Recomendo, antes, a leitura da “Parte I”, a exegese da primeira estrofe. Link:https://evangelhodejuramida.com.br/hino-66-sao-joao/
SÃO JOÃO ERA MENINO
SÓ VIVIA NAS CAMPINAS
PASTORANDO AS SUAS OVELHAS
PREGANDO A SANTA DOUTRINA
PREGANDO A SANTA DOUTRINA
O AMOR ELE EMPREGOU
ATRÁS DELE VEIO JESUS
TODA VERDADE AFIRMOU
TODA VERDADE AFIRMOU
GRAVOU NO CORAÇÃO
AMBOS FORAM BATIZADOS
NO RIO DE JORDÃO
NO RIO DE JORDÃO
AMBOS TIVERAM EM PÉ
UM É FILHO DE MARIA
O OUTRO É FILHO DE ISABEL
JESUS ESTAVA VESTIDO
COM SUA ROUPA COR DE CANA
DANDO VIVA AO PAI ETERNO
E VIVA À SENHORA SANTANA
EXEGESE DA SEGUNDA ESTROFE
PREGANDO A SANTA DOUTRINA
O AMOR ELE EMPREGOU
ATRÁS DELE VEIO JESUS
TODA VERDADE AFIRMOU
INTRODUÇÃO
São João foi o precursor de Jesus no mistério deserto. Apesar de ser filho de um sacerdote do templo (Zacarias), tomou o caminho do nada renunciando ao palco das cidades, pois segundo a tradição judaica, o deserto era mais do que uma localização geográfica; nas palavras do Dr. Reza Aslan: “É onde a aliança com Abraão foi feita, onde Moisés recebeu a Lei de Deus, onde os israelitas vagaram por uma geração, o lugar onde Deus habitava, onde ele poderia ser encontrado e onde se poderia conversar com ele” (ASLAN, 2013: 257).
A multidão não é capaz de dar ao buscador de Deus o que o deserto pode oferecer, pois como poetizou Honoré de Balzac dando voz à sua faceta mística: “No deserto, veja bem, há tudo, e não há nada… é Deus sem os homens.” (BALZAC, 2019: 17). João cumpre o primeiro mandamento nessa Presença, para estar capacitado a cumprir o segundo diante da humanidade ausente às verdades divinas. O amor de João está em seu nome: Yochanan, “Deus concede graça” (STERN, 2008: 295). João doou sua vida e por meio de seu exemplo outros homens alcançaram o fruto de sua renúncia ao ouvirem: “Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3, 2), pois, “Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, tornai retas as suas veredas…” (Lc 3, 4). O arrependimento sincero torna retas as veredas do coração e da consciência – revelam-se campinas na sagrada solitude, ou como disse Oscar Wilde refletindo em Cristo quando estava preso: “O momento do arrependimento é o da iniciação” (WILDE, 2003: 1410).
Adentrando nas últimas duas frases do versículo: qual a verdade ou “toda verdade” afirmada por Jesus? João Batista responde através de seu prefácio cristão registrado no Evangelho de Lucas. Fraternidade e caridade: “Quem tiver duas túnicas, reparta-as com aquele que não tem, e quem tiver o que comer, faça o mesmo” (Lc 3, 11); honestidade: “Não deveis exigir nada além do que vos foi prescrito” (Lc 3, 13); “A ninguém molesteis com extorsões” (Lc 3, 14); reto testemunho: “Não denuncieis falsamente” (Lc 13, 14); resignação e desapego: “(…) Contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 13, 14); humildade: “É necessário que Ele [Jesus] cresça e que eu diminua…” (Jo 3, 30).
Qual o verdadeiro papel de João em relação a Jesus, para além da blindagem dogmática em torno do homem que já nasceu Deus? Segundo a sequência entre o segundo e o terceiro versículo, Jesus, o que veio “atrás”, afirma e grava no coração a doutrina de João que, por dedução lógica, estava “à frente”. É isso o que testemunha o Evangelho de Marcos, claro desde o primeiro versículo: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1:1): “Conforme está escrito no profeta Isaías: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti a fim de preparar o teu caminho” (Mc 1:2). Do versículo 2 ao 8, Marcos é cem por cento João. Jesus só aparece no versículo 9! O primeiro Evangelho (em ordem cronológica e não canônica), base de todos os outros, começa por João Batista. Afora o cumprimento da profecia de Isaías, teria o autor de Marcos algum outro motivo ou motivos para priorizar João na abertura de seu Evangelho?
JOÃO E JESUS, OS DOIS MESSIAS DOS ESSÊNIOS?
A relação de João Batista, Jesus e os primeiros cristãos com os essênios é motivo de debates no mundo acadêmico. Baseado em meus insipientes estudos sobre o assunto, expostos na “Parte I” da interpretação do hino 66 (vide link no início do texto), sigo a linha de conceituados acadêmicos que vislumbram vários elos. Um desses estudiosos é David Flusser (1917-2000), que batiza de Os Manuscritos do Mar Morto e o Novo Testamento, o seu primeiro volume da premiada obra O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, finalizada em mais dois volumes.
Os essênios esperavam dois Messias no “final dos tempos”: um sacerdotal (aarônico) e outro davídico (real). Aarão era o irmão mais velho de Moisés e primeiro sumo sacerdote de Israel. Ambos eram da Tribo de Levi, a tribo dos sacerdotes que no tempo de Jesus aponta para Zacarias, pai de João Batista, levita filho de Isabel, “filha de Aarão” (Lc 1:5). Já David unificou as tribos de Israel e deu nome a uma dinastia (casa) que, segundo os Evangelhos, culminou em Jesus, o “Filho de David”. Portanto, João Batista e Jesus detinham respectivamente o pedigree sacerdotal e real. Não há como afirmar cabalmente que João e Jesus eram os Messias esperados pelos essênios; entretanto, as fontes primárias que alimentaram o Evangelho de Marcos podem ter assim interpretado. E a pista é justamente a primazia de João sobre Jesus posto que, para os essênios, o Messias sacerdotal precedia em importância o Messias real. Segundo o eminente teólogo Geza Vermes, em seu Os Manuscritos do Mar Morto, “(…) O Messias–Sacerdote tem a precedência, o “Messias de Aarão”, o “Sacerdote”, o “Interprete da Lei”. O Messias–Rei deveria submeter-se a ele e à autoridade sacerdotal em todas as questões legais em geral…” (VERMES, 1997: 113).
JOÃO, O MESTRE DE JESUS
“Atrás dele veio Jesus/Toda verdade afirmou” proclama Mestre Irineu na última parte do segundo versículo. A meu ver é uma forma sutil de declarar Jesus (o que veio atrás) como discípulo de João (o que estava à frente), pois todo discípulo sempre testifica – “Toda verdade afirmou” – seu mestre antes de sucedê-lo com legitimidade. E essa é a relação mais cogitada pelos acadêmicos não fundamentalistas, entre João e Jesus. Autoridades espirituais do porte de Paramahansa Yogananda também afirmam o que alguns autores dos Evangelhos tentaram ocultar, como veremos adiante: Jesus era discípulo de João.
“Com base em um estudo reverente da Bíblia, sob o ponto de vista oriental e baseado em minha própria percepção intuitiva, estou convencido de que João Batista foi, em vidas anteriores, o guru de Cristo. Numerosas passagens da Bíblia deixam implícito que João e Jesus, em suas últimas encarnações, foram respectivamente Elijah e seu discípulo Elisha. (Tal é a grafia no Velho Testamento. Os tradutores gregos escreveram Elias e Eliseu, nomes que reaparecem, sob esta forma alterada, no Novo Testamento)” (YOGANANDA, 2001: 350). O médico espírita Suikire Carneiro, em seu O Cristianismo do Cristo, após repetir o que disse Yogananda, retrocede ainda mais no tempo e afirma que os espíritos de João e Jesus já haviam habitado em Moisés e Josué (CARNEIRO, 1981: 45).
Os especialistas em bibliogênese do Novo Testamento são sabedores das tentativas de esconder o fato de João Batista ter sido o mestre de Jesus. Temos pistas contundentes ao analisar o relato do batismo, comparando os Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, a ordem cronológica e não canônica defendida por vários estudiosos, incluindo o Dr. Raymond Brown, considerado o maior biblicista católico contemporâneo (BROWN, 2012: 206; 262; 329; 461). Observamos que, em Marcos, escrito por volta de 70 d.C., o batizado de Jesus por João flui normalmente: “E aconteceu naqueles dias que Jesus, tendo vindo de Nazaré da Galileia, foi batizado por João, no Jordão” (1:9). Já o autor de Mateus, que escreve seu Evangelho aproximadamente 10 anos após Marcos, cria uma oposição de João ao batismo, que não aparece em Marcos: “Mas João opunha-se, dizendo: Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim” (3:14).
Dez anos após Mateus, surge o Evangelho de Lucas, que tem a indelicadeza – para dizer o mínimo – de tirar João da cena do batismo e, com desfaçatez, colocá-lo no cárcere imediatamente antes do batismo: “Acrescentou [Herodes Antipas] a todos as outras [maldades] esta: a de encerrar João num cárcere (Lc 3: 20). E aconteceu que, como todo o povo se batizava, sendo batizado também Jesus, orando ele, o céu se abriu.” (Lc 3: 21)”. Dê-me uma resposta se for capaz: com João no cárcere, Jesus foi batizado por quem? O objetivo do Evangelho de Lucas é claro: mostrar as comunidades gentias para o qual era destinado (ainda não existia um “Novo Testamento”!), que João batizou sim (3:16), mas não a Jesus!
O padre exegeta Raymond Brown explica os versículos 20 e 21 em tom mais diplomático: “(…) Lucas evita qualquer subordinação de Jesus a João Batista, que não é sequer mencionado na cena batismal seguinte” (BROWN, 2012: 340). Lucas era discípulo de Paulo (2 Tm 4: 11), muito prestigiado por este, o “médico amado” de Colossenses 4: 14. Quem encontrar o nome de João Batista nas epístolas paulinas me avise! Por que Paulo não o faz? Paulo e Lucas “globalizaram” Jesus; ou seja, adequaram-no ao grande Império da época (romano) com o seu já estabelecido paradigma para os deuses. O Jesus propagandeado não podia ter mestre (iniciador), afinal era o próprio e único Deus.
Por fim, dez anos após Lucas, os autores de João não mencionam explicitamente o ato do batismo de João em Jesus, somente o supõe (Jo 1: 31-34). Um dos motivos era que, em Éfeso, onde esse Evangelho foi composto, as comunidades de discípulos de João Batista eram bem atuantes, defendendo a verdade da primazia de seu mestre sobre Jesus (ÀLVAREZ VALDÉS, 1997: 89). Segundo o teólogo polonês Jurgen Roloff, “O movimento que se originou em torno ao Batista estendeu-se rapidamente desde a região oriental do rio Jordão até alcançar a Ásia Menor, onde foi ganhando adeptos entre alguns círculos judeus mais heterodoxos. Esta seita chegou a se converter numa verdadeira concorrência com o movimento cristão…” (TORRES QUEIRUGA, 2010: 155). O teólogo Geza Vermes, a respeito do bispo mártir Inácio de Antioquia, escreve: “Em sua carta aos membros da igreja de Éfeso, escrita em cerca de 110 d. C, ele faz referência aos efésios como o povo de Paulo…” (VERMES, 2006: 19). Portanto, deduzimos a existência de dois grupos de cristãos em Éfeso, que divergiam: os joaninos (do Batista) e os paulinos.
O primeiro considerava Jesus um discípulo judeu de um mestre judeu. O segundo considerava Jesus o próprio Deus e, portanto, bastava a si mesmo. Paulo, a exemplo dos autores do Evangelho de João, considera Jesus como Deus (Rm 9: 1-5; Tito 2: 13). Paulo não dá nenhuma importância a João Batista, a ponto de excluí-lo totalmente de sua epístolas, corpo de suas doutrinas. Apenas Atos (19: 1-7), escrita por seu discípulo Lucas, relata algo sobre discípulos de João Batista, situando-os em um patamar de inferioridade. Como Paulo, no capítulo citado, estava justamente em Éfeso, o que Lucas escreve é história ou uma apologia da superioridade de Jesus? Para quem retirou João da cena do batismo, não seria surpresa a segunda opção! Ou como diz, corajosamente, o ex-padre Geza Vermes sobre o episódio: “(…) Deriva do autor nem sempre confiável [historicamente] dos Atos dos Apóstolos” (VERMES, 2006:97. Colchetes meus). Atos é considerado uma obra lucana.
Os autores efésios do Evangelho atribuído a João – “(…) Existia uma escola joanina de discípulos escritores” (BROWN, 2012: 461) -, influenciados pelo pensamento paulino criaram, de forma deliberada, uma antítese entre o que Jesus é e o que João Batista é – ou melhor, não é! O Evangelho de João é o único a fazer Jesus, por sete vezes, afirmar o “Eu sou” (Jo 6: 35; 8: 12; 10: 9; 10: 11; 11: 25; 14: 6; 15: 1). Igualmente, por sete vezes, faz João Batista afirmar o “não sou”: no programa teológico dos autores de João, o Batista não era a luz (1:8), não era o ungido (Messias, Cristo), não era Elias, não era profeta (1:20,21); não era anterior a seu pupilo (1:15), não era o esposo (3:29) e não era fazedor de sinal algum (10:41). Comenta, de batina justa, em sua obra A Comunidade do Discípulo Amado, o maior especialista católico no Evangelho de João, o padre Raymond Brown: “Nenhum evangelho sinóptico tem uma atitude tão cautelosa diante de João Batista nem tantas negações” (BROWN, 2006: 72).
Está justificado por que esse Evangelho não torna o batismo de João sobre Jesus explícito! No intento de transformar o mestre judeu Jesus em Deus, a história foi sacrificada em prol da teologia mítica a catequizar o populacho greco-romano. A subordinação de João a Jesus foi tão acintosamente construída, que o quarto Evangelho termina por se contradizer. No capítulo 1:8, os autores apologistas afirmam que João Batista não era a luz, mas apenas uma testemunha da luz. Porém, quatro capítulos após, eis o que Jesus fala a respeito de seu mestre assassinado: “Ele era a lâmpada que arde e ilumina…” (5:35). No capítulo 3, por duas vezes, afirma-se que João desconhecia a identidade de Jesus: “Eu não o conhecia” (1: 31, 33). Não é crível, à luz da verdade, que um mestre desconheça seu discípulo.
Quão embaraçoso para estes escribas, escrevendo 70 anos após Jesus, aceitar que Deus mesmo pudesse se submeter a um homem de carne e osso. Mais tarde, quão obstante para os redatores dos Evangelhos, vivendo sob a ordem imperialista, aceitar que o seu diplomático, endeusado e bem-acabado Jesus pudesse ter como mentor um rebelde maltrapilho e seu socialismo sagrado, verdadeiro representante da Filosofia Cínica – os “cães” que ladravam criticando as ilusões e injustiças da sociedade greco-romana (AMARAL, 2006: 9-12).
Na tentativa de ocultar o mestre de Jesus, os autores de Mateus e Lucas ainda dão à figura de João um ar cético (o que cria uma distância), quando manda perguntar sobre a missão de seu maior pupilo, como se fosse possível a ele como mestre não a conhecer: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” (Mt 11: 3; Lc 7: 18) – será que Lucas esqueceu, segundo ele mesmo grafou, que o feto de João Batista salta no ventre de Isabel, quando reconhece a “mãe do Senhor” (Lc 1: 41-43)?! Ao menos nesse ponto, os autores de João, logo no início do relato sobre o Batista, revelam o que João Batista pensava de seu discípulo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1: 29). E, assim, o Evangelho de João contradiz os de Mateus e Lucas.
Associados às manobras editoriais, estão os equívocos de interpretação sobre o que seriam palavras de João Batista. Uma de suas mais famosas frases, que é interpretada como uma prova da superioridade de Jesus sobre João é esta: “(…) No meio de vós, está quem vós não conheceis, aquele que vem depois de mim, do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias” (Jo 1: 26-27). Alerto que, embora o episódio apareça narrado nos quatro Evangelhos, considero a versão de João a menos corrompida. Como um exemplo, na versão de Mateus (3: 11), em algumas traduções, o verbo “desatar” é substituído pelo verbo “carregar”, que distorce totalmente o sentido da expressão “desatar as sandálias”, que estudaremos a seguir. Relembro que João Batista era filho de Zacarias, um sacerdote do Templo. Certamente, o jovem Yochanan foi instruído na “tradição”. A expressão “desatar a correia das sandálias” remonta à lei do levirato – do latim levir, “cunhado” – promulgada em Deuteronômio 25, 5-10:
“Quando dois irmãos moram juntos e um deles morre, sem deixar filhos, a mulher do morto não sairá para casar-se com um estranho à família; seu cunhado virá até ela e a tomará, cumprindo seu dever de cunhado. O primogênito que ela der à luz tomará o nome do irmão morto, para que o nome deste não se apague em Israel. Contudo, se o cunhado recusa desposar a cunhada, esta irá aos anciãos, na porta, e dirá: ‘Meu cunhado está recusando suscitar um nome para seu irmão em Israel! Não quer cumprir seu dever de cunhado para comigo!’ Os anciãos da cidade o convocarão e conversarão com ele. Se ele persiste, dizendo: ‘Não quero desposá-la!’, então a cunhada se aproximará dele na presença dos anciãos, tirar-lhe-á a sandália do pé, cuspirá em seu rosto e fará esta declaração: ‘É isso que se deve fazer a um homem que não edifica a casa de seu irmão’; e em Israel o chamarão com o apelido de ‘casa do descalçado’” (Grifo meu).
Correlações: João e Jesus são os “dois irmãos que moram juntos” – mestre e discípulo. A mulher do morto é Israel, pois seu último profeta, João, será em breve decapitado. O primogênito é o judaísmo cristão (“cristianismo”), que para sempre honrará o nome de João Batista. Continuando a analogia: se João desatasse as correias das sandálias de Jesus significaria que Jesus não teria aceitado sua missão – “inseminar” Israel com a Doutrina. Portanto, a expressão “Não sou digno de desatar as correias das sandálias” analisada à luz do contexto judaico em que João e Jesus viviam, não revela uma inferioridade de João, mas simplesmente uma passagem de bastão – Jesus edificará a casa de seu “irmão”! Como acabamos de ver acima, os autores de João rotularam João Batista por sete vezes com o “não sou”. O episódio das “sandálias” é o oitavo em uma adulteração grotesca de um saber que mestre João usou – como metáfora – para investir seu principal discípulo com o comando de sua missão. Mestre Irineu sabia muito bem o que estava fazendo quando deixou a Bíblia de fora de seu replante litúrgico!
Sobre a relação entre João Batista e Jesus, o Prêmio Nobel da Paz (1952) Louis Albert Schweitzer, que além de médico caridoso era um conceituado teólogo, em seu clássico A Busca do Jesus Histórico (1906), marco teológico global, sintetizando a obra do teólogo David Friedrich Strauss, conclui: “(…) O resíduo histórico seria que Jesus foi, por algum tempo, um dos seguidores do Batista, e foi batizado por ele, e que Ele pouco depois apareceu na Galiléia com a mesma mensagem que João proclamava, e mesmo quando Ele superou sua influência, nunca deixou de ter João em grande estima, como demonstrado na apologia que Ele pronunciou sobre este” (SCHWEITZER, 2009: 104).
“A mesma mensagem que João proclamava”, diz o texto. “Toda verdade afirmou”, subscreve o hino “São João” em tom de ênfase (duas vezes nas estrofes 2 e 3), traduzindo a pregação de Jesus como o testemunho dos ensinos de João! Sobre a apologia de Jesus por seu mestre: “Mas, então que foste ver? Um profeta? Sim, vos digo eu, e muito mais do que profeta. Porque é este de quem está escrito: Eis que diante da tua face envio o meu anjo [mensageiro], que preparará diante de ti teu caminho [o papel iniciador de João]. Em verdade vos digo que, entre os que de mulher tem nascido, não apareceu alguém maior que João, o Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele” (Mt 11: 9-11. Colchetes e grifo meu).
Acima, esclareci o contexto judaico da expressão deuteronômica “tirar (desatar) a sandália do pé”. Faz-se necessário igualmente contextualizar a expressão “nascido de mulher” e a frase “mas o menor no reino dos céus é maior do que ele” (Mt 11: 9-11). Quanto a “nascido de mulher”, a princípio, para o leitor leigo, sugere uma restrição de João à condição humana posto que Jesus haveria nascido de uma “virgem”. Segundo o tradutor e estudioso da tradição judaica, Haroldo Dutra Dias, “Entre os que de mulher tem nascido” é uma expressão idiomática semítica que significa simplesmente “ser humano” (NOVO TESTAMENTO, 2010: 76). Paulo de Tarso ratifica: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei.” (Gal 4: 4).
Quanto à frase “(…) Mas o menor no reino dos céus é maior do que ele [João]” segundo o Dr. James Tabor, professor de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, na versão hebraica de Mateus, esse trecho não aparece. Segundo o autor, Isso indica que copistas da versão grega acrescentaram o remate da frase para diminuir o tamanho (importância) de João perante Jesus (TABOR, 2006: 152). O prestigiado Comentário Bíblico São Jerônimo, um calhamaço teológico de 1783 páginas, corrobora Tabor: “O versículo 11b – [“mas o menor no reino dos céus é maior do que ele”] – pode ser uma glosa protocristã” (VIVIANO, 2018: 175).
Uma “glosa protocristã” é um comentário inserido por escribas, copistas ou redatores diretamente nos manuscritos originais dos Evangelhos durante as origens do cristianismo. As obras que tentam justificar a glossa, sem mencionar a possibilidade do trecho ser uma glossa, o fazem de forma débil e absurda. Por exemplo, o Comentário Bíblico Adventista, denominação fundamentalista paulina, em seu vol. 5, p. 401, anota: “Em certo sentido, João estava apenas à porta do reino, olhando para dentro, enquanto esse mais humilde [“o menor”] seguidor de Jesus estava na presença do Rei”. Já a Bíblia de Jerusalém, chancelada pelo Vaticano, porta-voz do cristianismo paulino, comenta quanto ao “menor”: “Pelo simples fato de pertencer ao Reino, ao passo que João, como Precursor que era, parou à entrada” (BÍBLIA, 2002: 1723).
Na verdade, Mateus 11: 11, sem o acréscimo (glossa) dos copistas seria assim: “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher tem nascido, não apareceu alguém maior que João, o Batista”. Os escribas, copistas ou redatores da glossa, influenciados pelo “endeusamento” paulino de Jesus não podiam admitir que ele tivesse dito, com natural deferência, que seu mestre João era anterior a ele, primaz (“maior”). Portanto, considerando a explicação de H. D. Dias, a corroboração de Gal 4: 4, a explicação do prof. Tabor e a observação do Comentário Bíblico São Jerônimo, não há dúvida de que em Mt 11: 11, sem o provável acréscimo, Jesus considerou o priorado de seu mestre João Batista!
Mas Jesus não se deteve aí, para desconforto dos apequenam o Batista. O Dr. Reza Aslan resume com perspicácia: “As primeiras palavras do ministério público de Jesus ecoam as de João: ‘O tempo está cumprido. O Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai nas boas novas’ (Mc 1: 15). O mesmo acontece com a primeira ação pública de Jesus: ‘Depois disso Jesus e seus discípulos foram para a Judéia e lá eles estavam batizando, e João também estava batizando…’ (Jo 3: 22-23). Claro, os primeiros discípulos de Jesus, André e Felipe, não eram de maneira alguma seus discípulos – eram discípulos de João (Jo 1: 35-37). Eles apenas seguiram Jesus depois que João foi preso. Jesus até mesmo se dirige a seus inimigos entre os escribas e fariseus com a mesma frase específica que João usa para eles: ‘Sua raça de víboras!’ (Mt 12: 34). Jesus permaneceu na Judéia durante algum tempo depois do batismo, movendo-se para dentro e para fora do círculo de João, pregando as palavras de seu mestre e batizando outros ao lado dele …” (ASLAN, 2013: 112-113).
Sublinho a observação do autor em relação a João 1:35-37: “Claro, os primeiros discípulos de Jesus, André e Felipe, não eram de maneira alguma seus discípulos – eram discípulos de João”. Nas palavras do Dr. James D. Dunn, um renomado teólogo contemporâneo: “(…) Alguns dos discípulos-chave [apóstolos] do próprio Jesus haviam sido antes discípulos do Batista…” (DUNN, 2017: 113). O que isso significa? Os discípulos de João Batista que seguiram Jesus assim o fizeram porque Jesus era o sucessor imediato de seu mestre!
João preparou o caminho de Jesus, que o percorreu com os próprios pés. Manifestou publicamente o Reino anunciado por seu mestre, ampliando a visão e aperfeiçoando a doutrina – a distância entre o reino celeste e o mundo era menor para Jesus do que para João. Este “não comia nem bebia vinho” (Mt 11: 18); aquele banqueteava-se e tomava vinho com alegria nas festas de “pecadores” (Mt 11: 19). Jesus aprendeu a enxergar Deus no próprio mundo através de uma compaixão singular e revolucionária. Deus não estava mais somente na solidão do deserto. “A ira vindoura de Deus e o fogo inextinguível a queimar a palha” (Mt 3: 7, 12) da voz clamorosa e metafórica de João Batista cumpre-se no sagrado, misericordioso e misterioso Sangue de Jesus, Vinho acridoce que tira os pecados do mundo! Viva o Daime! Viva o mestre João Batista!
Ano que vem, publicarei a Parte III desse estudo, um estudo da cena do batismo versejada nas últimas três estrofes.
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ARTE: Thálita Vanessa Pinheiro (@thaav_artes).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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AMARAL, Hélio soares do Amaral. Os Cães Filósofos: história da filosofia de resistência. São Paulo: Annablume, 2006;
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________. Introdução Ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2012;
CARNEIRO, Suikire A. O Cristianismo Do Cristo. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Educandário Social Lar de Frei Luiz, 1981;
COMENTÁRIO BÍBLICO ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA (Vol. 5). Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013;
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FLUSSER, David. O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, volume 1. Rio de Janeiro: Imago, 2000;
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TABOR, James D. A Dinastia de Jesus: A História Secreta das Origens do Cristianismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006;
TORRES QUEIRUGA, Andrés. Repensar A Ressurreição: a diferença cristã na continuidade das religiões e da cultura. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 2010;
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YOGANANDA, Paramahansa. Autobiografia de um Iogue. Rio de Janeiro: Lótus do Saber, 2001.




