOORNAERT, 2016: 163; 171). O expoente teólogo brasileiro Paulo Nogueira, Doutor em Teologia pela tradicionalíssima (fundada em 1386) Universidade de Heidelberg (Alemanha), corrobora: “Jesus de Nazaré e seus discípulos eram pregadores itinerantes que tinham como objetivo pregar sua mensagem a todo povo de Israel. No entanto, eles também causaram escândalo por circular entre grupos sociais considerados marginais e impuros, como os estrangeiros, prostitutas, cobradores de impostos, etc.” (NOGUEIRA, 2018: 33).

Assim, o “estranho” líder (Chefe) da terra dos estrangeiros, foi desdenhado desde sua origem por genuínos israelitas como Natanael, antes que este fosse iluminado com o vinho da bodas de Caná: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? (Jo 1: 46). O padre exegeta, Raymond Brown (1928-1998), considerado o maior especialista contemporâneo no Evangelho de João, um prodígio que escreveu um inigualável comentário de 1700 páginas sobre a boa-nova joanina, complementa: “Natanael reage às notícias de Felipe sobre Jesus com dúvida aviltante, uma reação que Jesus encontrará com muita frequência entre os que creem na Lei e nos profetas” (BROWN, 2020: 277).

Dentre outros óbices em seu caminho, Jesus teve sua competência sacerdotal posta em dúvida: “Com que autoridade fazes estas coisas?” (Mc 11: 28); foi alvo de maquinações e fingimentos: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. (…) Dize-nos… é lícito pagar imposto a Cézar, ou não?” (Mt 22: 15-22); foi acusado de charlatão: “Ele engana o povo” (Jo 7: 12), impostor (Mt 27: 63), e louco: “E quando os seus tomaram conhecimento disso, saíram para detê-lo, porque diziam: ‘Enlouqueceu!’” (Mc 3: 20). Em Marcos 3: 22, é acusado de feitiçaria por seus dons exorcistas, ou nas palavras dos teólogos Gerd Theissen e Annete Merz, autores do prestigiado O Jesus Histórico: um manual: “Era natural interpretar os milagres de Jesus como feitiçaria e magia satânica quando não se via neles a ação de Deus” (THEISSEN & MERZ, 2015: 96).

Dois milênios se passaram, e o “Chefe habitado” acusado de feitiçaria e de deixar as pessoas “drogadas”, em seu “português galileu” (iletrado) testemunha as mesmas agruras do Cristo em sua boa-nova contemporânea: “A terra aonde estou, ninguém acreditou…” (42: 1); “Eu ensino é com amor/É com firmeza e lealdade/Quando vem falar comigo/Sempre trazem a falsidade” (73: 5). “Mas ninguém não alembra que chamou o Mestre mentiroso…” (80: 4). A partir do hino 104, Sexta-Feira Santa, “seguindo os passos que Deus me dá”, o Chefe decide apresentar sua “memória divina”: “A minha mãe que me ensina/Me diz tudo que eu quiser/Sou filho desta verdade/E meu pai é São José” (104: 2-3). Sendo “filho deste poder” (105: 1), “Encostado a meu Império, Dono da força maior” (106:1), o Chefe dá testemunho do mistério da cruz, “Para eu poder assinar/Para sempre a santa cruz” (107: 2), para declarar nesta terra “O amor que Deus me dá” (108: 1), pois se “Tudo, tudo Deus me mostra” (109: 1), reativada sua memória divina, “Tudo, tudo é verdade/E eu não posso me esquecer” (109: 1): “De longe, eu venho de longe…” (100: 1)…

 

9 – “DE LONGE”, O HINO:  DO MAR SAGRADO À FLORESTA ENCANTADA

“De longe, eu venho de longe/Das ondas do mar sagrado/Para eu conhecer o poder/Das florestas e Deus amar” (110: 1).

Tributo o padre ortodoxo russo, filhos de pais judeus, Aleksandr Mien (1935-1990), que durante a perestroika foi covarde e brutalmente assassinado com uma machadada na cabeça. Através de seu best-seller Jesus, Mestre de Nazaré, introduzo este subtítulo: “Outrora, a parte mais florescente do país era a região setentrional, a Galileia, situada a oeste do lago de Kinneret (ou Genesaré), também conhecido como mar da Galileia. Nessa região viviam muitos estrangeiros, por isso os judeus a chamavam “Galileia pagã”” (MIEN, 1998: 20).

No hino 59, O Divino Pai Eterno, Mestre Irineu relembra sua origem genesíaca: “O divino Pai eterno/Quem me fez, quem me criou/Para eu ser um filho seu/No jardim de belas flores” (59: 1). No Gênesis, tradução da Bíblia de Jerusalém: “(…) Um sopro de Deus agitava a superfície das águas” (Gn 1: 2), que a Bíblia Hebraica traduzida diretamente para o português, sinonimiza como “Espírito de Deus” (BÍBLIA, 2006: 11). O Espírito agitava as águas imaculadas, “ondas do mar sagrado”… No batismo do Jordão, esse Espírito que já havia descido sobre a Mãe, apossa-se do Filho (Lc 3: 22).

Após o batismo, Jesus sai de Nazaré e se domicilia em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia, cidade onde Pedro morava, embora tivesse nascido em Betsaida: “À notícia de que João Batista fora preso, retirou-se Jesus para a Galileia. Assim, deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, à beira-mar, no território de Zabulon e Neftali.” (Mt 4: 12-13). A partir daí, o divino Mestre, inspirado pelo Espírito em seu imaculado coração, deu ao mar da Galileia a consagração, espelhando o protótipo edênico e ensinado o caminho – segundo a teologia de Paulo – do “segundo Adão”: “O primeiro homem, sendo da terra, é terreno, o segundo homem é do céu. (…) E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Cor 15: 47-49).

“De Longe, eu venho de longe, das ondas do Mar sagrado”… Caminhando na orla do Mar, chamou os primeiros discípulos (Mt 4: 17-22); e subindo um monte próximo, elegeu seus doze apóstolos (Mc 3: 13-19); ao descer do monte, parou em um platô com vista para o mar da Galileia, e inspirado por toda essa beleza, proferiu as palavras mais sábias que já saíram da boca de um mestre, o Sermão da Montanha, a quinta-essência de sua mensagem salvífica (Lc 6, 17-35; Mt 5-7); lá, também ensinou o Pai-nosso, a oração das orações que aprendeu com João Batista (Mt 6: 5-13; Lc 11: 1-4); e num belo dia ameno e ensolarado, pôs seus pés na água e sentou em um barco, para ensinar através de suas parábolas: a do semeador (Mc 14: 1-9), a do joio e do trigo (Mt 13: 24-30), a do grão de mostarda (Mc 4: 30) e a do fermento (Mt 13: 33-35); às margens do mar, curou um hanseniano (Mt 8: 1-4) e exorcizou “endemoninhados” (Mc 5: 1), e subindo em outro monte que emoldurava o belo mar, acolhia os coxos, cegos, mudos e demais marginalizados (Mt 15: 29-31), ordenando aos discípulos dividirem o pouco que se tem, pães e peixes, entre os zés-ninguém (Mt 15: 32-39) – quem se habilita? Pergunto aos homens da Bíblia. Não é o dízimo nem a oferta, é a caridade quem multiplica!

 

10 – AS REVOLUÇÕES DOS ESTRANGEIROS E A MUDANÇA DE GOVERNO: DE JESUS A JURAMIDÃ

Celebrando a divina sacerdotisa: “O tempo está desmudado/mudou de governo/Novas revoluções/Aqui com os estrangeiros” (O Mensageiro: 46: 7). O que significa mudar um governo através de uma revolução? Subversão da ordem estabelecida! Porém, antes de esmiuçar que revoluções são essas, vamos às “antigas revoluções”…

 

10. 1 – GALILEIA DOS ESTRANGEIROS: TERRA DE REVOLUCIONÁRIOS

Necessito sintetizar o conteúdo deste subtítulo, pois esse tema já rendeu dezenas de páginas em livros especializados. Recorro, novamente, a Reza Aslan: “Roma pode ter tido razão em se concentrar de forma tão brutal na Galiléia. A região tinha sido um foco de atividade revolucionária por séculos. Muitos antes da invasão romana, o termo “galileu” tinha se tornado sinônimo de “rebelde”” (ASLAN, 2013: 114). A rebeldia contra o domínio romano, que favorecia a elite sacerdotal judaica, também rendeu um adjetivo nada honroso aos galileus, no âmbito religioso: “Mas este povo, que não conhece a Lei, são uns malditos!” (Jo 7:49).

 

10.1.1 – JESUS E A REVOLUÇÃO POLÍTICA

Para não me afastar do contexto do hino de Maria Damião, que está a falar de uma revolução religiosa-teológica, muito embora também tenha causado certo impacto público com implicações no âmbito governamental, abordarei, com brevidade, as outras duas faces revolucionárias de Jesus, além da religiosa: a política e a social. É necessário desmascarar a farsa do Jesus despolitizado eclesial romano, que em um sonho inventado apoia o imperialismo sanguinário de Constantino, mas que em vida se absteve de defender seus compatrícios da exploração romana.

Esse Jesus imperial não corresponde ao contexto histórico do profeta galileu! Para um aprofundamento, recomendo as obras do prof. Richard A. Horsley, traduzidas pela editora Paulus, em especial Jesus e O Império: o reino de Deus e a nova desordem mundial. Era impossível na Palestina do primeiro século separar religião de política. O estado judeu era teocrático e Roma caminhava para deificar seus imperadores. Nas palavras do autor: “Os interpretes cristãos tendem não somente a domesticar o “ministério” de Jesus, mas também a despolitizar o contexto galileu e judeu imediato no qual ele operava” (HORSLEY, 2004: 15).

Vamos analisar três perícopes dos Evangelhos que revelam o quanto a vida pública de Jesus teve implicações políticas em seu meio. O primeiro episódio está em Marcos 3, 18, quando Jesus, segundo a tradução da Bíblia de Jerusalém, escolhe para compor o conselho dos doze apóstolos, “Simão, o Zelota”. Em 4 a. C., após um reinado de mais de 30 anos, morre o déspota Herodes, o Grande. Segue um panorama do momento, segundo o prof. James Tabor: “A Judéia mostrava-se longe de estar pacificada. Uma figura fogosa conhecida por Judas, o Galileu, instigou uma revolta em grande escala, aproveitando-se da mudança de administração. (…) Judas pregava que Deus era o único senhor e que deveriam se livrar do jugo romano. Segundo Josefo, Judas foi o fundador do partido dos judeus que tomou o nome de zelote” (TABOR, 2006: 119). Segundo o Comentário Bíblico Adventista, de 2013, vol. 5, p. 650, os zelotes constituíam “(…) Um partido judaico nacionalista”, com representatividade, através de Simão, no círculo mais estreito de discípulos, os apóstolos, ou nas palavras de Geza Vermes: “(…) A facção anti-romana da Galileia também teria tido um representante no círculo imediato de Jesus” (VERMES, 2006: 197).

O segundo episódio é a pegadinha macabra do denário. Um grupo de fariseus e herodianos, partidários da dinastia de Herodes e, portanto, cupinchas do Imperador, lançam a maliciosa pergunta: “(…) É lícito pagar imposto a César, ou não?” (Mt 22: 17). O que Jesus respondeu, segundo a tradução correta do grego para Mateus 22: 21, foi: “Restituí [devolva], pois a César {as coisas} de César, e a Deus {as coisas} de Deus” (NOVO TESTAMENTO, 2010: 126). Segundo Eduardo Hoornaert, que ensinou História do Cristianismo em várias instituições católicas brasileiras, “A melhor tradução do verbo grego aqui é “devolver”, não “dar”” (HOORNAERT, 2016: 169). Tradução corroborada pelo conceituado Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: “21 [Mt 22: 21]. Devolvei, pois, a César. Este é o dito que contém o sentido do apotegma [máxima]” (VIVIANO, 2018: 200). Reza Aslan, em seu best-seller Zelota, a Vida e a Época de Jesus de Nazaré, também subscreve o padre Hoornaert, esmiuçando em duas páginas, as diferenças entre “dar” e “retornar” em grego, e o real significado do que Jesus falou: “(…) Deus tem o direito de “receber de volta” a terra que os romanos tomaram para si, porque é a terra de Deus: ‘A terra é minha’, diz o Senhor (Levítico 25: 23). (…) Então, devolva a César o que é dele, e devolva a Deus o que pertence a Deus. Esse é o argumento zelota em sua forma mais simples e concisa” (ASLAN, 2013: 100-101).

Geza Vermes ratifica Aslan, mencionando duas obras de Josefo: “(…) A associação dos zelotas… proibia os judeus de pagarem impostos a César e não reconhecia nenhum Senhor exceto Deus” (VERMES, 2006: 268). Não é preciso dizer das implicações políticas da resposta de Jesus, embora em decorrência da tradução equivocada e premeditada “daí”, ensinou-se por séculos que sua mensagem era tão somente “espiritual”, o que produz ainda hoje uma alienação quanto à importância de uma espiritualidade associada à “consciência de classe” e justiça social: “Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”; “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino de Deus” – Jesus consolava os seus conterrâneos galileus brutalmente oprimidos pelo Império. Nas palavras do brilhante teólogo John Dominic Crossan, na abertura de sua obra-prima e referência mundial O Jesus Histórico: “Eles sabem o que é domínio e poder, o que é reino e Império, mas sabem disso em termos de impostos e dívidas, subnutrição e doença, opressão agrária…” (CROSSAN, 1994: 11).

Por último, um episódio decisivo para a condenação política de Jesus à morte: a expulsão dos vendilhões do Templo (Mc 11: 15-18; Mt 21: 12-13; Jo 2: 15-17). O Templo era o centro da teocracia judaica e o coração de seu sistema financeiro. Segundo Raymond Brown, em seu comentário exaustivo do episódio na perícope joanina, “A corrupção da casa sacerdotal de Anás [sogro de Caifás] era notória…” (BROWN, 2020: 321). O corrompimento desse sistema fora denunciado pelo profeta Jeremias no século VII a. C: “É esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos?” (Jr 7: 11). E, Jesus, pertinente, tocou a ferida ao vociferar: “Está escrito: Minha casa será chamada casa de oração. Vós porém fazei dela um covil de ladrões!” (Mt 21:13). A classe sacerdotal movimentava grandes somas de dinheiro com esse política, o que incluía “o dinheiro da reparação” e “o dinheiro do pecado” mencionados em 2 Rs 12: 17. Jesus atraiu o ódio mortal desses sacripantas quando começou a perdoar pecados, gratuitamente (Mc 11: 25; Mt 6: 14; Lc 5: 23-24; 7: 47-50). Era Jesus denunciando o comércio da fé! Quanto mais pecadores, mais dinheiro – algo parecido nos dias atuais? Ah, esse Jesus que sempre “em breve virá” e nunca vem. Não convém, não é mesmo?

 

10.1. 2 – JESUS E A REVOLUÇAO SOCIAL

Jesus não usou punhais ou espadas. Outras armas com alto potencial beligerante compunham seu arsenal: palavras e atitudes! É evidente que revolucionar no âmbito social implicava em revolução religiosa e política. Jesus provocou a ira dos indefectíveis e atemporais zeladores  “da moral e dos bons costumes”. A política social de Jesus era a inclusão quase irrestrita, colocando o amor acima da Lei. Jesus a “transgride” quando toca hansenianos (Mc 1:40-41) e toma refeição em suas casas (Mc 14:3), pois eram considerados amaldiçoados por Deus; segundo o Comentário Bíblico Adventista, vol. 5, p. 622: “O conceito popular dos judeus era que a lepra sobrevinha como um castigo divino sobre o pecado…”. Jesus foi criticado por alguns fariseus por sentar-se à mesa com publicanos e pecadores (Mt 9:10-11), “Homens cujos costumes pessoais ou cuja profissão mal afamada os tornavam impuros e indignos de convivência” (BÍBLIA, 2002: 1718).

Inclusive, foi acusado de “comilão e beberrão”, ao socializar nos banquetes a ele oferecidos (Mc 9: 10-11; Lc 14:1-7). J. D. Crossan, agora em seu não menos esplêndido Jesus: um biografia revolucionária, comenta contextualmente: “(…) A ideia de comer junto e de viver junto sem quaisquer distinções, diferenças, discriminações ou hierarquias está perto do irracional e do absurdo. E aquele que faz isso está perto do desviante e do pervertido. Não tem honra. Não tem vergonha” (CROSSAN, 1995: 84). Jesus cura o servo de um centurião, a pedido deste, em que pese tratar-se de um comandante do Império opressor – Ele lia os corações e encontrou generosidade em tal homem (Mc 8: 5-10). Exorciza endemoniados entre os pagãos gadarenos (Mt 8:28) e cananeus (Mt 15:21-28), e bebe água do poço de samaritanos (Jo 4:7), odiados pelos judeus – o amor incluía o que o preconceito sociocultural apartava.

E numa lista extraordinária, não se pode deixar de mencionar a inclusão das mulheres que, à época, não podiam estudar a Torá, servirem de testemunha nem terem voz própria. Jesus livrou uma adúltera – e sabe-se lá o que poderia estar sofrendo em seu matrimônio – do apedrejamento (Jo 8:3-11). Chama, publicamente, uma mulher que acabara de ser exorcizada por ele, de “filha de Abraão” (Lc13:16), ou seja, reivindica para ela, igualmente, a herança divina. Acolhe e deixa uma mulher de reputação duvidosa tocá-lo – o que feria o “decoro” – na casa de um fariseu que o convidou para uma refeição (Lc 7: 36-50). Várias mulheres – e isso era escandaloso – o “seguiam” (Mt 27: 55-56; Lc 8: 2-3), segundo tradução de J. F. de Almeida (BÍBLIA, 2007). Outra vez, valho-me da luxuosa contribuição de J. D. Crossan, hoje um simpático velhinho de 91 anos: “E como havia mulheres presentes, especialmente mulheres solteiras, a acusação seria a de que Jesus come com prostitutas, qualificação padrão da difamação para qualquer mulher fora do controle masculino” (CROSSAN, 1995: 83). É tragicômico ver, nos dias atuais, o nome de Jesus ser usado na defesa intransigente, preconceituosa e orgulhosa dos “valores da família tradicional”. Haja paciência e resistência!

 

10.1. 3 – JESUS E A REVOLUÇAO TEOLÓGICA

“Ninguém põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, o vinho estourará os odres, e tanto o vinho como os odres ficam inutilizados. Mas, vinho novo em odres novos!” (Mc 2: 22).

Segundo o Comentário Bíblico Adventista (2013), vol. 5, p. 637, para essa perícope marcana: “Os ensinos revolucionários de Jesus não podiam se harmonizar com os dogmas reacionários do judaísmo”. Os “odres” metaforizam as pessoas. Para que recebamos o que é novo, é preciso se renovar. Jesus, o líder (Chefe) galileu foi um religioso reformista: “Jesus intensificava as normas éticas (sobretudo, o mandamento do amor)… e relativizava as normas rituais (sobretudo, o mandamento sobre a pureza)…” (THEISSEN & MERZ, 2015: 388). Como exemplo, o conhecido aforismo: “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isto sim o torna impuro” (Mt 15: 11).

A teologia revolucionária de Jesus teve no mote “Eu porém vos digo”, proferido na colina em frente ao mar da Galileia onde Jesus se encontrava durante o Sermão da Montanha, sua marca registrada e eternizada em Mateus 5: 21-48: “Ouvistes que foi dito aos antigos…Eu, porém, vos digo…”. E, assim, Jesus atualizou a Lei fazendo prevalecer o amor, como nestes emblemáticos exemplos: “Olho por olho e dente por dente” e “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Afora isso, sempre capitaneado pelo amor em suas expressões conciliatória, solidária e sensata, Jesus repaginou o mandamento do sábado (Mt 12: 11-12; Mc 2: 27-28; Lc 14: 5); o mandamento do dízimo (Mt 23: 23); e o mandamento do sacrifício (Mt 5: 23).

Jesus continua revolucionando, agora no que tange à doutrina do Reino de Deus, que “não vem com aparência visível”, pois, segundo a tradução de J. F. de Almeida: “está dentro de vós” (Lc 17: 20-21); que “Deve ser entendido em sentido espiritual: ‘O Reino de Deus está no interior de vós’” (THEISSEN & MERZ, 2015: 284). Ao perdoar pecados, Jesus havia dispensado as pessoas de gastarem seus parcos recursos, para esse fim, no Templo. Agora, ele diz abertamente que Deus está no interior, no coração do homem, sem que haja a necessidade de intermediação. Os mais célebres e fundamentais ensinamentos de Jesus se dão ao ar livre e não custam um centavo sequer – mais uma afronta à casta sacerdotal e seu Templo “edificado pelas mãos de homens” (Mc 14: 58).

E financiado – sua suntuosa reconstrução e ampliação – por um dos mais horrendos personagens da Bíblia, Herodes, o Grande, “rei-cliente” de Roma, às custas de “impostos esmagadores de seus súditos [judeus]” (ASLAN, 2013: 45-50). Escala-se o nível de tensão entre Jesus e os mandatários da fé, quando o Mestre assume a divindade inerente ao homem, o que provoca indignação em seus inimigos: “Não te lapidamos por causa de uma boa obra, mas por blasfêmia, porque, sendo apenas homem, tu te fazes Deus” (Jo 10: 33). Jesus afirmou o Eu Sou, o nome com o qual Deus se apresenta a Moisés (Ex 3: 14).

No Evangelho de João, por sete vezes (número da contemplação sabática por totalidade), o santo Mestre, personificação do divino, apresenta-se: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6: 35); “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8: 12). O Chefe Estrangeiro torna essas palavras redivivas através de Maria Marques, em uma sequência de dois hinos, 17 (Sou Filho de Maria)  e 18 (Mensageiro), nos quais, primeiramente, revela sua “nacionalidade estrangeira” e, ato contíguo, confirma a máxima joanina: “Sou a luz do oriente/A todos eu peço obediência/Que o caso está muito sério/Mandado pela Providência” (17: 3); “Eu sou filho de Deus/Eu sou é um mensageiro/Eu sou a luz iluminante/Que ilumina o mundo inteiro” (18: 1). Em João 10:7:  “Eu sou a porta das ovelhas”. O Chefe Estrangeiro replanta a metáfora, desdobrando a realidade histórica de seu passamento não definitivo, em consumação profética neotestamentária: “Eu cheguei nesta casa/Eu entrei por esta porta/Eu venho dar os agradecimentos/A quem rogou por minha volta” (128: 1).

Em João 10: 11:  “Eu sou o bom pastor”. Germano Guilherme anuncia a presença do Chefe ressurgido: “O vosso filho está no mundo/Com suas ovelhas, ele é bom pastor/Bem louvado seja, bem louvado seja/Bem louvado seja, vamos dar louvor” (48: 2). Em João 11: 25: “Eu sou a ressurreição”. Outra vez, o Chefe codifica o mistério, agora no emblemático hino 33, Papai Velho, no qual o Eu Sou (“Sou eu”), igualmente ao Evangelho joanino, é repetido pelo Mestre – que “nasceu em Natal” (v. 4) – por sete vezes ao longo do hino: “Até que enfim, até que enfim, até que enfim/Eu recebi o meu bastão/Pude me levantar/Com minha caducação” (33: 2).

A chave principal do mistério está em “levantar”, o verbo que os judeus usavam para se referir à ressurreição. Nas palavras do tradutor Haroldo Dutra Dias, comentando Mt 20: 19; Mc 10: 34 e Lc 18: 33: “Lit. ‘erguer-se, levantar-se, colocar-se de pé’. Expressão idiomática semítica que faz referência à ressurreição dos mortos. Para expressar a morte e a ressurreição, utilizavam as expressões ‘deitar-se’ (morte) e ‘levantar-se’ (ressurreição)” (NOVO TESTAMENTO, 2011: 118; 211; 351). Isaac Luria (1534-1572), cognominado Santo Leão, um dos maiores cabalistas da história, em seu clássico Portal das Reencarnações, defende a associação entre a palavra “ressurreição/levantamento” (likôtz) e reencarnação. Citando Dt 31: 16, “Disse o senhor a Moisés: Dormirás com teus pais, e este povo se levantará…”, segundo o tradutor e comentarista Rabino Joseph Saltoun, a quem agradeço publicamente pela gentil troca de e-mails, Luria concebe que “Este versículo refere-se à reencarnação futura dessa geração” (LURIA, 2016: 133).

Em João 14: 6, “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” – “Perguntei a todo mundo, por onde vai o Caminho?” (O Cruzeiro, 94: 1). “Caminho”, que aparece n’O Cruzeiro 19 vezes, era a palavra que os primeiros discípulos do Chefe galileu usavam para nominar a senda mística para Deus (Atos 9: 2; 19: 9, 23; 22: 4; 24: 14, 22). A mesma palavra era usada pelos essênios, os curadores da Palestina de Jesus, para o mesmo fim (VERMES, 2006: 159). Em João 15: 1: “Eu sou a verdadeira videira”. Como mencionado acima, o Mestre promete na última ceia (Mt 26: 29; Mc 14: 25), que beberia do novo fruto da videira (vinho novo). Mais uma vez, usando o artigo definido, Germano Guilherme – “A minha Mãe lhe mandou/E  amostra em  todo universo/O vosso Filho está na Terra/Ele é o Verdadeiro” (38: 2) – reafirma a teologia joanina, agora na Primeira Epístola de João 5, 20: “Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o Verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, no seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus Verdadeiro e a Vida eterna”.

Embora ninguém tenha acreditado, a Videira Verdadeira nos dá seu fruto n’A Terra Aonde Estou (hino 42), pois segundo o Evangelho gnóstico de Felipe (v. 23), “Ele disse: ‘Aquele que não comer minha carne e não beber meu sangue não terá em si a vida’. O que é sua carne? Sua carne é a Palavra (logos), seu sangue é o Sopro (pneuma). Aquele que acolhe a Palavra e o Sopro este recebeu, verdadeiramente, alimento, bebida, veste…” (LELOUP, 2006: 61-63). A “carne” alimenta porque é o Pão/Palavra que sustenta, o “corpo” (corpus) doutrinário, quando o Sangue simbolizado no Vinho, traz o Sopro, pneuma em grego, ruach em hebraico, o Espirito Santo da Mãe Divina, que se manifesta no Verbo de Juramidã e desnuda sua alma – “O Espírito é o que vivifica” (Jo 6: 63) – na consciência: “A minha Mãe que me ensinou/Quem me deu este primor/Dai-me amor, dai-me amor/Dai-me o pão do Criador” (42: 2). Porque “Está escrito: nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra [“Pão”] que sai da boca de Deus [Criador]” (Mt 4: 4). Também está escrito (profetizado), e agora realizado: “(…) Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das bodas do Cordeiro.” (Ap 19: 9)!

 

10. 2 – PAULO DE TARSO E A “MUDANÇA DE GOVERNO”

Especialmente através da teologia paulina, o nome de Jesus se universalizou e adquiriu status divino como o Redentor da humanidade. Embora suas epístolas estejam situadas depois dos Evangelhos, Paulo foi o primeiro escritor em ordem cronológica e não canônica do que viria a ser o Novo Testamento. Nas palavras do prof. Alan f. Segal em seu elogiado Paulo, O Convertido: “Ele é a nossa mais antiga testemunha; não da vida de Jesus, mas da fé em Cristo”; “Visto que as cartas de Paulo são os documentos mais antigos…” (SEGAL, 2010: 11; 19). Porém, antes de Paulo debutar como escriba na Primeira Epístola ao Tessalonicenses (49 – 50 a. C.), vinte anos antes que o primeiro Evangelho fosse escrito, algo muito impactante e decisivo aconteceu em sua vida quando ainda era Saulo, o implacável perseguidor: a visão no caminho para Damasco.

A experiência de Saulo foi dramatizada nos Atos dos Apóstolos por Lucas, considerado por Paulo como discípulo (2 Tm 4: 11). O capítulo 22 de Atos revela não só o acontecimento, mas a hora em que se deu, segundo o próprio Paulo: “Aconteceu que, estando eu a caminho e aproximando-se de Damasco, de repente, por volta do meio-dia, uma grande luz vinda do céu brilhou ao redor de mim” (At 22: 6). Jesus se apresenta em forma de luz: “Eu sou Jesus…” (At 22: 8). Trata-se da visão da Glória de Deus ou Kavod. Baseando-se nas quase idênticas experiências – que a teologia denomina de “paralelos” – do profeta Ezequiel (Ez 1: 27-28; 2: 1-3) e de Paulo, Alan Segal complementa: “Assim, a glória de Deus ou Kavod pode ser um termo técnico para a aparência humana de Deus” (SEGAL, 2010: 81).

E aqui faremos a ponte entre a visão de Paulo e o amplo e profundo replante doutrinário de Juramidã: trata-se do hino 30, Devo Amar Aquela Luz. “Aquela luz” indica que não é uma luz qualquer. Voltemos três hinos e veremos sua singularidade: “O pino de meio-dia/A luz do resplendor/Eu devo cantar/A meu pai Criador” (27: 2). A “luz do resplendor” – a luz do Sol material e espiritual – é a Luz da Glória de Deus (Kavod) que se manifestou a Ezequiel,  Paulo (“por volta do meio-dia”) e Mestre Irineu e que é apresentada, justamente, na díade de hinos que abrem seu evangelho revolucionário: “Devo amar aquela luz/O Divino aonde está/Para ser um filho seu/No coração eu devo amar/No coração eu devo amar a luz…”.

O hino antecessor, em seu epílogo, especifica quem é o Divino: “Trilhar esse caminho/Toda hora e todo dia/O Divino está no céu/Jesus filho de Maria” (29: 4). A Luz da Glória se manifesta em Jesus, ou como o pensamento paulino revela: “Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu, pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da Glória” (1 Cor 2: 8). Chamar Jesus de Senhor naquele contexto, declarando-o como “imagem do Deus invisível” (Cl 1: 15), vindo de um judeu fariseu (At 23: 6), era algo que beirava o imoral e o insano, pois como explica o Dicionário Teológico O Deus Cristão (1988), p. 479: “(…) Trata-se de uma aplicação a Jesus Cristo do nome divino de Iahweh, traduzido por Kyrios nos LXX” – LXX é a Septuaginta, a tradução grega da Bíblia Hebraica. Por isso, segundo uma das maiores autoridades contemporâneas na obra paulina, James D. Dunn, “(…) Os judeus que tomavam algum conhecimento de Paulo não tem dúvida de ele foi um apóstata – um traidor da Torá, um apóstata de Israel” (DUNN, 2017: 170). Acusado de apóstata e de ter perdido a sanidade mental, ao que Paulo respondeu: “Somos loucos por causa de Cristo” (1 Cor 4: 10).

E a “mudança de governo” (“a Lei é Jesus”), segundo a teologia paulina, está declarada na Epístola aos Romanos: “Porque a finalidade da Lei é Cristo para a justificação de todo o que crê” (Rm 10: 4), pois “(…) A Lei se tornou nosso pedagogo até Cristo, para que fossemos justificados pela fé. (…) Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3: 24-28), visto que a Lei de Cristo é o amor, tradução J.F.A.: “Pois em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum. O que importa é a fé que opera pelo amor” (Gl 5: 6). Para esse versículo, a Bíblia de Jerusalém substitui “amor” por “caridade”, ou como Paulo declara no último capítulo da Epístola: “Carregai o peso um dos outros e assim cumprireis a Lei de Cristo. Se alguém pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana a si mesmo” (Gl 6: 2-3). Sintetiza James D. Dunn: “(…) Em nenhum outro lugar a linha de continuidade e influência de Jesus a Paulo é tão clara quanto no mandamento do amor” (DUNN, 2017: 151).

Por essa razão, Jesus priorizou os dois primeiros mandamentos, “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e todo o teu espírito” (Mt 22: 37) e “Amarás o teu próximo com a ti mesmo” (Mt 22: 39), pois segundo o Evangelho de Mateus: “Desses dois mandamentos dependem toda Lei e os profetas” (Mt 22: 40). O que justifica a resposta de Mestre Irineu ao seu discípulo João Rodrigues Facundes (“seu Nica”): “Da Bíblia eu tirei dois mandamentos: para nós amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Diz tudo, se a gente fizer isso aí, está entregue a ela toda”. E conclui, declarando uma verdade: (…) O meu Cruzeiro está cortando a Bíblia de fio a pavio, comparem” (MOREIRA & MACRAE, 2011: 374).

E essa primazia dos dois primeiros mandamentos está subscrita n’ O Cruzeiro em dois momentos cruciais: primeiro, no prólogo, em que o hino 29, Sol, Lua, Estrela convida ao amor único a Deus, criador dos astros que titulam o hino: “É só a quem eu devo/Trago sempre na lembrança/É Deus que está no céu/Aonde está minha esperança” (29: 2), e a testificar a mística na esfera ética, no hino seguinte (30), Devo Amar Aquela Luz: “A Virgem Mãe foi quem me deu/Para ensinar os meus irmãos/Para ser um filho seu/Para ser um filho seu de amor”. Segundo, na suma teológica denominada Hinos Novos, no qual a principalidade do primeiro e do segundo mandamentos é ratificada nos dois primeiros hinos: Dou Viva A Deus Nas Alturas (117) e Todos Querem Ser Irmãos (118), pois sem lealdade ao próximo não há fé em Deus, só fingimento.

Para fazermos a transição das “antigas revoluções” que “mudaram o governo” na Palestina de Jesus, para as “novas revoluções” que “mudaram o governo” no país com o maior número absoluto de católicos do mundo, vamos ao Livro dos Salmos e a Epístola aos Hebreus. O salmo 110: 4 atribuído ao Rei Davi e que, segundo a Bíblia de Jerusalém, diz respeito ao “sacerdócio do Messias”, proclama: “Iahweh jurou e jamais desmentirá: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec””. A seguir, observamos o desdobramento dessa profecia – aplicada a Jesus – no capítulo 7 da Epístola aos Hebreus, que, por questão de espaço (sugiro a leitura), resumo:

“Mudado o sacerdócio, necessariamente se muda também a Lei. (…) Mais claro ainda se torna isto quando se constitui outro sacerdote, semelhante a Melquisedec, não segundo a regra de prescrição carnal, mas de acordo com o poder de vida imperecível. Pois diz o testemunho: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de MelquisedecEstá introduzida uma esperança melhor, pela qual nos aproximamos de Deus. Isto não se realiza sem juramento. (…) A palavra do juramento, porém, posterior à Lei, estabeleceu o Filho, tornado perfeito para sempre. (Itálico do autor da epístola; grifos meus)” (Hb 7: 12-28).

Melquisedec trouxe pão e vinho para o então Abrão, abençoando-o (Gn 14: 18,19), o que o torna, na tradição hebraica, maior que Abraão, a ponto de Hebreus declará-lo semelhante ao Filho de Deus (Hb 7: 3). A tradição (cabalá) do pão e do vinho se manifesta no Novo Testamento, quando Jesus também os distribui a seus apóstolos, cujo simbolismo é declarado solenemente n’ O Cruzeiro: “A terra aonde estou/Ninguém acreditou/Dai-me amor, dai-me amor/Dai-me (“Daime”,) o pão do Criador” (42:1), a promessa do “vinho novo” apocalíptico cumprida (Mt 26: 29; Mc 14: 25).

Tanto o Salmo 110 quanto a Epístola aos Hebreus grafam a expressão “para sempre”, sendo que a Epístola a enfatiza, pois a repete no capitulo 7 por 4 vezes entre os versículos 17 e 28. Como Mestre Irineu é o legítimo herdeiro da cabalá do pão e do vinho que Melquisedec entregou a Abraão e Jesus replantou, em seu O Cruzeiro, a expressão “para sempre” aparece citada em 11 hinos sendo repetida 29 vezes e compõe, se não me equivoquei na contagem, as 111 citações de palavras – “eterno (a)”, “eternamente”, “eternidade” e “sempre” – , que traduzem o sentido de “eternidade” no hinário, cumprindo a profecia apocalíptica do “Evangelho Eterno” (Ap 14:6). Em razão de, segundo os comentaristas da Bíblia de Jerusalém, “sacerdócio perpétuo” ser uma das “prerrogativas do Messias” (BÍBLIA, 2002: 982).

As palavras de Hebreus soaram como mais uma heresia no meio judaico. Afirma-se uma posição secundária da Torá em relação ao sacerdócio de Jesus. Justifica-se o porquê de os cristãos priorizarem o Novo Testamento em relação a Bíblia Hebraica (“Antigo Testamento”), e Mestre Irineu não oficializar nem um nem outro na liturgia da Doutrina por ele replantada; pois, segundo a boa-nova de Germano 42, 1: “Vós sois baliza e sois baliza deste globo universal…”. Novo marco, ou nas palavras de Hebreus: “Mudado o sacerdócio, necessariamente se muda também a Lei” (Hb 7: 12). Atualizando o sistema, “(…) Está introduzida uma esperança melhor, pela qual nos aproximamos de Deus. Isto não se realiza sem juramento” (Hb 7: 19)! Juramidã e as “novas revoluções”.

 

10. 3 – A “MUDANÇA DE GOVERNO” E AS “NOVAS REVOLUÇÕES” DO CHEFE ESTRANGEIRO E SEUS COMPANHEIROS (OS ESTRANGEIROS)

 

“Este Rei que aqui está/Que o divino Pai mandou/Ele veio para este mundo/Para ser o dominador” (O Amor Divino, 39: 1);

“Mesmo assim eu dizendo/Ninguém quer acreditar/Que ele tem este poder/Deste globo governar” (O Amor Divino, 39: 2);

“Ele veio ser a baliza/Deste mundo de ilusão/Com o poder do Pai eterno/Ele traz na palma da mão” (O Amor Divino, 39: 3).

 

O Chefe Estrangeiro e seus primeiros discípulos, naturalmente adjetivados como “estrangeiros”, em muito se assemelhavam aos habitantes das terras mais férteis de Israel, a começar, justamente, pelo modo de vida: iletrados que tiravam da agricultura de subsistência e da pesca seu sustento: “A agricultura era próspera na província, especialmente na metade sul da Baixa Galileia. (…) Um entusiástico relato de Josefo mostra um vívido cenário para as parábolas de Jesus relacionadas a campos, flores silvestres, árvores e vinhedos…” (VERMES, 2006: 265). O Acre estava para o centro social, cultural, político e religioso nacional, como a Galiléia estava para a Judéia: longínquo, desprestigiado e alvo de caçoadas. Assim como os discípulos galileus de Jesus, os novos revolucionários do Daime também sofreram perseguição das autoridades constituídas, policiais e religiosas. Mestre Irineu chegou, inclusive, a ter uma arma apontada para a cabeça, ser algemado e colocado no xadrez (MOREIRA & MACRAE, 2011: 218-220). As “novas revoluções” desses “estrangeiros”, estranhos forasteiros oriundos da pátria espiritual, encarnados em missão messiânica, replantam as doutrinas do velho Chefe, professadas e fundamentadas muito antes de serem conspurcadas, séculos depois, pela Igreja de Roma. Vamos as “revoluções” que “mudaram o governo”.

 

10. 3. 1 – FUNDAMENTANDO UMA DOUTRINA CRISTA ATRAVÉS DE UM ENTEÓGENO

A revolução de Juramidã começa aqui, embora não seja nenhuma novidade o culto à divindade através dos enteógenos ao longo das eras. Para um aprofundamento, recomendo dois clássicos do psiconauta Terence Mckenna, O Retorno À Cultura Arcaica (MCKENNA, 1995) e o icônico O Alimento dos Deuses (MCKENNA, 1995). Aparentemente, o inusitado na missão de Juramidã, é fundamentar uma doutrina de culto ao Deus cristão através de um enteógeno. Digo, aparentemente, pois há estudos contemporâneos que sugerem fortemente o uso de enteógenos na Palestina de Jesus, tais como o livro do pesquisador Jan R. Irvin, The Holy Mushroom: Evidence of Mushrooms in Judeo-Christianity (IRVIN & HERER, 2008); ainda sem edição em português: O Cogumelo Sagrado: Evidências de Cogumelos no Judaísmo-Cristianismo. Há citações bíblicas de substâncias psicoativas como a mandrágora (Gn 30: 14; Ct 7: 13), e a arruda síria, Pegannum harmala (Lc 11: 42). Essa última, “(…) Quando preparada numa infusão até obter força suficiente, pode dar uma experiência alucinógena extática bastante confiável” (MCKENNA, 1995: 155). Abaixo, a capa do livro de Jan R. Irvin.

Jesus pode ter codificado o uso de algumas dessas sustâncias em quatro passagens citadas nos Evangelhos. São estudos meus e não estão publicadas em nenhum lugar. Duas das passagens, só revelarei em livro. Duas, descrevo agora, como aperitivos. A primeira, que denomino “código das criancinhas”, está no Evangelho de Marcos,  tradução J. F. Almeida: “Deixai vir a mim as criancinhas, e não as impeçais, pois das tais é o Reino de Deus” (Mc 10: 14). Marcos é designado, pelo prof. de Oxford, Andrew Welburn, como o “Evangelho das epifanias secretas” (WELBURN, 1991: 19). O leitor comum julga que os Evangelhos reproduzem ipsis litteris as palavras de Jesus no contexto em que elas foram ditas. Nem sempre!

Algumas passagens são narrativas, cujo enredos encerram os códigos, que nem mesmo quem compôs a história poderia estar ciente, por não se tratar de uma testemunha ocular. É o caso de Marcos – que serviu de base para o autor de Mateus e Lucas -, e escreveu seu Evangelho aproximadamente 40 anos após a morte de Jesus. Segundo o Dr. Raymond Brown, em seu Introdução ao Novo Testamento, acerca da autoria do Evangelho marcano: “Alguém que falava grego, não foi testemunha ocular do ministério de Jesus e faz afirmações inexatas acerca da geografia palestinense. Serviu-se de tradições pré-moldadas sobre Jesus…” (BROWN, 2012: 206).

Bart D. Ehrman, Ph. D. em Teologia e o mais afamado especialista contemporâneo em crítica textual bíblica neotestamentária, em seu best-seller O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?, demonstra, através de numerosas evidências, como os Evangelhos foram sendo alterados pelos copistas. No caso do Evangelho de Marcos, no Índice, temos as Alterações apologéticas no texto e Mudanças intencionais dos copistas (EHRMAN, 2006: 240-241). Em sua obra, Ehrman cita o estudo hercúleo do teólogo John Mill (1645-1707), que após trinta anos de trabalho analisando as glosas de cerca de cem manuscritos gregos do Novo Testamento e inúmeras citações dos Padres da Igreja sobre esses textos, isolou cerca de “(…) Trinta mil lugares onde manuscritos diversos, citações patrísticas (= dos Padres da Igreja) e versões liam de modo diferente passagens do Novo Testamento” (p. 95).

Faço essas observações, porque a perícope completa do enredo no qual a história das criancinhas está embutida, é composta por quatro versículos ( Mc 10: 13-16) que encerram o código “Deixai vir a mim as criancinhas, e não as impeçais, pois das tais é o Reino de Deus”, e cuja leitura ordinária seguramente faz acreditar que Jesus estava a falar de crianças humanas. Será? A partir do que Jesus – o histórico e não o que já nasceu Deus –  pode ter percebido “as criancinhas” como “donas” do transcendente Reino dos Céus? Através do mencionado O Alimento dos Deuses, vamos à mestra mexicana dos cogumelos sagrados, a índia xamã Maria Sabina (1894-1985): “(…) Em toda a sua área de ocorrência na Mesoamérica os cogumelos psicoativos são vistos como crianças pequenas – los niños, “os queridos menininhos doces”, como os chamava Maria Sabina, a xamã dos cogumelos em Huautla de Jiménez. Esse é um exemplo do tema das crianças alquímicas, os habitantes élficos de algum continuum mágico que está perto, acessível através da psilocibina”. (MCKENNA, 1995: 172). Abaixo, uma representação da xamã Maria Sabina.

Na ceia pascoal, Jesus partiu o “pão” (o “pão do céu” de Ex 16,4?) e disse que era seu corpo (Mc 14:22). Como os astecas, na região central do atual México, chamavam o Cogumelo Sagrado? Teonanacatl ou “Carne dos Deuses”. Albert Hofmann, o cientista suíço que sintetizou o LSD, publicou em sua célebre obra LSD: Minha Criança Problema, no subtítulo O Cogumelo Sagrado Teonanacatl, os seguintes achados: “(…) Os escritos de um frei chamado Diego Durán descrevem a liturgia de um desses rituais (século XVI):  ‘(…) Depois da meia-noite, Juan Chichiton, que era o sacerdote para aquele ritual solene para todos os presentes na “fiesta”, deu os cogumelos para comer e depois, à maneira de uma Comunhão, lhes deu pulque para beber…’” (HOFMANN, 1980: 122) – o pulque é uma bebida alcoólica obtida a partir de plantas do gênero agave.

O Ph.D. em antropologia, o professor John A. Rush, empreendeu em 2001 uma viagem de estudos a catedrais europeias. Juntamente a sua esposa, encontrou um mosaico revelador no mais famoso monumento de Veneza, a Basílica de São Marcos. Olhando com os olhos dos investigador, Rush percebeu claramente a representação de Jesus rodeado de Cogumelos. A imagem do mosaico está na capa de seu livro lançado em 2008, intitulado Failed God (“Deus Fracassado”). Eis a capa:

Ao lado do livro de Jan R. Irwin, citado acima, essa é uma outra obra disponível sobre o assunto. Entre as páginas 283 e 292, o autor detalha os mosaicos reveladores e pergunta: “Por que cogumelos? Por que não figo ou maçãs? Por que não feijões ou batatas? São cogumelos porque são o sacramento, ou pelo menos parte do sacramento, o Corpo de Cristo” (RUSH, 2008: 286). A atual Basílica de São Marcos foi construída entre 1071 e 1617. A arte era uma forma de registrar códigos ou mensagens explícitas sobre as doutrinas heréticas perseguidas pela Igreja. Um exemplo são as cartas do Tarô, que circulavam na Idade Média. Outro, são as pinturas de artistas renomados e iniciados. A mais famosa é a Última Ceia do genial Leonardo Da Vinci (1452- 1519).

Tornando ao livro de Albert Hofmann, chama a atenção um detalhe sobre a preparação para o ritual da “santa ceia” dos Cogumelos entre os astecas: “A veneração dos índios se mostra também no fato de que creem que só uma pessoa “pura” pode comer os cogumelos sagrados sem prejuízo. “Puro” significa aqui pureza para a cerimônia, a qual inclui a abstinência sexual pelo menos cinco dias antes e cinco dias depois da cerimônia. Também há que se cumprir determinadas normas durante a colheita. Se não se observa, os cogumelos podem causar loucura e até matar quem os ingira” (HOFMANN, 1980:126). Moisés também exigiu de seus discípulos o resguardo sexual por três dias para que Iahweh (Deus) se manifestasse a eles, “descendo aos olhos de todo o povo” (Ex 19: 10-11). Se minha interpretação parece forçada ou sem cabimento, vou movimentar mais uma peça no tabuleiro: o segundo código, que denomino “código Baalzebub”, também presente em Marcos: Vamos à perícope (Mc 3: 20-22), tradução B. Jerusalém:

“E voltou [Jesus] para casa [Cafarnaum]. E de novo a multidão se apinhou, de tal modo que eles não podiam se alimentar (v. 20). E quando os seus [parentes] tomaram conhecimento disso, saíram para detê-lo, porque diziam: “Enlouqueceu!” (v. 21). E os escribas que haviam descido de Jerusalém diziam: “Está possuído por Beelzebu” …” (v. 22.).

Segundo a exegese de Raymond Brown, “A objeção dos familiares – “[Ele] enlouqueceu” – é paralela à dos escribas – “Está possuído por Beelzebu”. Uma que expressa incompreensão radical e outra, descrença antagônica” (BROWN, 2012: 210-211). Muito importante a informação vindoura no que diz respeito ao “paralelismo” descrito por Brown entre “Ele enlouqueceu” e “Está possuído por Beelzebu”. Essa é uma característica literária marcana, segundo os especialistas Marcus J. Borg e J. D. Crossan: “O Evangelho de Marcos costuma conter pares de incidentes que se destinam a ser interpretados um à luz do outro. Na sequência narrativa eles vibram juntos, cada um refletindo significados no outro” (BORG & CROSSAN, 2006: 54). Concluímos que o “paralelismo” é intencional; ou seja, o autor deseja transmitir uma mensagem! Mas o que significa Beelzebu ou na grafia que prefiro, Baalzebub?

“Como salientamos atrás, Baal era um deus cananeu. O seu nome traduz-se por Senhor. Zebub, em hebraico, significa um inseto zumbidor em movimento, geralmente identificado com uma mosca. As pessoas traduzem Baalzebub por “Senhor das Moscas”. (…) Parece que os opositores judeus de Jesus o acusavam de estar associado a moscas, escuridão e estrumes” (JACOBOVIC & WILSON, 2015: 149-150). Os comentaristas da Bíblia Tradução Ecumênica fornecem uma pista esclarecedora: “A origem deste nome é discutida: Beelzebub, deus de Eqron (cf. 2Rs 1,2) ou senhor (Baal) do esterco (palavra esta que designa o culto aos ídolos), ou, então, Baal das moscas” (BÍBLIA, 2015: 1885). Por que uma entidade, espírito, daimon, receberia o título de “Senhor do Esterco” e ainda teria um culto associado a ela? O esterco do gado, como sabemos, é o substrato favorito para o crescimento dos cogumelos psicoativos. A presença de gado na Galileia é mencionada pelo historiador Michael Haag, valendo-se do testemunho escrito do historiador judeu do primeiro século, Flávio Josefo, que foi governador militar da Galileia: “Toda a área é excelente para o plantio e gado e rica em florestas [que os romanos dizimaram!] de todos os tipos, de modo que por sua adaptabilidade convida mesmo aqueles menos inclinados a trabalhar na terra” (HAAG, 2018: 43).

O que a princípio julga-se absurdo e altamente herético pode estar encerrado em uma tradição oculta codificada – “Deixai vir a mim as criancinhas…”; “Senhor do Esterco (das Moscas)”. John M. Allegro, em seu O Mito Cristão e os Manuscritos do Mar Morto, revela que há correlação entre palavras de Jesus e os ensinamentos essênios, os “curadores da Palestina”. O autor, arqueólogo e um dos desbravadores autorizados dos Manuscritos, afirma a existência de “práticas ocultas” e “conhecimentos secretos” cuja “(…) Transmissão estava estritamente limitada à via oral e era protegida da traição por terríveis juramentos” (ALLEGRO, 1979: 205). Retornemos ao pesquisador Jan R. Irvin e seu luminar livro sobre os cogumelos psicoativos no judaísmo-cristianismo. Baseado nos trabalhos do etnobotânico Rami Sajdi e do professor israelense de psicologia Benny Shanon, conjectura “A possibilidade de que análogos da Ayahuasca a base de DMT foram usados por judeus e beduínos do antigo deserto da palestina, incluindo os essênios em Qumran” (IRVIN & HERER, 2008: 68).

David Flusser, em seu premiado O Judaísmo e As Origens do Cristianismo, amplia o tema: “Os Manuscritos do Mar Morto demonstram que os essênios empregavam a denominação “os filhos da luz” como a sua autodesignação favorita” (FLUSSER, 2000: 174). Muitos séculos antes, na Índia, “Os ‘videntes-poetas’ do período védico inicial eram recompensados com belas visões, ao realizarem seus rituais. Viam-se a si mesmos como “Filhos da Luz”… Redigiram os hinos védicos em estado alterado de consciência. Eles bebiam uma substância enteógena chamada Soma…” (KALYAMA, 2003: 54). Um dos principais candidatos ao Soma é o cogumelo psicoativo (WASSON et al., 1986: 78-79). Jesus transmite no Evangelho de João, 12: 36: “Enquanto tende luz, crede na luz, para vos tornardes filhos da luz. Após ter dito isso, Jesus retirou-se e se ocultou deles”. Ocultou, porque dirigindo-se aos discípulos, sentado na beira do mar da Galileia, esclareceu: “Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não” (Mt 13: 1; 11). Mais uma correspondência aos essênios, que exigiam “(…) Rigorosa descrição quanto aos estranhos, a fim de não divulgar as doutrinas secretas a pessoa alguma…” (GINSBURG, 1993: 18).

Baseando-se no testemunho do renomado filósofo e escritor judeu-helenista do primeiro século, Fílon de Alexandria, John M. Allegro anota que os essênios “Dedicavam-se a arte de curar, melhor que nas cidades vulgares onde apenas se cura o corpo; eles tratam igualmente as almas oprimidas por angustias e doenças quase intoleráveis” (ALLEGRO, 1979: 100). E é ancorado na tradição essênia de cura, que o Apocalipse de João profetiza, em código, tradução Bíblia de Jerusalém, sobre “árvores da vida” cujas “(…) Folhas servem para curar as nações” (Ap 22: 2). Segundo Allegro, p. 55, “(…) Os essênios não foram os únicos a considerar as árvores da visão como homens em geral, e eles próprios em particular”. Essa tradição foi herdada por João Batista, “(…) Toda árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” (Mt 3: 10), e transmitida a Jesus, “(…) Toda árvore boa dá bons frutos, mas a árvore má dá frutos ruins… É pelos seus frutos, portanto que os reconhecereis [os falsos profetas]” (Mt 7: 15-20), e replantada pelo Chefe Estrangeiro: “Laranjeira, carregada de laranjas boas, assim é alguma pessoa” (60: 2, 4)!

Assim, cumpre-se mais uma profecia apocalíptica através do cipó, da folha e da água que produzem o Daime, vinho sacramental, medicinal e transcendental disponível para “curar as nações” (Ap 22: 2). Concluo que, ao “replantar” as doutrinas de Jesus (hino 89), Mestre Irineu não só as ensina, como igualmente as compreende através de um sacramento enteógeno. Acredita quem quer e dá fé quem pode.

A seguir, vamos às “revoluções” éticas, litúrgicas e teológicas de Juramidã. Enfatizo que estamos falando de revoluções que mudaram o governo! Subversão da ordem estabelecida, queda de regime, mudança de paradigmas, derrocada de ídolos e ícones. São rupturas que podem, inclusive, provocar resistência reacionária dentro do próprio Daime. É preciso conhecimento para se libertar da verdade dos outros e pagar o preço de desafiar o status quo. Vinho novo em odres novos pressupõe renovação de conceitos e valores e não retrocessos travestidos de vanguarda.

 

10. 3. 2 – SUBSTITUINDO O PARADIGMA “IGREJA” POR “CENTRO”

Em relação ao nome da instituição fundada por Mestre Irineu, segundo o saudoso Francisco Granjeiro, a primeira denominação foi Centro Livre (CARIOCA, 2000: 63). Depois, Centro Rainha da Floresta e, em 1963, ao filiar-se ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP), o nome passou a ser Centro de Irradiação Mental Tattwa Luz Divina. Após a desvinculação do CECP ao final da década de 1960, estabeleceu-se definitivamente como Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, cuja ata de constituição foi registrada em 7 de janeiro de 1971 (MOREIRA & MACRAE, 2011: 297, 302, 371). Inclusive, segundo depoimento de Percília Matos ao autor principal, as iniciais CRF, que as mulheres estampam no bolso de suas fardas azuis até os dias atuais, significam originalmente Centro Rainha da Floresta (p. 325).

Em que pese a inegável influência católica presente na vida de Mestre Irineu, que testemunhou a devoção ao Terço por sua mãe e incorporou o culto à Virgem Maria e São José como exemplos – embora ele faça a distinção entre a divindade espiritual e sua personificação Maria, a esposa de José (hino 36: 4) -, não se tem notícia de que alguma vez tenha pensado e muito menos declarado sua organização religiosa como “igreja”. O bojo de sua prática espiritual foi marginal a esse paradigma, como cabia a um revolucionário forasteiro. Começando por sua primeira experiência com Ayahuasca, que se deu junto a “caboclos” em terras peruanas em um seringal limítrofe e, em cujo culto, invocava-se o “demônio”.

Na segunda metade da década de 1910, em Brasília (hoje Brasileia, Ac), à época distrito de Xapuri, foi cofundador das sessões do Círculo de Regeneração e Fé (CRF), entidade espírita-esotérica cujo presidente era Antônio Costa, conterrâneo que o apresentou à ancestral bebida. Segundo o tratado biográfico Eu Venho de Longe, as reuniões tinham a presença de muitos negros, incluindo maranhenses, que sofriam constante perseguição policial movida contra a “feitiçaria”, “(…) Possivelmente por ser visto pelas autoridades como uma agremiação de negros curandeiros, usuários de ‘substâncias venenosas’”; “Termo usado na época para o que hoje seria denominado ‘drogas’ [nota 75]” (MOREIRA & MACRAE, 2011: 103-112).

Em Rio Branco, onde oficialmente abriu a primeira sessão de Daime em 26 de maio de 1930, Mestre Irineu ampliou seu horizonte esotérico – nada ortodoxo comparado ao status quo católico, que dominava a religiosidade brasileira e acreana – ao se afeiçoar à literatura do CECP, através das revistas que chegaram às suas mãos, primeiramente, através de seu discípulo e barbeiro Daniel Pereira de Matos, que viria a ser o fundador da linha coirmã “Barquinha” (MOREIRA & MACRAE, 2011: 294). Entre 1954 e 1955, Mestre Irineu sofre um grave acidente ao cortar um cipó para limpar um pé de paxiúba. O machado resvalou e atingiu em cheio os dedos do pé direito, cortando nervos e expondo o osso (pp. 249-250). Segundo depoimento de seu filho adotivo, Paulo Serra, colhido por Paulo Moreira, “Ele passou seis meses lendo livros”, que incluíram as revistas do CECP (p. 250).

Aprovando e elogiando tais revistas, baseadas nos ensinamentos de ases da espiritualidade esotérica-ocultista, como Swami Vivekananda e Madame Blavatsky, além de astrologia, numerologia, budismo e cabalá, em 1963, como mencionado, filiou seu Centro ao CECP. No período, Mestre Irineu recomendou a vários discípulos que se filiassem a tal ordem esotérica, como de fato o fizeram ilustres da história daimista, como Leôncio Gomes da Silva, Francisco Granjeiro Filho e a própria zeladora d’O Cruzeiro, Percília Mattos, dentre outros (p. 296). Segundo os autores (p. 298), Mestre Irineu também se filiou à Ordem Rosacruz de onde recebeu um diploma de Honra ao Mérito (CARIOCA, 2000: 60). O título de “Imperador” que lhe é atribuído no estatuto original do CICLU (p. 18), muito provavelmente espelha-se no Imperator rosacruz, o líder mundial da Ordem (EVOLA, 1978: 231). Helena Blavatsky, fundadora da teosofia, e Rudolf Steiner, fundador da antroposofia, “falavam de uma “tradição de sabedoria” esotérica que retrocedia através dos rosacruzes até os cátaros e os templários – que seriam repositórios de segredos ainda mais antigos” (BAIGENT, LEIGH E LINCOLN, 1982: 81).

É na antiquíssima obra Parsifal, do templário Wolfram von Eschenbach (1170-1220), que está encerrado o “mito medieval do Imperador”, protagonizado pelo Herói do Graal, Parsifal, que encarna o “herói restaurador” e “Messias Imperial”, a quem a despeito do papado, cabia verdadeiramente “O papel esotérico de grande mediador entre a ordem cósmica e terrena” (SCHMIDT PATIER, 2015: 24). Segundo o filósofo Julius Evola, esse Imperador age em um “Centro”, o “Meio do Mundo” (Evola, 1978: 61, 233-234). Estamos diante de um evidente esoterismo, do grego esoteros, “mais íntimo”, daí “centro”. O oposto de “igreja”, que segundo o Comentário Bíblico Adventista, (2013), vol. 5., p. 473, vem do grego ekklesia, “chamar para fora”. Na verdade, o nome “igreja” nem mesmo pertence ao contexto social e religioso de Jesus, pois ekklesia é uma palavra e conceito grego, a língua original dos Evangelhos. Destarte, o prof. David Stern em seu Novo Testamento Judaico, utilizando o método de tradução denominado “equivalência dinâmica”, que reproduz na língua receptora o significado compreendido pelos leitores originais, substitui em Mateus 16: 18, “igreja” por “comunidade” (STERN, 2008: 18).

Nesses estudos esotéricos, Mestre Irineu encontrou respaldo, por exemplo, para replantar a doutrina da reencarnação (hino 74), ainda hoje rechaçada pela Igreja romana. Usa, claramente, n’ O Cruzeiro, a numerologia cabalística, por exemplo as “132 flores” (hino 52) e números que titulam seus hinos, como o 11, Unaqui (veremos à frente), além de codificar a Árvore da Vida da Cabalá na díade composta pelos hinos 9 e 10, como espero ter demonstrado no artigo que publiquei neste site (ver link ao final do texto). Também utiliza termos pertinentes ao cristianismo gnóstico, como na expressão “sou dono da riqueza” (hino 40), em que “A palavra riqueza está ligada à aquisição e posse de conhecimento (gnôsis)…” (BOBERG, 2011: 206). Naturalmente, então, o Chefe torna a Sophia gnóstica rediviva em Soloína, a carta “sacerdotisa” do tarô: “É nessa estrada que se ensina” (63: 2). Haroldo Dutra Dias complementa: “A literatura sapiencial e do judaísmo helenístico, ensaiou essa personificação ao tratar da Sabedoria/Palavra como sendo uma personagem poética dotada de autonomia, uma espécie de mensageira e conselheira de Deus, com encargos específicos na obra divina” (NOVO TESTAMENTO, 2010:391).

Mas essas “heresias”, que a Igreja romana sempre combateu e perseguiu, ainda não são o âmago das “revoluções” do Chefe Estrangeiro. Ao se apartar do paradigma “igreja”, o Imperador Juramidã se afasta automática e providencialmente do clericalismo, culto à personalidade, proselitismo, mitomania, dogmatismo cego, profissionalização do sacerdócio e comércio da fé – o Centro é livre! No hino Todos Querem Ser Irmãos, Mestre Irineu afirma a natureza espírita de sua doutrina: “Todos querem ser irmãos/Mas não tem a lealdade/Para seguir a vida espírita, que é o reino da verdade” (118: 1). A palavra “espírita”, que deriva de “espiritismo”, não teria o alcance que tem hoje não fosse o trabalho corajoso e inovador do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), conhecido pelo pseudônimo Allan Kardec. Kardec, que nunca se intitulou “mestre” e, consciente de suas imperfeições – incluindo algumas passagens racistas fruto do eurocentrismo do séc. XIX -, assumiu que estava em evolução, sendo mais um revolucionário perseguido e agredido pela “santa” Igreja, que chegou a queimar seus livros em praça pública em outubro de 1861, em Barcelona, taxando seu conteúdo como “imorais e contrários a fé católica” (MAIOR, 2014: 188-189).

O jornalista Marcel Souto Maior, autor do best-seller As Vidas de Chico Xavier, no qual relata a experiência do médium, desdobrado no astral,  com uma bebida psicoativa de cor branca (2ª ed., pp. 142-143), em seu não menos competente Kardec, A Biografia, relata que o codificador do espiritismo, em 1868, 22 anos antes do Chefe ressurgir, tornou pública uma mensagem atribuída a São José, a qual anunciava a iminência da chegada de “um novo messias à Terra”, declarando ao final: “Glória ao espiritismo que o precede (a chegada do Messias) e que vem esclarecer todos as coisas!” (MAIOR, 2014: 326).

Assim, além do elo “vida espírita”, existem outros vínculos cruciais entre a doutrina sistematizada por Kardec e Mestre Irineu, que nunca denominaram suas doutrinas de “religião” – igrejas vivem de religião e não raramente a transformam em modo de vida. Essa é outra tradição judaica replantada por Mestre Irineu. Segundo o prof. Severino Celestino da Silva: “Na língua hebraica não há uma palavra para ‘religião’: ‘Dat’ significa ‘Conhecimento’, daí a confusão no uso. ‘Dati’ é “aquele que conhece”, por isso, que pratica. (…) A palavra ‘religião’ provém do latim re-ligare, que quer dizer ‘voltar a ligar aquilo que foi desconectado’. (…) Para o judaísmo a Criação está permanentemente unida a Deus. Do contrário, não existiria” (SILVA: 2014: 29). Na introdução da primeira obra de seu pentateuco, O Livro dos Espíritos, lançado em 1857, a doutrina kardecista é chamada de “ciência”, “ciência espírita” (KARDEC, 1985: 47). Em uma cartilha lançada em julho de 1859, Kardec a define como “(…) Uma ciência de observação e uma doutrina filosófica” (MAIOR, 2014: 145). Mestre Irineu corrobora: “O saber de todo mundo/ É um saber universal/Aqui tem muita ciência/Que é preciso se estudar” (102: 2).

Outros dois elos fundamentais e determinantes para o caráter espírita do Centro fundado por Mestre Irineu, são duas cláusulas pétreas de sua doutrina: “Não oferecer, nem ganhar dinheiro”. Em outras palavras: proselitismo e comércio da fé. Na Revista Espírita (edição de 1861), parte de sua sobrenatural produção literária, Kardec é taxativo: “(…) Diremos que o que têm a fazer se limita a falar abertamente do Espiritismo, sem afetação, como de uma coisa muito simples e muito natural, sem a pregar e, sobretudo, sem buscar nem forçar convicções, nem fazer prosélitos a todo custo” (KARDEC, 2018: 421).

Quanto ao nefasto comércio da fé, a terceira obra do pentateuco, O Evangelho Segundo o Espiritismo, lançada em 1864, no capítulo XXVI, subtítulo Dai de Graça o Que de Graça Recebeste, comentando Mateus 10: 8, em que Jesus instrui os apóstolos a curar os enfermos e a exorcizar demônios sem nada cobrar, quando diz “De graça recebestes, de graça dai.”: “Por tal preceito prescreve não aceitar pagamento por aquilo que não se pagou. (…) Esse dom lhes tinha sido dado gratuitamente por Deus, para que aliviassem os que sofriam, e para ajudar a propagação da fé; e lhes diz que não o transformem em artigo de comércio, ou de especulação, nem em meio de vida” (KARDEC, 1985: 677). Retornando a Francisco Cândido Xavier, que em sua assombrosa produção literária, à qual renunciou – em documento assinado em cartório – cada centavo em prol da caridade, especificamente no livro O Consolador, registra a palavra de Emmanuel: “A remuneração financeira, no trato das questões profundas da alma, estabelece um comércio criminoso, do qual o médium deverá esperar no futuro os resgates mais dolorosos” (EMMANUEL, 2017: 258).

Como estamos a tributar Maria Marques, o que ela proclama na estrofe seguinte àquela que anuncia “que ninguém não tem bandeira” e que “todos devem esperar pelo Chefe Estrangeiro” (46: 8)? “Eu dou corda para todos/Para ferrar no anzol” (46: 9). Por que “anzol”? Pela curva que ele faz – lei do retorno! Lei da causa e efeito. A justiça do Mestre não é arbitrária, há uma jurisprudência divina e um rito de aplicação: “Dou licença e dou pancada”. A “licença” é a garantia inviolável do livre-arbítrio. E a “pancada” é quando o livre-arbítrio dissona da Lei divina, ou como diz o ícone cabalista O Zohar: “Quando os pecados do homem são grandes, Deus deixa o Trono de Misericórdia e senta-Se no Trono de Rigor” (BENSION, 2006: 90). É preciso respeitar a ética do Chefe, nas coisas do Daime em si, e no trato com os irmãos, pois a “corda” pode ser puxada só no desencarne, como me confidenciou Luiz Mendes do Nascimento, quando passamos hino a hino O Assessor de Francisco Fernando Filho, o Tetéu: “Meus irmãos/Fiz uma viagem/Fui ao palácio da intendência/Eu vi gente encarcerada/Por falta de obediência” (59: 1). Qualquer dia conto os detalhes dessa história.

 

10. 3. 3 – A NÃO INCLUSÃO DA BÍBLIA NA LITURGIA DO DAIME

Igrejas cristãs não vivem sem Bíblia. Centros espíritas, sim. Em seu Centro, Juramidã, providencialmente, não a introduziu na oficialidade litúrgica do Daime. Acima, mencionei o depoimento de João R. Facundes (seu Nica) a respeito do que Mestre Irineu disse, ligeiramente, sobre o uso da Bíblia. Dizer que o Mestre sabia o que estava fazendo é desnecessário. Resta-nos fundamentar. Convido à leitura da “Apresentação” deste site, disponível no Menu, para um aprofundamento. Se é certo que a Bíblia possui verdades atemporais, também possui “verdades” contemporâneas a seus escribas; portanto, é um documento desatualizado. Nas palavras de J. D. Crossan e sua reconhecida expertise nos Evangelhos: “Não são história, embora contenham história. Não são biografia, embora contenham biografia. São evangelho – isto é, boa nova. Boa indica que a nova é boa do ponto de vista de alguém…”. E esclarece: “(…) Nova indica que uma atualização periódica está envolvida. Indica que Jesus é constantemente transformado para novos tempos e lugares, situações e problemas, autores e comunidades”. E arremata afirmando sobre “(…) A liberdade soberana com a qual os evangelistas adotaram e adaptaram, acrescentaram e omitiram, mudaram e criaram, as palavras e feitos do próprio Jesus” (CROSSAN, 2004: 61).

Mestre Irineu nos imuniza contra um epidemia contemporânea altamente perniciosa: a bibliolatria, a veneração da Bíblia como verdade em termos absolutos, o que estimula o fundamentalismo e arrefece o bom senso humanista. O Novo Testamento, por exemplo, que já não inova em nada, é sexista (1 Cor 14, 34-35), homofóbico (Rm 1, 26-27), fundamentalista (Gl 1: 8-9), escravocrata (Cl 3, 22) e imperialista (Rm 13, 1-7). Ao promover uma “filtragem” da Bíblia, Mestre Irineu lega uma grandiosa herança a seus discípulos: livrá-los do grilhão bibliolátrico sem renunciar à quinta-essência sapiencial que o célebre livro possui, replantando-a, primordialmente, através do Pentateuco Daimista, a pedra fundamental do Novíssimo Testamento: O Cruzeiro, Vós Sois Baliza, O Amor Divino, 6 de Janeiro e O Mensageiro. O principal nome da heterodoxia daimista, Sebastião Mota de Melo, testemunha em seu O Justiceiro: “No pé de um cruzeiro/Cinco livros estavam abertos/Meu Jesus estava na cruz/Ó meu Divino Pai Eterno” (111: 4). Destrinchando a simbologia: “No pé” (na base) “de um cruzeiro” (da cruz) esses livros estavam abertos, porque são eles que revelam o mistério onde Jesus encerra todo a sua doutrina, revisitada no replante de Juramidã.

 

10. 3. 4 – RETIRANDO O CREDO DO TERÇO DAIMISTA

A retirada do Credo do terço do Daime, por parte de Mestre Irineu, ao fundamentar sua liturgia, é uma prova cabal do quanto ele se afastou da Igreja romana e suas sagradas mistificações. Antes de ser uma oração, o Credo é a principal confissão de fé católica, ou seja, ao recitar o Credo, você confirma, através das sentenças dogmáticas que o perfazem, que é um católico e que rende obediência ao papado. E não adianta “adaptá-lo ao Daime” porque, como diz o ditado, “a emenda sai pior que o soneto”.

Vamos ao suíço Hans Küng (1928-2021), filósofo e doutor em teologia, e que foi escolhido pelo Papa João XXIII como perito e consultor para o Concílio Vaticano II (1962-1965). Posteriormente, rejeitou o dogma da infalibilidade papal, o celibato compulsório e defendeu maior participação laica e feminina na Igreja. Suas concepções o levaram a ter revogada sua licença para ensinar teologia em nome da Igreja. Em seu livro Credo, sempre muito sincero, Küng, que era padre, declara no primeiro parágrafo de sua obra: “(…) Discussões violentas travadas especialmente no seio da Igreja Católica sobre afirmações doutrinais tradicionais também despertam a atenção e mostram, para além dos muros da Igreja, quão pouco “resolvidas” estão as velhíssimas questões da profissão de fé cristã. É pública a discussão sobre a interpretação de afirmações-chave justamente do Credo tradicional, da “Profissão de Fé Apostólica” …” (KÜNG, 1992: 7). E na página 15, desmistifica o próprio nome Credo Apostólico, ao afirmar: “Não há dúvidas de que a mencionada profissão de fé não remonta aos apóstolos” (os oculares).

O Credo “Apostólico” é uma versão resumida do “(…) Credo Niceno-Constantinopolitano, assim denominado a partir dos Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381), também conhecido como “Credo Maior”…” (BÖSEN, 2015: 53). Os profs. Sincha Jacobovici e Barrie Wilson ampliam o entendimento do enredo: “Por volta de 325 d.C., o cristianismo era a religião mais seguida, e nesse ano Constantino convocou o histórico Concílio de Niceia, que emitiu o credo definidor do cristianismo, o Credo Niceno”. A partir daí, “(…) Ser cristão significava subscrever a declaração de fé criada por Constantino. (…) Os outros podiam optar por seguir o caminho de Estevão e tornarem-se mártires ou ir pela mesma via que Nicodemos e passar à clandestinidade” (JACOBOVICI & WILSON, 2015: 49). O Credo, forjado por Constantino para unificar a Igreja imperial, amordaçando e exilando quem discordasse da versão dogmática oficial, o que incluía por tabela, os gnósticos, é uma anacronia teológica (não há espaço aqui para explicar) que, providencialmente, Juramidã, o Chefe, extirpou de sua liturgia. Para que ser papagaio do Vaticano, cortejar o papado e beirar as raias do absurdo – “Creio na ressurreição da carne” -, e do patético: “Creio na santa Igreja”?

Aqui, sou obrigado, rapidamente, a voltar a Kardec. Igrejas (católicas e protestantes) tem na ressurreição da carne (corpo) um dogma inquebrantável. Centros espíritas, não! O que justifica Juramidã não ter replantado tal doutrina, igualmente a Kardec. Por isso, Kardec, logo no início de seu O Evangelho Segundo o Espiritismo, titula o capítulo IV de Sócrates e Platão, precursores da ideia cristã e do Espiritismo, e Mestre Irineu replanta em seus hinos três argumentos da doutrina da imortalidade da alma elaboradas por Sócrates e eternizadas por seu dileto discípulo Platão no clássico Fédon. Convido o leitor a acessar meu estudo (link ao final do texto): Hino 7 – Dois de Novembro (A doutrina da imortalidade da alma: de Homero a Juramidã), especificamente o subtítulo Os Argumentos da Imortalidade da Alma no Fédon e O Cruzeiro.

Publicarei em livro, detalhadamente, com amplas referências teológicas, os motivos que levaram Mestre Irineu a não replantar a doutrina farisaica da ressurreição da carne (corpo), que os gnósticos odiados pela ortodoxia baseada em Roma, chamavam provocativamente de “fé dos tolos” (PAGELS, 1995: 42). Sim, não foi uma doutrina ensinada por Jesus (por isso o Chefe não replanta!), e sim por Paulo de Tarso, que não conheceu Jesus e que, mesmo depois de sua conversão, declarou-se “(…) Sou fariseu, filho de fariseu…” (At 23: 6) e confessa distinguir-se “(…) No zelo pelas tradições paternas” (Gl 1: 14). A doutrina da ressurreição da carne é farisaica e tem base no Antigo Testamento, especialmente em Ezequiel 37: 1-10.

Se Paulo rompeu com muitas concepções judaicas tradicionais, com relação a doutrina da ressurreição do corpo, não – manteve-se fiel até o fim. Justifica-se por que a Igreja romana, totalmente influenciada por Paulo, mantém o dogma da ressurreição da carne até os dias atuais. Finalizo, mais uma vez, com o brilhantismo de J.D. Crossan – um ex-padre que não suportou a hipocrisia eclesial – em relação ao estudo da doutrina de Jesus: “(…) Digo-o como desafio: Se começar com Paulo, você vai interpretar Jesus de maneia incorreta; se começar com Jesus, vai interpretar Paulo de maneira diferente…” (CROSSAN, 2004: 28). O que Crossan afirma é baseado em uma análise da doutrina paulina como um todo. Se é verdade – como vimos – que Paulo universalizou o nome de Jesus, também é verdade que ele imprime em sua teologia suas próprias concepções. No caso da doutrina da ressurreição, Juramidã vem replantar a doutrina de Jesus antes de Paulo aparecer com a sua sistematização dogmatizante, precedente e influenciadora dos Pais da Igreja e das narrativas dos Evangelhos.

Por fim, o obsoleto Credo “Apostólico” que, enfatiza-se, não foi legado pelos apóstolos oculares, tem na palavra “creio” seu fio condutor. A crença ainda não é a fé, por isso Juramidã afirma no hino Eu Tomo Esta Bebida, que seu poder é “inacreditável” (120: 1) – ou seja, não crível! Pois o Daime não opera na faixa da crença, mas na conexão direta com a divindade, a pura fé: “Subi, subi, subi…”; “Encontrei com a Virgem Maria…”; “Encontrei com o Pai eterno e Jesus Cristo Redentor…”, “…Conforme os meus ensinos [gnose]”.

NOTA: link de como se reza o terço do Mestre ao final do texto.

 

10. 3. 5 – A CORREÇÃO (ATUALIZAÇÃO) DO PAI-NOSSO

Quem é esse homem que tem a petulância de corrigir o Pai-nosso – “Vamos nós ao vosso Reino”? Essa é uma pergunta que, naturalmente, qualquer um que não conhece Juramidã, pode fazer. Mas o Mestre sabe das coisas: “Eu sou um chefe habitado, e sei onde eu habito…” (O Mensageiro, 47: 5). O Chefe de Mateus 23, 10, através do Evangelho de Lucas, dá a conhecer que aprendeu o Pai-nosso com seu mestre João Batista quando, justamente, um de seus discípulos o interpela: “Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou a seus discípulos” (Lc 11: 1). A que o Chefe respondeu: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja teu Nome; venha o teu Reino…” (Lc 11: 2). Essa oração não era originalmente de Jesus, e sim de João – eis aqui uma chave.

João era um pregador apocalíptico radical que, segundo Mateus, no deserto da Judeia, exortava: “Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3: 1-2). Por isso, ele orava com seus discípulos a Deus: “Venha nós o vosso Reino”. Porém, quando o Espírito Santo se apodera de seu principal discípulo, Jesus, a real percepção do Reino, enfim, começa a se estabelecer, a ponto de Jesus responder – tradução João Ferreira de Almeida – com firmeza a alguns fariseus que o interpelaram a respeito da promessa: “O Reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou : Ei-lo ali! Porque o Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17: 20-21). Claro, para os fariseus que o questionaram, condicionados à doutrina apocalíptica tradicional, Jesus pareceu falar “chinês”.

Ora, se o Reino já havia “chegado”, pois estava dentro de cada um, restava encontrá-lo (despertá-lo): “Vamos nós…”. Os Evangelhos não tornam pública nenhuma atualização que Jesus possa ter feito no Pai-nosso de João, talvez porque ainda faltasse o comprimento da chegada de um “outro Reino” quando de seu segundo advento. Voltamos, uma vez mais, a promessa da última ceia mateana: ”Eu vos digo: Não beberei mais deste fruto da videira até o dia em que convosco beberei o vinho novo no Reino do meu Pai” (Mt 26: 29). Acima, revelei como o “Hinário do Chefe”, O Amor Divino, especificamente o hino 13, O General Juramidã, traz a consumação desse Reino. Assim, obviamente, não há mais a necessidade de se pedir – “Venha nós o vosso Reino” – por algo que já foi dado! Justifica-se por que Mestre atualiza (mais do que corrige) o Pai-nosso – resta-nos encontrá-lo (realizá-lo) dentro de nós.

O mesmo hino 13 de Antônio Gomes entrega o modus operandi do mistério: “Entra no Reino de Deus quem tem força divinal” (13: 1) – você tomou o Daime para receber a Força e ir ao Reino. No segundo versículo, anuncia-se que “Este Reino excelente é para todos meus irmãos”, com uma condição: “Os que forem obedientes e limpar seu coração” – sem acatamento e purificação ninguém alcança e, principalmente, permanece na Realeza. E depois que se purificar um pouquinho, cuidado para não se engrandecer, pois como diz o terceiro versículo, é preciso “se humilhar”. O Daime não oferece salvação fast-food, pois o Chefe já havia avisado: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à Vida. E poucos são os que o encontram” (Mt 7: 13-14).

 

10. 3. 6 – A NÃO INCLUSÃO DO CULTO A SÃO PEDRO NO CALENDÁRIO LITÚRGICO

A doutrina do Graal é gnóstica-madalenista e foi cultivada pelos templários e os cátaros, perseguidos, torturados e queimados vivos pela inquisição. Essa doutrina está codificada no citado clássico Parsifal, cujo herói encarna o “Messias imperial”. O prefaciador da obra, introduzindo seus segredos, observa: “Ora, sendo o batismo anterior à instituição da Igreja, o Graal já é cristão mas ignora o primado de Pedro, isto é, do Papa” (SCHMIDT PATIER, 2015: 23). E Juramidã também! Eis mais um finíssimo mistério e mais uma tremenda “revolução” que promoveram uma verdadeira “mudança de governo”.

Ao longo dos 41 anos de seu ministério (1930-1971), Mestre Irineu jamais introduziu trabalho para celebrar São Pedro. Isso não passou despercebido, e como todo pesquisador tem um DNA detetivesco, resolvi fazer uma investigação minuciosa a fim de encontrar fundamentação teológica para o fato. Faço um convite ao leitor para acompanhar o estudo e depois chegar a sua própria conclusão. Parti da premissa de que tudo que o Mestre fundamentou tem um porquê que necessita ser compreendido. Obviamente, deixando bem claro, não se trata de nenhum demérito ao apóstolo. Aliás, curiosamente, o Daime, em seu Pentateuco, não cita nenhum apóstolo de Jesus. Então o quê?

Assim como existem dois Jesuses, o histórico e o eclesial romano, existem dois Pedros: o histórico e o que foi usado pelo papado para se legitimar! Quem estuda teologia a sério e não está sob a batuta do Vaticano, sabe que Jesus não entregou a liderança de seu movimento a Pedro, que a história da “pedra da igreja” foi completamente distorcida e que as “chaves do Reino” não são prerrogativa petrina. É o que vou detalhar agora a fim de desmistificar o Pedro papal e, com isso, compreender por que a decisão de Mestre Irineu foi correta ao não conferir nenhum destaque ao apóstolo em seu replante doutrinário, como parte de seu combo de desidentificação com a Igreja romana e sua mistificada teologia.

 

A LIDERANÇA DA COMUNIDADE DE JESUS

A história mostra que a liderança do movimento de Jesus, coube a Tiago, apontado como seu irmão em Mc 6: 3 e Mt 13, 55. Em Gálatas, Paulo o identifica quando esteve em Jerusalém, três anos após a visão no caminho para Damasco: “E não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor” (Gl 1: 19). Não é em vão que, adiante, situe Tiago à frente de Pedro e João: “(…) E conhecendo a graça em mim concedida, Tiago, Cefas e João, os notáveis tidos como colunas, estenderam-nos as mãos, a mim e a Barnabé…” (Gl 2: 9). Comenta o prof. James Tabor em seu recomendado A Dinastia de Jesus, especificamente o capítulo Ide a Tiago, o Justo, no qual o leitor poderá aprofundar o estudo: “A ordem dos nomes indica uma ordem estabelecida de autoridade. O Conselho dos Doze, com Tiago à frente, governa os nazarenos…” (TABOR, 2006: 267).

O Evangelho de Tomé confirma a primazia de Tiago, em seu dito 12, traduzido pelo prof. Marvin Meyer: “Os seguidores disseram a Jesus: “Sabemos que você nos deixará. Quem será nosso líder?” Jesus lhes disse: “Não importa onde estiverem, procurarão Tiago, o Justo, em consideração de quem foram criados o céu e a terra”. Apesar da ortodoxia estabelecida em Roma ter alijado o Evangelho tomasino de seu cânon, a primazia de Tiago é confirmada por Eusébio de Cesareia, “Pai da Igreja” e “Pai da História da Igreja”. Em sua mais afamada obra, História Eclesiástica, segundo o comentarista do referido dito de Tomé, Harold Bloom, Eusébio anota: “Tiago o irmão do Mestre alcançou a liderança da Igreja com os apóstolos…” (EVANGELHO DE TOMÉ, 1993: 84).

Graças a iniciativa louvável da editora Paulus, adquiri um exemplar da obra clássica de Eusébio, datada para o início do séc. IV. No Livro Segundo, capítulo 1, testemunha a tradição histórica: “(…) Esse Tiago, a quem os antigos davam o nome de justo, devido a suas excelentes virtudes, diz-se ter sido o primeiro a ser instalado no trono episcopal da cidade de Jerusalém” (EUSÉBIO, 2000: 72). Na mesma página, Eusébio retrocede a Clemente de Alexandria (150-215 d. C.), que em uma de suas obras, também nomeia Tiago à frente: “A Tiago, o justo, a João e a Pedro o Senhor concedeu a gnose, após a sua ressurreição. Eles a transmitiram aos demais apóstolos…”. Assim sendo, por que a Igreja (a Igreja romana!) elegeu Pedro como seu líder?

Hoje, todos apóstolos são considerados santos, mas na realidade eram homens comuns que, a despeito de se martirizaram por Jesus, o que não é pouca coisa, também possuíam egos. Isso fica claro, quando discutem, estando ainda sob a liderança de Jesus, quem dentre eles seria o “maior” (Lc 9: 46; 22; 24). Após a crucificação, surge mais um grande ego para se administrar no grupo dos primeiros líderes cristãos – trata-se de Paulo de Tarso, que não conheceu Jesus. Sua personalidade senhora de si torna-se evidente na Epístola aos Gálatas, quando chama Tiago, Pedro e João de “notáveis” (2: 9), segundo tradução da B. J.: “E por parte dos que eram tidos por notáveis – o que na realidade eles fossem não me interessa; Deus não faz acepção de pessoas – de qualquer forma, os notáveis nada me acrescentaram” (Gl 2: 6). Afirmar que os apóstolos oculares nada lhe acrescentaram soa insolente, provocativo e desafiador. Paulo justifica o porquê um pouco antes: “(…) O evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o recebi nem aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo” (Gl 1: 12). Aprender por revelação sem ter conhecido Jesus implica em subjetividade e isso pode ser questionado, como foi. E Paulo não gostou.

Sua resposta foi muita dura. Quem proclamasse um evangelho diferente do dele, deveria ser amaldiçoado: “Entretanto, se alguém – ainda que nós mesmos ou um anjo do céu – vos anunciar um evangelho diferente do que vos anunciamos [Paulo e seus discípulos], seja anátema [objeto de maldição!]. Como já vo-lo dissemos, volto a dizê-lo agora: se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, seja anátema” (Gálatas 1: 8-9). Parece que o velho Saulo de alguma forma ainda vivia em Paulo. Por essas e outras, como as arengas com Pedro (Gl 2: 11) e Barnabé (At 15: 38-39; Gl 2: 13), Geza Vermes comenta: “Paulo não era um parceiro fácil, a menos que fosse o chefe” (VERMES, 2006: 79). Geza é até diplomático se comparado a verve cáustica de Friedrich Nietzsche em seu polêmico e corajoso O Anticristo: “A sua necessidade era o poder; com São Paulo o sacerdote quis ainda outra vez o poder…” (NIETZSCHE, 2005; 59).

Bem, obviamente, não demorou muito para que Paulo discordasse de Tiago. Vamos outra vez a J. D. Crossan, agora em seu tratado O Nascimento do Cristianismo: “Ele [Tiago] era o líder oficial da Igreja-mãe de Jerusalém… Era um judeu-cristão que acreditava que Jesus era o Messias, mas também seguia a Lei judaica completa” (CROSSAN, 2004: 503). Assim, Tiago ou quem escreve em nome dele, defendeu na epístola que leva seu nome: “(…) O homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tiago 2: 24). Paulo proclamou sua discordância em Rm 3: 28: “(…) O homem é justificado pela fé sem as obras da Lei”. Geza Vermes descreve – com a liberdade de ser ex-padre – as consequências da incompatibilidade: “O principal espinho na carne dos intérpretes é a diatribe [crítica severa] de Tiago contra um dos mais importantes ensinamentos de Paulo… porta-vozes eclesiásticos contemporâneos fizeram esforços vãos para minorar o problema…” (VERMES, 2006: 139).

Agora, entra em cena um ator importante nesse imbróglio: Lucas, que também não conheceu Jesus e era discípulo e amigo de Paulo (Cl 4: 14; 2 Tm 4: 11; Fm 1: 23-24). Lucas é considerado o autor dos Atos dos Apóstolos. Segundo o especialista Dr. Rinaldo Fabris em seu tratado homônimo, “(…) São considerados a história da Igreja primitiva, fundada na atividade e discursos dos protagonistas principais, Pedro e Paulo” (FABRIS, 1991: 14). Alto lá, onde está o líder deixado por Jesus? Lucas toma partido de seu mestre Paulo e escanteia Tiago. Ao analisar pormenorizadamente os Atos, o prof. James Tabor é cirúrgico: “Lucas com certeza sabia, mas não estava disposto a afirmar que Tiago assumira a liderança do movimento após a morte de Jesus. Em seus capítulos iniciais, nunca sequer menciona o nome de Tiago e escala Pedro como o líder inconteste dos seguidores de Jesus” (TABOR, 2006: 263).

O que é confirmado pelo sacerdote católico e professor de teologia Pierre Debergé: “Pedro ocupa um lugar essencial na primeira metade do livro dos Atos dos Apóstolos. Entretanto, ele não aparecerá mais após o capitulo 15, quando Paulo se torna então o ponto de referência. (…) Desde o início dos Atos dos Apóstolos, Pedro é citado em primeiro lugar na lista daqueles que se reúnem após a Ascensão (At 1: 13)…” (DEBERGÉ, 2009: 53). É fundamental mencionar a sincera observação do autor, na mesma página, quanto a fidedignidade história de Lucas que, bem acima, em citação que fiz,  também é questionada por Geza Vermes: “Apesar de parecer evidente que Lucas tenha feito uso de antigas fontes, escritas ou orais, não procuremos nos Atos dos Apóstolos a história exata das relações entre os diversos responsáveis da Igreja primitiva, mas, acima de tudo, buscaremos a maneira pela qual Lucas percebeu essas relações e como as apresentou aos cristãos para quem escrevia”. Ou seja, a história da liderança do movimento de Jesus ficou nas mãos da subjetividade e das preferências de um discípulo de terceira geração!

O mestre de Lucas é Paulo e não Pedro, a ponto de James Tabor sugerir, ironicamente: “Mais do que Atos dos Apóstolos, o livro deveria se chamar A Missão e Carreira de Paulo” (TABOR, 2006: 263).  Então, por que Lucas confere a primazia a Pedro? Em que pese o incidente de Antioquia onde Paulo espinafra Pedro por seu comportamento à mesa quando da chegada “(…) De alguns vindos da parte de Tiago” (Gl 2: 11-14), os dois tinham chegado a um acordo que é excelente para as pretensões de Paulo, considerando o prestígio de Pedro de ser o que Paulo não era: um apóstolo ocular de Jesus. Esse pacto está registrado em Gálatas 2: 7-8, perícope em que Paulo menciona a diferença de tarefas evangelizadoras entre os dois sob as bençãos, segundo ele, de Jesus, que não estava mais presente. Paulo, então, dá uma moral para Pedro ao excluir Madalena da primazia da visão da ressurreição, como eternizado na dramatização dos autores do Evangelho de João (20: 11-18). Em 1 Coríntios 15: 5-8, Paulo fornece a lista das testemunhas da ressurreição, omitindo Madalena,  situando Pedro em primeiro lugar e colocando Tiago no final da fila: “Apareceu a Cefas, e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez… Posteriormente, apareceu a Tiago…”. Lucas, em seu Evangelho, segue seu mestre, destituindo Madalena da primazia visionária, conferindo-a a Pedro (Lc 24: 34).

Porém, as maquinações editoriais não se restringem a Lucas. Estão presentes também no Evangelho atribuído a João. Atribuído? Reza o último capítulo desse Evangelho: “Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu: e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (Jo 21: 24). Sabemos? Esclarece o especialista joanino Raymond Brown: “(…) Aqueles que acreditam que o evangelho foi redigido (editado) por outra mão depois que o escritor principal o compôs situam o corpo do evangelho nos anos 90 e as adições do redator em cerca de 100-110… Possivelmente existia uma escola joanina de discípulos escritores(BROWN, 2012: 461). Brown fala em adições. Sim, esse último capítulo 21 (que citei) é uma adição tardia. Além do próprio Brown (p. 461), outro sacerdote católico, Dr. Juan Luis Segundo, em seu premiado A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré: dos sinóticos a Paulo, corrobora: “Mas também, no quarto Evangelho, o leitor se encontra com um apêndice que vem em seguida do evidente final do livro (20, 30-31): o capitulo 21, com sua informação respectiva sobre Jesus ressuscitado…” (SEGUNDO: 2011: 308).

O historiador Michael Haag subscreve, com detalhes históricos, o acréscimo tardio do capítulo 21 de João: “(…) O Pai da Igreja Tertuliano escreveu por volta de 200 d. C. e não sabia nada sobre ele: um adendo tardio que serve a Roma e ao seu propósito da sucessão apostólica por ter Jesus aparecido aos discípulos e declarado Pedro seu apóstolo líder” (HAAG, 2018: 231). Haag está a falar especificamente da perícope entre os versículos 15 e 17, em que Jesus “ressurrecto” pergunta a Pedro se ele o ama mais do que os outros discípulos, recebendo um sonoro “sim” como resposta. O que leva Jesus a ordenar três vezes: “Apascenta minha ovelhas”. Ou seja, por declarar orgulhosamente um amor maior por Jesus do que seus pares apostolares – o Pedro papal e não o histórico – recebe o encargo de reger o rebanho do Mestre. Trata-se claramente de um edição grosseira e apelativa em favor da primazia de Pedro.

Quem está por trás desse ardil editorial? Vamos nos valer, outra vez, da expertise de Raymond Brown acerca do Evangelho joanino: “Lugar da Redação: tradicional e plausivelmente na área de Éfeso…” (BROWN, 2012: 461). Geza Vermes nos ajuda a decifrar o mistério ao citar uma carta do bispo mártir Inácio de Antioquia, que nasceu no primeiro século da era cristã: “Em sua carta aos membros da igreja de Éfeso, escrita em c. 110 d. C., ele faz referência aos efésios como o povo de Paulo…” (VERMES, 2006: 19). Deduz-se, com muita plausibilidade, que a exemplo do que fizera Lucas, redatores paulinos adicionaram o acréscimo no Evangelho de João para favorecer Pedro!

Assim, a história “oficial” foi sendo construída à revelia do próprio Chefe. Essa tradição paulina-petrina é afirmada – em outro resgate valiosíssimo da editora Paulus – pelo principal teólogo do século II, Ireneu de Lião, que ficou conhecido como o “caçador de heresias”. No Livro III de sua obra Contra as Heresias, no subtítulo Onde Está a Verdadeira Tradição, quando aborda “as sucessões de todas as igrejas”, afirma em tom intransigente: “(…) Limitar-nos-emos à maior e mais antiga e conhecida por todos, à igreja fundada e constituída em Roma, pelos dois gloriosíssimos apóstolos, Pedro e Paulo, e, indicando a sua tradição recebida dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, que chegou até nós pelas sucessões dos bispos, refutaremos todos os que de alguma forma, quer por enfatuação [arrogância] ou vanglória, quer por cegueira ou por doutrina errada, se reúnem prescindindo de qualquer legitimidade” (IRENEU, 1995: 249-50).

Por sorte, existem teólogos católicos, como o sacerdote Pierre Debergé, docente da faculdade de teologia de Toulouse, que se recusam a submeter suas consciências as falácias de um dogmatismo cego. Justamente, comentando a mesma citação de Ireneu em seu livro São Pedro, denuncia: “Sabendo que, do ponto de vista puramente histórico, Pedro e Paulo provavelmente jamais tenham fundado a Igreja de Roma, só nos resta perguntar sobre o sentido da afirmação de Ireneu de Lião… Por que ter feito de Pedro e Paulo os fundadores da Igreja de Roma? A resposta deve ser procurada no martírio de ambos… Que seja preciso considerar o martírio de Pedro e Paulo o ato de fundação da Igreja de Roma, isto é confirmado por sua festa comum, celebrada no dia 29 de junho” (DEBERGÉ, 2009: 132-133). É muita subjetividade, manipulação editorial e pouca fidedignidade histórica para sustentar que Pedro tenha sido incumbido por Jesus da liderança de sua comunidade. Vamos à segunda desmistificação: “a pedra da Igreja”.

 

A PEDRA DA IGREJA

Em primeiro lugar, reitero o que foi esclarecido neste estudo com referências confiáveis: “Igreja” é uma palavra e conceito grego que, o prof. David Stern, oportunamente, traduz como “comunidade” para se referir ao contexto de Jesus (STERN, 2008: 18). Em mais uma contribuição do padre Juan Luis Segundo, que lecionou em Harvard: “De fato, a mesma afirmação de que não se encontra no Jesus histórico a origem da Igreja pode ser válida, por exemplo, se por Igreja se entende uma instituição dotada de tais ou quais estruturas que somente aparecerão mais tarde” (SEGUNDO, 2011: 345). Segundo o sacerdote católico Albert Nolan, que chegou a ocupar o cargo de Mestre Geral dos Dominicanos, em seu Jesus Antes do Cristianismo, “Jesus não fundou uma organização, ele inspirou um movimento” (NOLAN, 1987: 194). Ademais, como vimos, Jesus gostava de ensinar na beira do mar, nas montanhas e nos campos – sua “igreja” era a natureza.

Em segundo lugar, é preciso rastrear as origens do Evangelho de Mateus, o único no qual a afirmação “ (…) Tu és pedra, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mt 16: 18) está registrada. Referencio, uma vez mais, o Dr. Raymond Brown, reconhecida autoridade católica em Novo Testamento. Quanto ao autor: “Alguém que falava grego, que sabia aramaico ou hebraico, ou ambos, e que não foi testemunha ocular do ministério de Jesus, utilizou-se de Marcos…” (BROWN, 2012: 262). O Evangelho de Marcos precede Mateus historicamente, e “(…) Estima-se que Mateus reproduza cerca de 80% de Marcos” (p. 261). Ou seja, quando o autor de Mateus escreve seu Evangelho, tinha ao lado uma cópia de Marcos. A frase mateana “Tu és pedra…”  (16: 18) seria uma resposta de Jesus a seguinte confissão de Pedro: “Tu és o Cristo [Messias], o filho do Deus vivo” (16: 16), após Jesus perguntar aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (16: 13).

O que diz Marcos? Quanto à pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” (8: 27) . A resposta de Pedro: “Tu és o Cristo [Messias]” (8: 29). E o colóquio entre os dois encerra-se aqui. Ou seja, a expressão “Tu és pedra…” é um acréscimo do autor de Mateus que destaca sobremaneira a figura de Pedro. Onde o Evangelho de Mateus foi composto? “Ambiente Implícito: presumivelmente a região de Antioquia” (BROWN, 2012: 262). Paulo registra que esteve com Pedro em Antioquia (Gl 2: 11- 13). E Lucas, que nasceu nessa metrópole cosmopolita síria, registra algo histórico: “E foi em Antioquia que os discípulos, pela primeira vez, receberam o nome de ‘cristãos’” (At 11: 26).

Novamente a trinca Paulo, Pedro e Lucas. Geza Vermes, agora em seu Quem é Quem na Época de Jesus, acrescenta: “A tradição cristã, registrada principalmente pelo historiador da Igreja Eusébio, afirma que, após deixar Jerusalém, Pedro se tornou o primeiro bispo de Antioquia” (VERMES, 2008: 232). A conclusão é óbvia: se o autor de Mateus, segundo Brown, compôs seu Evangelho em Antioquia (entre 80 e 90 d. C.), provavelmente se tratava de um discípulo de Pedro. Nada mais natural do que, em seu acréscimo ao Evangelho de Marcos, enaltecer o apóstolo em relação a seus pares.

Entretanto, existe outra hipótese: embora o autor de Mateus reproduza 80 % de Marcos, também se valeu de outras fontes: “(…) Uma coleção de ditos do Senhor (Q), bem como de outras tradições disponíveis, orais ou escritas” (BROWN, 2012: 262). Se as palavras de Jesus a Pedro são históricas, faz-se necessário esclarecer como o papado as distorceu em seu benefício, a ponto de dar a esse Evangelho, segundo Brown, “(…) A prioridade como instrumento de ensinamento da Igreja” (p. 261). Segundo a tradução da B. J., após Pedro confessar que Jesus era o Messias, Cristo na tradução grega, o Mestre responde: “(…) Não foi a carne e o sangue que te revelaram isso, e sim meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja [comunidade], e as portas do Hades [morada dos mortos] nunca prevaleceram contra ela” (Mt 16: 17-18). Logo após, Jesus faz uma predição de seu sofrimento e morte (Mt 16: 21). Ao que “Pedro, tomando-o a parte, começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não o permita, Senhor! Isso jamais te acontecerá! Ele, porém voltando-se para Pedro, disse: ‘Afasta-te de mim, Satanás!” Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (Mt 16: 22-23).

Lembro que iniciei este longo texto alertando sobre a necessidade de se contextualizar as palavras, frases e expressões dos versículos bíblicos e dos hinos. Pois bem, nesse episódio, Simão, que era o nome de nascimento de Cefas, pedra/rocha em aramaico, era tão somente uma pedra… de tropeço, de ignorância. Pouco antes desse episódio, Jesus repreende Pedro: “Homem fraco na fé, por que duvidaste novamente?” (Mt 14: 31). Na última ceia, Jesus volta a ligar Pedro a Satanás: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça” (Lc 22: 31). Não obstante, Pedro nega Jesus durante sua prisão, episódio que é emblemático por Pedro ser a antítese do que seu Mestre é. Enquanto o Cristo é a glória do Eu Sou, segundo Lucas 22: 58, Pedro, em sua segunda negação, responde: “Homem, não sou”; e, segundo João 18: 25, Evangelho em que Jesus – como esmiucei acima – afirma o Eu Sou sete vezes,  “Ele negou e respondeu: não sou”. (Lc 22: 31).

Por fim, a fé titubeante de Pedro, fez com que Paulo o reprendesse publicamente, chamando-o de “hipócrita”, ou nas palavras epistolar: “(…) Se deixou levar por sua hipocrisia” (Gl 2: 11-13). Além do mais, existe um detalhe muito esclarecedor quando comparamos Mateus e Lucas. O episódio da confissão de fé de Pedro se dá pouco depois da morte de João Batista (Mt 14: 3-12); portanto, durante o ministério de Jesus, quando ele estava em Cesaréia de Filipe (Mt 16: 13-20). Se nesse episódio, os apóstolos tivessem entendido que Jesus havia conferido a Pedro a “primazia da Igreja”, não faria sentido a seguinte disputa na última ceia: “Houve também uma discussão entre eles: qual seria o maior?” (Lc 22: 24). Mas então, por que Pedro foi escolhido para protagonizar a cena? A primeira opção, vimos acima: o Evangelho de Mateus provavelmente foi composto em Antioquia, região sob a influência missionária de Pedro. A segunda opção, deixo a cargo do especialista em “Jesus histórico”, Geza Vermes, quando conclui seu raciocínio após elencar as debilidades petrinas: “Antecipando os problemas futuros da fraqueza de Pedro, os evangelistas e o autor de Atos tentaram esconder seus pés de barro, dessa forma buscando elevar seu status(VERMES, 2008: 231).

Assim sendo – e essa é a dura realidade dos fatos – como poderia esse skándalon (“pedra de tropeço, obstáculo” nos original grego para Mt 16: 23 (BÍBLIA 2002, 1734)) ser o fundamento da “igreja” do Mestre? Então, qual é o mistério da afirmação “(…) Tu és pedra, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja [comunidade]”? Salienta-se que, pouco antes, não foi a “carne e o sangue” (a personalidade) de Pedro, mas o Pai através de Pedro, que revelara ser Jesus, o Cristo (16: 17). Essa é a chave da resposta que é encontrada nos escritos de vultosos Pais da Igreja, como Agostinho (354-430) e João Crisóstomo (347-407), que alertaram para essa contradição – entre o que Pedro era de fato e o que a Igreja diz que ele foi – antes do Papa Leão I no século V desconsiderar os santos e distorcer os fatos para legitimar o papado. Vejamos, primeiro através do filósofo, teólogo e educador Huberto Rohden (1893-1981):

“Segundo as palavras de Santo Agostinho, no quinto século, as palavras “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” não se referiam à pessoa humana do apóstolo, mas sim à confissão que Pedro fizera da divindade do Cristo. (…) Acrescenta Agostinho que a pessoa de Pedro, que é chamada por Jesus “carne e sangue”, não podia ser a pedra fundamental da igreja. Pouco depois, Jesus chama Pedro “Satanás”… Mais tarde, por motivos hierárquicos e políticos, foram as palavras de Jesus interpretadas em outro sentido, como se Jesus tivesse conferido a Pedro o título de pedra fundamental da igreja” (ROHDEN, 1990: 87-88).

Os motivos hierárquicos e políticos mencionados por Rohden, são detalhados pelo Comentário Bíblico Adventista (2013), Vol. 5, p. 453: “Foi só quando o apoio bíblico foi procurado em favor das reivindicações do bispo de Roma à primazia da igreja que as palavras ditas por Cristo nessa ocasião foram tiradas de seu contexto original e interpretadas para dizer que Pedro era “esta pedra”. Leão I foi o primeiro pontífice romano a alegar, em c. 445 d. C., que sua autoridade provinha de Cristo, por meio de Pedro. (…) O significado atribuído às palavras de Cristo, por meio do qual fazem conferir a primazia sobre os chamados sucessores de Pedro, os bispos de Roma, está em completo desacordo com todos os ensinamentos que Cristo transmitiu a Seus seguidores (ver Mt 23: 8, 10)”. O Comentário acrescenta na mesma página: “Crisóstomo, o pregador da “língua de ouro”, outro pai da igreja dos primeiros séculos, diz que Jesus prometeu lançar as bases da igreja sobre a confissão de Pedro [não em Pedro], mas, em outro lugar, chama Cristo de nosso verdadeiro fundamento…”.

O que esses Pais da Igreja afirmaram – a confissão de Pedro e não a pessoa é o fundamento – tem ampla sustentação na própria Escritura. Desde a Bíblia hebraica, a “pedra” foi utilizada como um símbolo de Deus: “Ele é a Rocha, e sua obra é perfeita, pois toda a sua conduta é o Direito. É Deus verdadeiro e sem injustiça, ele é a justiça, e a Retidão” (Dt 32: 4) – a própria descrição do Cristo já no Pentateuco. Paulo, profundo conhecedor da Torá, subscreve de forma taxativa: “Quanto ao fundamento, ninguém pode por outro diverso do que foi posto: Jesus Cristo” (1 Cor 3: 11). E à frente, aludindo a Moisés e a travessia esotérica do deserto: “Todos comeram o mesmo alimento espiritual, e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo” (I Cor 10: 3-4).

É irônico quando o próprio Pedro afirma que Jesus é a Pedra fundamental da construção da comunidade espiritual, do Reino de Deus na Terra: “Então Pedro, repleto do Espírito Santo, lhes disse: ‘Chefes do povo e anciões! (…) É ele [Cristo] a pedra desprezada por vós, os construtores, mas que se tornou a pedra angular” (At 4: 8-11). Pedro rememora palavras de seu Mestre, que por sua vez está se referindo ao Salmo 118:22: “Que significa então o que está escrito: a pedra que os edificadores tinham rejeitado tornou-se a pedra angular” (Lc 20: 17). Reitera a Epístola que leva seu nome: “Chegai-vos a ele, a pedra viva, rejeitada, é verdade, pelos homens, mas diante de Deus eleita e preciosa” (I Pe 2: 4).

E, no próximo versículo, recebemos a chave mística para compreender o sentido esotérico e não institucional da promessa de Cristo a Pedro: “Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, prestai-vos à construção de um edifício espiritual [“igreja”], para um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pe 2: 5). O “edifício espiritual”, o templo interior onde a alquimia da Força (a “Pedra filosofal”!) – como Lucas nomeia o Espírito Santo em Atos 1: 8, segundo a Bíblia de Jerusalém – vai transformar em cada um, a “pedra de tropeço” (bruta) em pedra lapidada, ou na voz de Juramidã: “Fazendo algumas curas/Que minha Mãe me ordenou/De brilhantes pedras finas/Para sempre aqui estou” (114: 4)! Assim, transmutado através do divino pneuma (Sopro, Espírito), um discípulo e não somente Pedro e sua infundada prerrogativa, recebe “as chaves” do Reino.

 

AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS

Após afirmar que, sobre aquela pedra de tropeço iria edificar  – com o Espírito de sua divindade, a Pedra filosofal – o Homem, o Mestre afiança: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16: 19). Não, Jesus não está fazendo de Pedro, “o primeiro papa”, um porteiro soberano do céu, onde ele vai decidir quem entra ou não. Essa crença infantil – perpetuada em ilustrações de um velhinho calvo segurando uma chave – apenas serviu para a política de encurralamento dos crédulos pela Igreja ao longo dos séculos. O que Jesus disse é uma cabalá finíssima que Juramidã replanta em seu espetacular e revolucionário evangelho, o Reino do Céu na Terra, do qual “(…) Todos nós somos herdeiros” (119: 4). Vamos por parte.

Sobre as chaves: é o próprio Pedro que nos dá a primeira pista: “Senhor, a quem iremos? Tens palavra de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus” (Jo 6: 68-69). Os ensinos (palavra) do Mestre são as chaves que o “Santo” resume em uma, a grande chave, segundo o Apocalipse de João: “(…) Assim diz o Santo, o Verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, o que abre e ninguém mais fecha, e fechando, ninguém mais abre” (Ap 3: 7). Germano, como revelado bem acima, confirma que o “Verdadeiro” está entre nós: “A minha Mãe lhe mandou/E  amostra em  todo universo/O vosso Filho está na Terra/Ele é o Verdadeiro” (38: 2).

As “chaves” são as doutrinas que Juramidã, o Verdadeiro, vem replantar e o acesso ao Reino eterno facultar: “Jesus Cristo me mandou/Para mim vir ensinar/Replantar santas doutrinas/Deus te dá um bom lugar” (89: 3), para trinta hinos depois, entregar a chave messiânica (de unção) de David no hino da sagrada aliança, que pressupõe confiança. Em Confia, após afirmar que “Esta força [o Espírito] é muito simples”, concede o acesso ao Reino sinonimizado como “salão dourado” e onde “Todos nós somos herdeiros”: “Estamos todos reunidos/Com a nossa chave na mão/É limpar mentalidade/Para entrar neste salão” (119: 2-4). Na “mentalidade” está a pedra de tropeço, que obstaculiza a percepção e a vivência da sagrada união com o Espírito Santo (Consolador prometido) e os irmãos.

Sobre o divino interruptor, “(…) O que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus”, ao ordenar que devemos “limpar mentalidade”, Juramidã (hino 111) encarna o saber do “Três Vezes Grande”, o hierofante Hermes Trismegisto, replantando o primeiro princípio hermético, o Princípio de Mentalismo – dissolve-se a mente individual e penetra-se na “Mente Vivente Infinita e Universal” (TRÊS INICIADOS, 2014: 20). Ao voltar e pôr os pés no chão, consciente de sua real natureza, o homem receberá uma baliza para nortear sua humanidade e não esquecer de sua divindade: o segundo princípio hermético, o Princípio de Correspondência, o “divino interruptor” no mistério de Unaqui, hino 11 (1 e 1): “Eu estou aqui/Foi Deus do céu quem me mandou/Sou filho da Virgem Mãe/Lá no céu Jesus Cristo Salvador” (11: 1). O cabalista Shimon Halevi sintetiza: “O homem, ponto de encontro entre o Céu e a Terra, é uma imagem do seu Criador” (HALEVI, 1973: 184).

O que o Mestre liga aqui, vem de lá. Assim, o Reino de cima manifesta-se no Reino de baixo, ou como O Caibalion define o segundo princípio: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima” (TRÊS INICIADOS, 2014: 21). No axioma cabalístico: “Kether é Malchut e Malchut é Kether”, para que “(…) O Céu possa se manifestar na Terra” (HALEVI, 1973: 81-82). O mistério de Unaqui na Árvore da Vida da Cabalá: Malchut é a esfera 10, o Reino na Terra; Kether (Coroa) é a esfera 1, o Reino no Céu. Como o zero não tem valor, o 1 da Terra se une (Unaqui) ao 1 do Céu. Assim, revela-se o 11, Daath, a esfera do conhecimento oculto, e o número do hino – “Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus…” (Mt 13: 11). Para um aprofundamento, recomendo uma vez mais, meu artigo Mestre Irineu e a Árvore da Vida: a doutrina cabalista nos hinos 9 e 10 (link ao final do texto).

Ao desmistificar as prerrogativas que a Igreja romana sempre atribuiu a Pedro, encontro uma justificativa plausível para que Mestre Irineu não tenha incluído a celebração ao apóstolo em seu calendário litúrgico. A data de 29 de junho pertence as convenções da Igreja católica romana, está totalmente vinculado a tradição papal, mas não ao replante dos fundamentos doutrinários de Juramidã, o que explica o fato de os centros tradicionais (ortodoxos) do Acre e de outros estados não incluirem essa data em seus calendários.

Pedro, “Maria [Madalena] deve afastar-se do meio de nós…” (Ev. de Tomé, 114),  e Paulo, “As mulheres devem permanecer caladas nas igrejas…”, (1 Cor 14: 34), representam tão somente a versão patriarcal-sexista do cristianismo, a facção vitoriosa, considerando que esse mesmo cristianismo que se desenvolveu em Roma, exilou e perseguiu a versão gnóstica-madalenista da doutrina de Jesus, a versão ginecocrática (“mudou de governo”) que o “Jardineiro”, através de suas flores, sutilmente semeia no horto da ressurreição mística – entenda quem puder.

A revoluções – e que revoluções! – de Juramidã vieram restabelecer a sã doutrina de Jesus antes que a Igreja romana, os fetiches papais e a bibliolatria luterana sola scriptura imperassem no mundo ocidental. Igrejas, seus ídolos e a domesticação de rebanhos… Revolucione, ainda que lhe reste um deserto, uma cruz a carregar e ninguém para lhe salvar até que você encontre o Reino em seu próprio abandono: “Só eu cantei na barra…” (O Cruzeiro, 74: 1); só… “Perguntei a todo mundo: Por onde vai o caminho? E ninguém me respondeu, vou viajando sozinho…” (O Cruzeiro, 94: 1));  “Eu vivo neste mundo, eu não tenho vizinho…” (O Mensageiro, 42: 2)! O Chefe galileu vive em meu coração e memória. Amém.

 

11 – O HINO CHEFE ESTRANGEIRO DO IRMÃO FLÁVIO PASSOS

Esse é o hino 42 do hinário Felicidade, e subscreve a teologia do Chefe Estrangeiro anunciada por Maria Marques Vieira e Antônio Gomes da Silva.

 

O meu Mestre é tão bonito

Ilumina o mundo inteiro

Ele é o Mensageiro

É o Chefe Estrangeiro

 

Ele vem do oriente

Trazendo a sua bandeira

Liberta do sofrimento

Com sua luz verdadeira

 

Este Rei que aqui está

Tem poder superior

Mesmo assim é tão humilde

Quanto uma simples flor

 

A mais pura das belezas

Nesta terra floresceu

Quem dele se aproxima

Sente o perfume de Deus

 

CONVITE: ano que vem, em novembro, publicarei o Tributo à Maria Damião – Parte II, no qual abordarei outro mistério de seu hinário, um código que ela recebeu em forma de um anúncio e que tem ligação direta com o Chefe Estrangeiro. Até lá!

 

LINKS:

Para o áudio do Hino Chefe Estrangeiro: https://www.youtube.com/watch?v=3M5i3RtczIo&list=RD3M5i3RtczIo&start_radio=1

 

Para o subtítulo Os Argumentos da Imortalidade da Alma no Fédon e O Cruzeiro no estudo do hino 7 – Dois de Novembro: https://evangelhodejuramida.com.br/hino-7-dois-de-novembro/

 

Para o terço de Mestre Irineu: https://www.mestreirineu.org/FDC/artigo4.html

 

Para o estudo das palavras de Jesus na promessa da última ceia: https://evangelhodejuramida.com.br/hino-01-lua-branca/

 

Para o estudo da Árvore da Vida cabalista n’ O Cruzeiro: https://evangelhodejuramida.com.br/mestre-irineu-e-a-arvore-da-vida-hinos-9-e-10/

 

Arte: Thálita Vanessa Pinheiro (@thaav_artes).

Nossa página no Instagram: @evangelhodejuramida

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALLEGRO, John M. O Mito Cristão e os Manuscritos do Mar Morto. Sintra, Portugal: Publicações Europa-América, 1979;

AMARAL, Hélio soares do Amaral. Os Cães Filósofos: história da filosofia de resistência. São Paulo: Annablume, 2006;

ASLAN, Reza. Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré. Rio de Janeiro: Zahar, 2013;

BAIGENT, LEIGH E LINCOLN. O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Rio de Janeiro: Ediouro, 1982;

BENSION, Ariel (Org.). O Zohar: O Livro do Esplendor. São Paulo: Polar, 2006;

BÍBLIA. Português. Bíblia Hebraica. São Paulo: Sêfer, 2006;

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém: Nova Edição, Revista e Ampliada. São Paulo: Paulus, 2002;

BÍBLIA. Português. Bíblia de Referência Thompson: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Vida, 2007;

BÍBLIA. Português. Bíblia Tradução Ecumênica (TAB). 2ª Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2015;

BÍBLIA. Português. Bíblia Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2004;

BOBERG, José Lázaro. O Evangelho de Tomé: O Elo Perdido. 3ª ed. Santa Luzia, MG: Editora Cristo Consolador, 2011;

BORG, Marcus J; CROSSAN, John Dominic. A Última Semana. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006;

BÖSEN, Willibald. Ressuscitado Segundo As Escrituras: Fundamentos Bíblicos da Fé Pascal. São Paulo: Paulinas, 2015;

BROWN, Raymond. Comentário ao Evangelho Segundo João. Volume 1 (1-12): introdução, tradução e notas. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2020;

_________. Comentário ao Evangelho Segundo João. Volume 2 (13-21): introdução, tradução e notas. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2020;

_________. Introdução Ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2012;

CARIOCA, Jairo. Doutrina do Santo Daime: A Filosofia do Século. Rio Branco, 2000. Monografia;

___________. Vovô Irineu: todos vão se recordar e começar do ABC. Santa Luzia, MG: Editora Cristo Consolador, 2023;

CICLU. Estatuto do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal. Rio Branco. 1971;

COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA (Vol. 5.). Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013;

COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA (Vol. 7.). Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014;

CROSSAN, John Dominic. Jesus: uma biografia revolucionária. Rio de janeiro: Imago, 1995;

_________. O Jesus Histórico: a vida de um camponês judeu no mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994;

_________. O Nascimento do Cristianismo: o que aconteceu nos anos que se seguiram à execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004.

DEBERGÉ, Pierre. São Pedro. São Paulo: Edições Loyola, 2009;

DICIONÁRIO TEOLÓGICO: O DEUS CRISTÃO. São Paulo: Paulus, 1988;

DUNN, James D.G. Jesus, Paulo e os Evangelhos. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2017;

EHRMAN. Bart D. O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?: quem mudou a Bíblia e por quê. São Paulo: Prestígio, 2006;

EMMANUEL (Espírito). O Consolador. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 29ª ed. Brasília: FEB, 2017;

ESCHEMBACH, Wolfram von. Parsifal. 4ª Ed. São Paulo: Antroposófica, 2015;

ESTRANGEIRO. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2009;

ESTRANHO. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2009;

EUSÉBIO, Bispo de Cesareia. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000;

EVOLA, Julius. O Mistério do Graal. Lisboa: Veja, 1978;

FABRIS, Rinaldo. Os Atos dos Apóstolos. São Paulo: Loyola, 1991;

FLUSSER, David. O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, Volume 1. Rio de Janeiro: Imago, 2000;

GENTIO. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2009;

GINSBURG, Christian. Os Essênios: sua história e doutrinas. São Paulo: Pensamento, 1993;

HAAG. Michael. Maria Madalena: da Bíblia ao Código Da Vinci: companheira de Jesus, deusa, prostituta, ícone feminista. Rio de Janeiro: Zahar, 2018;

HALEVI, Shimon. A Árvore da Vida (Cabala). São Paulo: Editora Três, 1973;

HOFMANN, Albert. LSD: como descubrí el ácido y qué pasó después em el mundo. Barcelona: Gedisa, 1980;

HOORNART, Eduardo. Em Busca de Jesus de Nazaré: uma análise literária. São Paulo: Paulus, 2016;

HORSLEY, Richard. Jesus e o Império: o Reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004;

IRENEU, Santo, Bispo de Lião. Contra As Heresias. São Paulo: Paulus, 1995;

IRVIN, J. R; HERER, Jack. The Holy Mushroom: Evidence of Mushroom in Judeo-Christianity. Crestline (CA): Gnostic Media Research & Publishing, 2009;

JACOOUD, Sebastião. O Terceiro Testamento: Um Fato Para a História. Goiânia: Página Um Editora, 1992;

JACOBOVICI, Simcha; WILSON, Barrie. A Vida Privada de Jesus. Lisboa, Portugal: Clube do Autor, 2015;

KALYAMA, Acharya. Yoga: repensando a Tradição. São Paulo: IBRASA, 2003.

KARDEC, Allan. Obras Completas. 2ª Ed. São Paulo: Opus, 1985;

_________. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, ano IV: 1861. Catanduva, SP: EDICEL, 2016;

KÜNG, Hans. Credo: A Profissão de Fé Apostólica Explicada ao Homem Contemporâneo. Lisboa. Crença e Razão, 1992;

LELOUP, Jean Yves. (Tradução e comentário). O Evangelho de Felipe. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006;

_________. (Tradução e comentário). O Evangelho de Tomé. 8ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2004;

LURIA, Isaac. Portal das Reencarnações. Tradução e comentários por Rabino Joseph Saltoun. 2ª ed. São Paulo: Editora Instituto Meron, 2016;

MCKENNA, Terence. O Alimento dos Deuses. Rio de Janeiro: Record Nova Era, 1995;

_________. O Retorno à Cultura Arcaica. Rio de Janeiro: Record Nova Era, 1995;

MAIOR, Marcel Souto. As Vidas de Chico Xavier. 2ª ed. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003;

___________. Kardec, A Biografia. 6ª. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2014;

MEIER, John P. Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico. 3ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1992;

MIEN, Aleksandr. Jesus, Mestre de Nazaré: a história que desafiou 2000 anos. Vargem Grande Paulista: Editora Cidade Nova, 1998;

MOREIRA, Paulo; MACRAE, Edward. Eu Venho de Longe: Mestre Irineu e seus companheiros. Salvador: EDUFBA, 2011;

NOGUEIRA, Paulo. Narrativa e Cultura Popular No Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulus, 2018;

NOLAN, Albert. Jesus Antes do Cristianismo. São Paulo: Paulus, 1987;

NOVO TESTAMENTO. Tradutor Haroldo Dutra Dias. Brasília (DF), Brasil: Conselho Espírita Internacional, 2010;

O EVANGELHO DE TOMÉ: as sentenças ocultas de Jesus. Edição crítica, introdução, tradução do texto copta e notas de Marvin Meyer. Interpretação de Harold Bloom. Rio de Janeiro: Imago, 1993;

OTZEN, Benedikt. O Judaísmo na Antiguidade: A História Política e as Correntes Religiosas de Alexandre Magno Até O Imperador Adriano. São Paulo: Paulinas, 2003;

PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. São Paulo: Cultrix, 1995;

RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. 6ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2012;

ROHDEN, Huberto. A Mensagem Viva do Cristo. São Paulo: Martin Claret, 1990;

RUSH, John A. Failed God: Fractured Myth in a Fragile World. Berkeley, California: Frog Books, 2008;

SCHMIDT PATIER, A. R. Prefácio. In. ESCHENBACH, Wolfram von. Parsifal. 4ª ed. São Paulo: Antroposófica, 2015;

SEGAL, Alan F. Paulo, O Convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010;

SEGUNDO, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré: dos sinóticos a Paulo. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2011;

SILVA, Severino Celestino da. Analisando as Traduções Bíblicas: refletindo a essência da mensagem bíblica. 11ª ed. João Pessoa: Ideia, 2014;

STERN, David H. Novo Testamento Judaico. 2ª ed. São Paulo: Vida, 2008;

TABOR, James. A Dinastia de Jesus: a história secreta das origens do cristianismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006;

THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus Histórico: Um Manual. 3ª Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2015;

TRÊS INICIADOS. O Caibalion. 23ª ed. São Paulo: Pensamento, 2014;

VERMES, Geza. As Várias Faces de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2006;

_________. Quem é Quem na Época de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2008;

_________. Ressurreição. Rio de janeiro. Record, 2013;

VIVIANO, Benedict. T. O Evangelho Segundo Mateus. In: BROWN, Raymond E.; FITZMYER, Joseph A.; MURPHY, Roland E. (Orgs.). Novo Comentário Bíblico São Jerônimo: Novo Testamento e artigos sistemáticos. São Paulo: Paulus, 2018;

WASSON, Robert Gordon. et al. Persephone’s Quest. USA: Yale University Press, 1986;

WELBURN, Andrew. As Origens do Cristianismo. São Paulo: Best Seller, 1991.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *